Efeitos do índice Glicêmico no Tratamento a Longo Prazo do Diabetes Tipo 2


Dra. Maria Goretti
Nutricionista Professor Adjunto-Departamento de Nutrição - Universidade Federal de Pernambuco-UFPE
Membro do Departamento de Nutrição da SBD 2014/2016

Dra. Maria Goretti Burgos 
Nutricionista do Serviço de Diabetes / Hospital das Clínicas / UFPE, Doutora e Mestra em Nutrição pela UFPE, Especialista em Terapia Nutricional pela SBNPE, Membro do Departamento de Nutrição e Metabologia da SBD


Artigo comentado: 
American Journal of Clinical Nutrition, Vol. 87, No. 1, 114-125, January 2008
© 2008 American Society for Nutrition 

The Canadian Trial of Carbohydrates in Diabetes (CCD), a 1-y controlled trial of low-glycemic-index dietary carbohydrate in type 2 diabetes: no effect on glycated hemoglobin but reduction in C-reactive protein1,2,3 Thomas MS Wolever, Alison L Gibbs, Christine Mehling, Jean-Louis Chiasson, Philip W Connelly, Robert G Josse, Lawrence A Leiter, Pierre Maheux, Remi Rabasa-Lhoret, N Wilson Rodger and Edmond A Ryan. 

Aspecto de debate, dentro dos protocolos de dietas no tratamento do diabetes, é o uso de alimentos com baixo índice glicêmico, que vem recebendo atenção desde a sua descoberta, há 30 anos. Este índice consiste em um sistema de classificação de alimentos, que leva em consideração seus efeitos sobre as concentrações de glicose plasmática no período pós-prandial. Embora alimentos com baixo índice sejam conhecidos por produzirem menor hiperglicemia e hiperinsulinemia pós-prandial do que os de alto índice glicêmico, o seu papel exato no tratamento e prevenção do diabetes permanece controvertido. 

Um recente estudo clínico, randomizado e controlado, realizado com 162 pessoas com diabetes tipo 2 comparou os efeitos de dietas com diferentes índices glicêmicos (IG) e quantidade de carboidratos (CH) na alteração de parâmetros bioquímicos, como hemoglobina glicada (A1c), glicose plasmática, lipídeos e proteína C reativa (PCR). 


Os participantes foram randomizados nos seguintes grupos:

  • G1: dieta com alto IG (63), 47% de CH, 31% de gordura e 22% de proteínas;

  • G2: dieta com baixo IG (55), 52% de CH, 27% de gordura e 21% de proteínas;

  • G3: dieta com IG intermediário (59), 39% de CH, 40% de gordura (alto percentual de gordura monoinsaturada) e 22% de proteínas.

Após 1 ano de acompanhamento, foram encontrados resultados bastante significativos entre os grupos de dietas:
No grupo G1, a glicemia de jejum foi alta (p=0,041), mas a glicemia pós-prandial foi reduzida (p=0,010); a média de triglicérides foi 12% mais alta e HDL-C 4% mais baixa que a dieta do G3 (p< 0,05). Entretanto, a diferença na relação entre CT/HDL-c desapareceu aos 6 meses (tempo x interação dietética, p= 0,044). 

Ao mesmo tempo, a proteína C reativa foi de 1,95mg/dL, 30% menor do que a evidenciada no grupo G2 (PCR = 2,75mg/dL) com diferença significativa (p= 0,0078). Na dieta do grupo G3 observou-se PCR intermediária, com valores de 2,35mg/dL.

Diante dos resultados, os autores concluíram que em pessoas com diabetes tipo 2, com tratamento exclusivo de dieta, o controle adequado de glicemia por longo tempo, através de A1c, não foi afetado pelo IG e/ou quantidade de CH na dieta. 

Diferenças no CT e HDL-c, desapareceram durante 6 meses de acompanhamento. No entanto, por causa de reduções significativas na glicose pós-prandial e PCR, uma dieta a base de alimentos com baixo índice glicêmico pode ser preferencialmente utilizada no manejo clínico do diabetes tipo 2.

Comentários:

A pesquisa foi cuidadosamente conduzida e, provavelmente, é o primeiro estudo clínico, randomizado e controlado, realizado em humanos com diabetes tipo 2. O estudo tem bastante relevância para a prática clínica, por mostrar efeitos positivos do uso de dietas com baixo índice glicêmico sobre a glicemia pós-prandial e PCR. 

Pontos importantes e bastante positivos são: o número de pacientes e as características de cada grupo estudado, onde as características dietéticas estão bem delineadas. Apresenta resultados com dietas isoprotéicas, de qualidade semelhantes, que vêm sendo defendidas por nutricionistas neste tipo de estudo. Visto que, para os menos esclarecidos, apenas a proteínas teriam papel no controle da glicemia. A metodologia foi bem delineada, quando compara não só valores de IG nos grupos, como também os de carboidratos e lipídeos. 

O seguimento do estudo de 1 ano e os resultados avaliados dentro da análise estatística nos revela dados confiáveis para sua aplicação clínica imediata. Da mesma forma, sugere conduta dietoterápica atualizada, questionada nestes últimos 30 anos por pesquisadores, clínicos e associações nacionais e internacionais especializadas em diabetes, a exemplo da American Diabetes Association. 

Recomenda-se, portanto, investir mais profundamente na orientação nutricional especializada e individualizada, com planejamento alimentar dentro das condições sócio-econômicas e culturais dos pacientes, respeitando o máximo seus padrões alimentares vigentes.

Bibliografia relacionada:

Related articles in AJCN: A role for the glycemic index in preventing or treating diabetes? John M Miles
AJCN 2008 87: 1-2. 
Glycemic index in early type 2 diabetes Xavier Pi-Sunyer
AJCN 2008 87: 3-4.

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