Avaliação do pé diabetico no Brasil – Análise Crítica


Dra. Marília de Brito
Professora Associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)


O manuscrito "The effectiveness of educational practice in diabetic foot: a view from Brazil", publicado em Diabetology&Metabolic Syndrome 2010, 2:45 (29 June 2010) aborda um importante tema no campo da diabetologia: a prevenção de ulcerações em pés de pacientes diabéticos com risco para complicações microvasculares.

O diabetes constitui a causa mais frequente de amputações não traumáticas de membros inferiores. Sabemos que cerca de 85% das amputações são precedidas por ulcerações e que cerca de 14 a 20% dos pacientes com ulcerações serão submetidos a amputações. No entanto, apenas 12% dos médicos examinam os pés de pacientes diabéticos assintomáticos.

Os pacientes diabéticos que evoluem com ulcerações/amputações de membros inferiores cursam com alterações na qualidade de vida, elevação de morbi-mortalidade, além de elevação dos custos diretos, relacionados com o tratamento desta complicação e dos custos indiretos, associados com absenteísmo e aposentadoria precoces.

O artigo comenta sobre a prevalência de ulcerações em pacientes diabéticos (em torno de 15%) e que em 70% dos casos ocorre recorrência das úlceras, as quais frequentemente progridem para amputação de membros inferiores.

Vários fatores estão envolvidos na fisiopatologia do pé diabético tais como neuropatia periférica sensitivo motora de membros inferiores, doença vascular periférica, limitação na mobilidade articular e traumas. O artigo enfatiza a necessidade de implementação de medidas preventivas para a ocorrência de úlceras em pacientes com diabetes mellitus (DM): avaliação rotineira de sensibilidade protetora plantar e doença vascular periférica; práticas de prevenção e cuidados com o pé (orientações sobre a maneira correta de lavar, secar e hidratar os pés, bem como a forma de cortar as unhas) e utilização de sapatos adequados além de auto inspeção diária dos pés e orientações de não andar descalço.

O artigo avaliou 60 pacientes (30 de cada sexo), média de idade de 62 anos e média de duração do DM de 17 anos que apresentavam pé em risco de ulceração, porém sem episódio de ulceração prévio. Todos os pacientes foram submetidos à avaliação médica [presença de neuropatia periférica (através da utilização de diapasão 128 Hz- sensibilidade vibratória e monofilamento de Semmes-Weinstein- sensibilidade protetora plantar) além de pesquisa de doença vascular periférica (palpação de pulsos pediosos e tibiais posteriores e índice tornozelo braquial na presença de alteração de palpação dos pulsos distais) e calosidades / deformidades nos pés]; consulta de enfermagem (orientações sobre cuidados com os pés) e educação em grupos (direcionada para os familiares / cuidadores).

A prevalência de complicações relacionadas ao DM nos pacientes avaliados foi de: retinopatia diabética (71.6%), nefropatia diabética (61.6%), doença cardiovascular (50%), neuropatia periférica (100%) e doença vascular periférica (21.6%). Os resultados de aderência às orientações e cuidados com o pé diabético foram as seguintes: hidratação adequada (77%), cuidados adequados de lavar e secar os pés (88%), corte das unhas e cutículas adequados (83%), inspeção rotineira dos sapatos (77%), uso de pedra-pomes ou outros abrasivos (30%), andar descalço (5%), uso de sapatos adequados conforme prescrição (8.7%). Nenhum paciente do estudo apresentou ulcerações nos pés.

Programas de educação para prevenção de pé diabético, envolvendo equipe multidisciplinar, devem ser implementados para assistência de pacientes com DM, especialmente os pacientes que apresentam pé em risco de complicações, uma vez que estas medidas podem minimizar a ocorrência de ulceras.

Mensagens importantes:

  • - Todo paciente diabético precisa ser submetido a avaliação dos pés na consulta médica de rotina.
  • - Avaliação de neuropatia periférica sensitivo-motora de membros inferiores e pesquisa de doença vascular periférica deve ser realizada anualmente.Recomenda-se também a triagem para as demais complicações crônicas.
  • - O paciente diabético e seus familiares devem ser orientados quanto aos cuidados com o seu pé e deve adotar medidas preventivas para o aparecimento de úlceras, principalmente os pés em risco de ulceração.
  • - Programas de educação para prevenção do pé diabético com equipe multidisciplinar devem ser implementados para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e redução de morbi-mortalidade associada à esta complicação.
  • - A baixa aderência à prescrição de sapatos adequados ainda constitui um entrave ao tratamento do pé diabético.

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