Sobre a Metformina sempre há o que falar


Dra. Marília de Brito
Professora Associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

o manuscrito “Metformin: an old but still the best treatment for type 2 Diabetes” publicado em Diabetology&Metabolic Syndrome 2013, 5:6 (15 fevereiro 2013) por Rojas, LBA e Gomes, MB é apresentada uma excelente revisão sobre a Metformina- um medicamento muito conhecido no tratamento do Diabetes e que vem demonstrando desempenhar função importante no tratamento de outras morbidades.

As aplicações clínicas da metformina foram descobertas, em 1950, por Stern et al. Possui um efeito dose dependente na redução dos níveis glicêmicos.

O mecanismo de ação principal está na redução da produção hepática de glicose e secundário aumento da captação periférica pelo músculo. Essas ações são mediadas pela ativação da quinase hepática B1 (LKB-1).

É previsto que haja cerca de 350 milhões de pessoas diabéticas no mundo em 2030. Neste contexto, precisamos de ferramentas para prevenção de novos casos de Diabetes tipo 2 (DM2). Quando as mudanças no estilo de vida (MEV) não são suficientes e possíveis, o uso de medicamentos se torna uma excelente opção e a metformina torna-se peça-chave.

Nesta revisão, vários estudos que mostram o papel da metformina na redução da incidência de DM2 são apresentados e destaca-se o DPP (The Diabetes Prevention Program) que mostrou que a metformina foi capaz de reduzir em 31% novos casos de DM2 em comparação ao placebo.

No tratamento do DM2 a metformina configura-se como 1ª opção em todos os guidelines, reduzindo significativamente os níveis de A1c, apresentando baixo custo e elevada segurança, sem ganho ponderal. É discutido, de forma detalhada, o seu uso em monoterapia e em associação com as demais drogas orais e insulina.

Abordam o controverso tema: gestação e metformina. Ela parece ser uma boa opção para o tratamento do Diabetes Gestacional em obesas, mas ainda não há consenso. Estudos maiores e de longo prazo são necessários.

Diante do aumento da incidência de DM2 em crianças e adolescentes, o uso da metformina nesta população também é discutido, apesar de existirem apenas pequenos e poucos estudos sobre o tema.

Em crianças e adolescentes obesos e portadores de Diabetes tipo 1 (DM1), a metformina tem se mostrado uma boa escolha para associação à insulina, principalmente, pelo auxílio na prevenção do ganho ponderal e melhora da resistência à insulina.

Destacam também no artigo, os efeitos da metformina além do controle glicêmico, como: redução de marcadores inflamatórios e de estresse oxidativo, melhora da função endotelial, redução do peso corporal, melhora do perfil lipídico, controle pressórico, redução dos níveis de TSH, melhora da lipodistrofia em pacientes portadores de HIV em tratamento antiretroviral.

O papel há pouco conhecido de neuroproteção da metformina é muito bem descrito na Doença de Alzheimer: o Diabetes tipo 3. Este tipo de diabetes é caracterizado por disfunção na ação da insulina e resistência insulínica neuronal, que geram aumento de depósito amilóide- fator primordial para a patogênese desta doença. A Metformina, via AMPK, é capaz de reduzir esta resistência insulínica.

A metformina também tem sido utilizada no tratamento do câncer e está associada a menor mortalidade pela doença, principalmente, no câncer de mama e de cólon. Ela reduz a tumorigênese e o crescimento das células cancerosas por um mecanismo ainda não bem conhecido. Este mecanismo parece ser via AMPK, com inibição de vias de crescimento celular (mTOR).

Destacam as situações em que a metformina é contra-indicada: em pacientes com cetoacidose diabética ou coma hiperosmolar, falência renal, e condições agudas que possuem potencial para alterar a função renal. A dose de metformina deve ser revista e reduzida em pacientes com TFG de 45 ml/min e suspensa se a TFG for igual ou menor a 30 ml/min devido ao risco de acidose láctica (extremamente raro).

Os efeitos adversos mais comuns da metformina são no aparelho gastrointestinal, mas em geral, são leves e transitórios e melhoram com a titulação da dose e a ingestão concomitante às refeições. Atenção deve ser dada aos níveis de vitamina B12 e ácido fólico, pois pode haver deficiência dos mesmos. Hipoglicemia é incomum.

Finalizando, é descrita a apresentação XR que possui absorção lentificada, possibilitando tomada única e maior tolerabilidade por redução dos efeitos gastrointestinais, o que a torna uma excelente opção nos pacientes que não se adaptam à metformina original.

Mensagens importantes:

  • A metformina se configura como a principal droga no tratamento do Diabetes tipo 2 e disglicemias por sua eficiência clínica, poucos efeitos adversos, contra indicações, boa segurança e baixo custo.
  • É uma ferramenta importante associada às mudanças no estilo de vida na prevenção de Diabetes tipo 2.
  • A metformina possui efeitos além do controle glicêmico.
  • Pode se tornar uma excelente opção terapêutica para Doença de Alzheimer- o Diabetes tipo 3.
  • Apresenta papel no controle da tumorigênese e no crescimento das células cancerosas.

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