Resistência à insulina em adolescentes brasileiros do sexo feminino: Associação com sobrepeso e alterações metabólicas.


Dra. Marlene Merino
Nutricionista da Universidade Federal Fluminense
Doutora em Ciências da Nutrição IN-UFRJ
Coordenadora do departamento de Metabologia e Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes 2014/2015

Insulin resistance in Brazilian adolescent girls: Association with overweight and metabolic disorders. MM Alvarez, ACR Vieira, AS Moura, GV Veiga.   Diabetes Research and Clinical Practice  2006; 74:183–8.

A adolescência é um período de risco para o aparecimento da resistência à insulina porque há uma redução fisiológica na sensibilidade à insulina que é compensada pelo aumento na sua secreção. Essa redução transitória do hormônio, parece ser mais freqüente nas adolescentes do sexo feminino.

Em 2003 foi realizado um estudo para avaliar risco cardiovascular em uma amostra probabilística com 610 adolescentes de 12 a 19 anos de escolas públicas de Niterói, Rio de Janeiro. Adolescentes do sexo feminino foram selecionadas para avaliar a resistência a insulina e associação com sobrepeso e alterações metabólicas.  Atenderam aos critérios de elegibilidade 388 meninas. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 As adolescentes foram avaliadas através de dados antropométricos e bioquímicos. Foram obtidos  peso (kg), estatura (cm),  circunferências da cintura (cm) e do quadril (cm) e a razão cintura/quadril. O Índice de Massa Corporal (IMC= P/A²) foi calculado e  utilizado a classificação do IOTF (International  Obesity Task Force) para diagnóstico de sobrepeso/obesidade. Uma alíquota de sangue foi colhida com as adolescentes em jejum de 12 horas. Foram avaliados os níveis de glicose, colesterol total, HDL (high-density lipoprotein), triglicérides e insulina. Os valores de LDL (Low-density lipoprotein) e HOMA-IR (Homeostatic Model Assessment-Insulin Resistance) foram calculados através de fórmulas específicas.  Valores altos de HOMA-IR indicaram  resistência a insulina. A  SM foi definida de acordo com a presença de 3 ou mais dos  fatores: sobrepeso/obesidade, glicose ³ 100mg/dl, HDL < 35 mg/dl, LDL ³ 110mg/dl e triglicerídeos > 130mg/dl.  Os pontos de corte do perfil lipídico seguiram as recomendações para adolescentes estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2001. 

Os resultados do estudo mostraram que 14,3% das adolescentes tinham sobrepeso/obesidade e 3,2% apresentavam SM. A ocorrência aparentemente baixa da SM verificada nas adolescentes brasileiras é preocupante porque foi bem  similar à verificada em um outro estudo nos Estados Unidos (Cook et al, 2003)  que apresentava prevalência superior de sobrepeso/obesidade em adolescentes. Vale ressaltar que a comparabilidade dos dados sobre SM, deve ser vista com cautela, devido à falta de padronização universal nos critérios de diagnóstico para  adolescente. 

No estudo verificou-se que  a SM  foi expressivamente  mais alta (55,9%) nas adolescentes com sobrepeso que apresentavam maiores valores de  HOMA-IR, reforçando a importância do excesso de peso no processo da doença. O valor médio do HOMA-IR no grupo com sobrepeso foi de 2,25 que é bem próximo ao ponto de corte designado, por alguns autores, para resistência à insulina em adultos. Dentre as variáveis bioquímicas,  somente o HDL foi associado significantemente com o HOMA-IR, de maneira inversa e independente do IMC e da idade.

O estudo conclui que o sobrepeso e a resistência à insulina são os principais fatores na gênese da SM nos adolescentes brasileiros do sexo feminino e podem representar um importante fator de risco para diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares na vida adulta.

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