Mudança de estilo de vida: utopia ou realidade a ser MELHOR praticada?


Dra. Marlene Merino
Nutricionista da Universidade Federal Fluminense
Doutora em Ciências da Nutrição IN-UFRJ
Coordenadora do departamento de Metabologia e Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes 2014/2015

Há alguns anos é consenso entre os especialistas em diabetes que o tratamento baseado em uma alimentação saudável e atividade física regular é eficiente para o bom controle do diabetes.  No entanto, o que se verifica popularmente é um descrédito a essa conduta, muitas vezes sustentada na prática clínica por “achismos” que sentenciam a mudança de estilo de vida a uma meta inatingível para a grande maioria da população.

Diante desse cenário no mínimo equivocado e por acreditar que a informação baseada em evidências científicas ainda é o que deveria suportar a nossa prática clínica, selecionei um artigo publicado no ano passado que foi usado como referência na publicação da ADA (Associação Americana de Diabetes) de 2011 para indicar a mudança do estilo de vida no tratamento do diabetes.  Segue o resumo do artigo.

Long-term Effects of a Lifestyle Intervention on Weight and Cardiovascular Risk Factors in Individuals With Type 2 Diabetes Mellitus Four-Year Results of the Look AHEAD Trial.

O estudo avaliou os efeitos da mudança do estilo de vida sobre o risco cardiovascular em portadores de diabetes durante os primeiros 04 anos de seguimento. O Look AHEAD (action for health in Diabetes) Trial é um estudo multicêntrico randomizado, realizado em 16 centros nos Estados Unidos que teve como objetivo avaliar a incidência de eventos cardiovasculares em 5145 indivíduos com sobrepeso/obesidade e diabetes tipo 2.

A amostra desse estudo foi caracterizada por 59,9% de mulheres, 14,4% de indivíduos com história de DCV (doença cardiovascular), médias de idade e IMC de 58,7 anos e 36kg/m², respectivamente. O tempo médio de diabetes tipo 2 foi de 6,8 anos. A amostra foi randomizada em dois grupos de intervenção: mudança do estilo de vida (n=2570) e suporte médico e educação (n=2575).

A intervenção com a mudança do estilo de vida teve como meta a perda de 7% do peso, utilizando plano alimentar que variou de 1200kcals a 1800kcals. A alimentação apresentou as seguintes características: 30% de gordura total, 7% de gordura saturada, 15% de proteína e total de carboidratos para completar o valor calórico. A atividade física programada teve com meta exercícios com duração de 125min/semana. Ademais foram usadas estratégias comportamentais para obter as metas de monitoração de glicemia e resolução de problemas. Todo o processo foi realizado com assessoria de uma equipe multiprofissional de especialistas. O cronograma da intervenção previu no primeiro ano, consultas semanais nos 06 primeiros meses e nos 06 meses 


Do segundo ao quarto ano foram realizadas consultas individuais 01 vez por mês. As trocas de medicação seguiram o protocolo médico padronizado pelo estudo. Todos os participantes eram avisados dos grupos mensais de educação por telefone e/ou e-mail. A cada sessão do grupo era aferido o peso e realizada a auto-monitoração, além de receberem sempre uma nova informação de educação.seguintes encontros de grupos e consultas 03 vezes por mês.

Para o outro grupo foi oferecido suporte médico de acordo com protocolo médico do estudo e grupo de educação com 3 sessões por ano de acordo com protocolos padronizados elaborados por especialistas, que tinham como foco a dieta, atividade física e suporte social. Não foram usadas estratégias comportamentais nesse grupo.

Os resultados das duas intervenções foram avaliados por meio da comparação entre os valores médios das variáveis no início do estudo e depois de 04 anos. No final do estudo, o grupo com a intervenção da mudança no estilo de vida apresentou diferenças significativas para redução de peso, gasto de energia com atividade física, diminuição da hemoglobina glicada, redução da pressão arterial sistólica, maiores valores de HDL-C e menores concentrações de triacilgliceróis. O grupo com suporte médico e educação teve maior redução nas concentrações de LDL-C, mas que perderam a significância ao se ajustar pelo efeito do uso da medicação.

Os autores concluíram que nos 04 primeiros anos de seguimento do estudo a intervenção pela mudança do estilo de vida produziu perda de peso sustentável e melhora da aptidão cardiovascular. Verificou-se que o tratamento medicamentoso atuou apenas em 01 fator de risco enquanto que a mudança no estilo de vida produziu mudanças positivas simultâneas em diversas variáveis de risco cardiovascular.

Embora o período de 04 anos ainda seja pouco tempo para avaliar o risco cardiovascular pode-se ressaltar que os resultados apresentados neste estudo são bem consistentes e corroboram para o fortalecimento das práticas saudáveis de alimentação e estilo de vida como primeira escolha para o tratamento do diabetes, além de evidenciar a importância da equipe multidisciplinar. O estudo Look AHEAD tem como meta de seguimento 12 anos.

Leia mais: 

Long-term Effects of a Lifestyle Intervention on Weight and Cardiovascular Risk Factors in Individuals With Type 2 Diabetes Mellitus Four-Year Results of the Look AHEAD Trial.  Arch Intern Med. 2010;170(17):1566-1575.

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