Carga Glicêmica na perda ponderal e no risco cardiovascular


Dra. Marlene Merino
Nutricionista da Universidade Federal Fluminense
Doutora em Ciências da Nutrição IN-UFRJ
Coordenadora do departamento de Metabologia e Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes 2014/2015

Artigo comentado:Comparison of 4 diets of varying glycemic load on weight loss and cardiovascular risk reduction in overweight and obese young adults. A Randomized Contolled Trial. Arch Intern Med 2006;166:1466-75. McMillan-Price J, Petocz P, Atkinson F, O’Neill K, Samman S, Steinbeck K, Caterson I, Brand-Miller J.

O padrão alimentar da população mundial vem se modificando nas últimas décadas, com o aumento do consumo de alimentos de alta densidade energética, ricos em gorduras saturadas e pobres em fibras. Segundo a Organização Mundial da Saúde, esse padrão alimentar combinado ao declíneo do gasto energético é responsável pelo aumento significativo das mortes prematuras causadas por doenças crônicas como diabetes e  doenças cardiovasculares.

Dentre os fatores nutricionais associados a risco cardiovascular, a carga glicêmica (CG= índice glicêmico (IG) X quantidade de carboidrato disponível na porção do alimento/100) se destaca como uma promissora ferramenta nutricional para avaliação da glicemia pós-prandial. Vários estudos associam a alta carga glicêmica dos alimentos ao maior risco de desenvolvimento de diabetes e doenças cardiovasculares.

O mecanismo dessa associação estaria na resposta pós-pradial exacerbada da insulina, favorecendo em longo prazo, obesidade e resistência à insulina.

Um estudo (McMillan-Price., 2006) de intervenção, randomizado, controlado e conduzido por 12 semanas com 129 indivíduos de 18-40 anos com sobrepeso/obesidade. Foram testadas 4 estratégias nutricionais hipocalóricas (1400kcals para mulheres e 1800kcals para homens), com 30% de gordura e 30g de fibras/dia. As estratégias se diferenciavam pela quantidade e qualidade dos carboidratos (CHO):

Dieta 1: 55% CHO, 15% de proteínas e predomínio de alimentos com alto IG. 

Dieta 2: Apresentava as mesmas proporções de macronutrientes da dieta 1 e predomínio de alimentos de baixo IG.

Dieta 3: Alto teor proteico (25%), baixo teor de carboidrato (45%), baseada em carnes magras e predomínio de alimentos com alto IG.

Dieta 4: Apresentava as mesmas proporções de macronutrientes da dieta 3 e predomínio de alimentos com baixo IG.

Os indivíduos receberam orientação e treinamento com nutricionista para execução do plano alimentar com quantidades específicas, incluindo listas. Para comprovar que as dietas produziam diferentes respostas de glicemia e insulinemia foram oferecidas refeições dos 4 tipos de dieta para um subgrupo de 11 voluntários do estudo. Foram avaliadas as respostas de glicose e insulina ao longo de 10 horas.

No início e no final do estudo de intervenção foram verificadas a composição corporal pelo DEXA (dual-energy x-ray absorptiometry) e o peso corporal. A glicose, insulina, leptina, colesterol total, HDL (high density lipoprotein), LDL (low density protein), triglicerídeos, ác. graxos livres e proteína C reativa foram obtidos em jejum e avaliados no início do estudo, com 6 e 12 semanas. No início do estudo e nas semanas 4 e 8, foi realizado o registro alimentar de 3 dias, incluindo 2 dias da semana e 1 de fim de semana, para avaliar a aderência à dieta e a estimativa da quantidade de alimento. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética da Universidade de Sydiney, Austrália.

Após as 12 semanas do estudo todas as dietas resultaram em perda ponderal (31% dieta 1, 56% dieta 2, 66% dieta 3, 33% dieta 4).  A redução no peso, massa de gordura e circunferência da cintura foi significante dentro de cada grupo (p<0,001) no entanto, não houve diferença significante entre os 4 tipos de dieta. Para a maior parte dos fatores de risco cardiovascular não houve efeito diferenciado de acordo com a composição da dieta. Entretanto, foram encontrados efeitos divergentes nos níveis de colesterol e LDL (p=0,04 e p=0,02, respectivamente) que apresentaram aumento dos valores no grupo da dieta 3 em contraste com a redução no grupo da dieta 2 (p=0,03 para colesterol; p=0,01 para LDL). A dieta 2 apresentou maior diminuição nos níveis de leptina. O aumento da glicemia ao longo das 10 horas foi mais alto no grupo da dieta 1 e mais baixo no grupo da dieta 4. Da mesma forma, a insulinemia foi mais alta no grupo da dieta 1 e mais baixa no grupo da dieta 4. A CG foi significantemente correlacionada com a glicose (r=0,35; p=0,02) e insulina (r=0,35; p=0,02). A variação da CG teve um efeito mais forte (p=0,03) sobre a glicemia do que a variação do conteúdo proteico (p=0,05), cujo efeito foi mais forte na insulinemia (p=0,002).

O estudo sugere que a CG  e não somente a redução do consumo energético influencia na perda ponderal e na glicemia pós-prandial. Ademais, dietas baseadas em alimentos integrais com baixo IG potencializou a redução do risco cardiovascular. O estudo apresentou algumas limitações quanto ao cumprimento exato das metas de energia e do consumo de fibras. Os autores relataram ainda que 12 semanas são insuficientes para avaliar em longo prazo, os efeitos de dieta na função cardiovascular.

Apesar de todas as limitações características de um estudo de intervenção dietética, o artigo é muito interessante porque aborda a efetividade de diversas estratégias nutricionais que são comumente usadas de maneira empírica na prática clínica.  Os resultados sinalizam que a utilização adicional dos valores de carga glicêmica a prescrição de um plano alimentar balanceado (tradicional ou por contagem de carboidrato) é uma excelente estratégia no controle e prevenção do risco cardiovascular.

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