Circunferência da cintura como preditor de risco Metabólico em adolescentes


Dra. Marlene Merino
Nutricionista da Universidade Federal Fluminense
Doutora em Ciências da Nutrição IN-UFRJ
Coordenadora do departamento de Metabologia e Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes 2014/2015

Artigo comentado: Waist circumference is an independent predictor of insulin

resistance in black and white youths The Journal of Pediatrics Volume 148, Issue 2 , Pages 188-194, February 2006.SOJUNG LEE, PHD, FIDA BACHA, MD, NESLIHAN GUNGOR, MD, AND SILVA A. ARSLANIAN, MD

A obesidade, considerada uma epidemia em todo o mundo, possui uma  elevada associação com doenças cardiovasculares tal fato, vem se tornando ainda mais grave por atingir faixas etárias mais jovens. A identificação dos grupos mais vulneráveis é importante para o estabelecimento de uma estratégia de prevenção e controle desta epidemia. No âmbito da saúde pública existe a necessidade de implementar ferramentas práticas e úteis que consigam identificar os grupos de riscos para as doenças cardiovasculares provenientes do excesso de peso.

 As medidas antropométricas mais amplamente utilizadas para avaliar obesidade são o peso, estatura e as circunferências da cintura e quadril. Estudos epidemiológicos em adultos mostraram que na avaliação da obesidade,  o Índice de massa corporal (IMC=P/A²) e a circunferência da cintura (CC) são os melhores preditores para risco metabólico. Recentemente um estudo realizado com uma amostra representativa da população adulta mostrou evidências de que a CC foi melhor preditor de risco do que o IMC. Portanto, a CC é considerada atualmente um forte preditor de gordura abdominal e de disfunção metabólica em adultos.

Em adolescente, até bem pouco tempo se desconhecia a habilidade da CC em predizer gordura abdominal e da sua associação com comorbidades. Nesta faixa etária,  a avaliação da obesidade através de medidas antropométricas pode apresentar algumas limitações, tendo em vista as grandes variações entre indivíduos e população quanto ao início, duração, seqüência e magnitude do desenvolvimento puberal. Assim, a idade cronológica perde um pouco do seu poder explicativo para as mudanças na composição corporal observadas nesta fase. Por estes motivos há controvérsia na literatura sobre o uso do IMC e da CC para avaliar obesidade nesta faixa etária.

Um estudo realizado com  adolescentes mostrou a associação da CC com risco metabólico. Os objetivos da pesquisa foram determinar a capacidade da CC em refletir a gordura total, abdominal e visceral  e  investigar o seu poder preditivo para resistência à insulina, independente do efeito do IMC. Foram avaliados 145 adolescentes saudáveis (56 negros e 89 brancos), na faixa etária 8-17 anos e com IMC variando de 14 a 50kg/h². A avaliação da composição corporal foi realizada através do DEXA (dual-energy x-ray absorptiometry) e a gordura subcutânea e visceral foi medida pela tomografia computadorizada. A sensibilidade à insulina foi verificada através do clamp hiperinsulinemic-euglycemic.

Os resultados do estudo mostraram que tanto o IMC quanto a CC foram significantemente associados com gordura total, abdominal e visceral. Entretanto a CC manteve sua correlação significante com gordura total e abdominal, perfil metabólico mesmo depois de controlar o efeito do IMC, independente da raça. O mesmo não ocorreu ao avaliar o IMC, que não manteve a correlação significante com a gordura visceral e marcadores de resistência à insulina após controlar o efeito da CC.  Estes achados sugerem  que o efeito do IMC sobre a gordura total, abdominal e do perfil metabólico foi mediado pela obesidade central, medida pela CC e que ela sozinha foi um preditor independente de gordura total, abdominal e perfil metabólico. A partir dessas observações o autor sugere que a CC poderia ser incorporada na avaliação da obesidade infantil tanto na prática clínica quanto em pesquisas para identificação de pessoas com aumento de risco causado pelo excesso de gordura total e abdominal.

Os resultados desse estudo são de grande contribuição para avaliação do risco metabólico em adolescente, entretanto é importante ressaltar que diferente do adulto, no adolescente não existe até o momento padronização de pontos de corte específicos de CC para designar risco metabólico.

VOLTAR