Escherichia Coli: de amiga a assassina


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

A Escherichia coli (E.coli) tem sido manchete na imprensa mundial nas últimas semanas. Trata-se de uma bactéria conhecida desde 1865. O seu habitat natural é o intestino do homem e de animais de sangue quente. No nosso intestino existem muito mais bactérias do que a soma de todas as nossas células corporais. Uma pessoa evacua diariamente cerca de 1 trilhão de escherichias. Com a E.coli, existem muitas outras bactérias  no nosso intestino.

O nosso organismo tem uma convivência pacífica com elas, chamada de simbiose. Elas não nos agridem, não penetrando nas nossas mucosas intestinais, ou produzindo substâncias que nos sejam tóxicas. Por outro lado, o nosso sistema imune as reconhece como “amigas”, e como tal, também não as tenta expulsá-las. Nesta convivência, elas desempenham um papel importante, favorecendo absorção dos nossos alimentos e por eles são alimentadas. Nos últimos tempos, tem se levantado a hipótese de que tenham também importância na determinação do nosso peso corporal. Assim, em alguns tipos de ratos obesos, existem bactérias intestinais diferentes dos animais magros. E quando se  alimenta os ratos magros, com baterias intestinais de gordos, eles engordam.

As experiências em humanos estão em fases iniciais e os resultados não são conclusivos. A nossa convivência nem sempre é pacifica com as bactérias intestinais. Exemplo: a Escherichia coli é a causadora da grande maioria das infecções urinárias, principalmente nas mulheres. Pela proximidade anatômica entre o anus e o meato uretral, a Escherichia pode com facilidade alcançar o aparelho urinário e as vias urinárias, ao contrário do intestino, que não dispõem de um mecanismo para uma convivência pacífica, resultando uma infecção urinária.

A infecção intestinal também pode ocorrer por E. Coli, nesta situação, uma bactéria diferente daquelas que convive conosco é a responsável. Ela é resultante de uma modificação do seu padrão genético, uma mutação, por incorporação de material de outras espécies. Quando isso acontece, o nosso organismo reconhece a agressora e se instala a infecção, febre, cólicas, diarréia, vômito, entre outros.

Na grande maioria dos casos, são infecções não graves que evoluem para a cura sem maiores transtornos. Acontece que, em algumas ocasiões, são geradas por meio dessas mutações e espécies extremamente agressivas. Na África já foram isoladas espécies E.coli, capazes de acarretar formas clínicas graves, com severas hemorragias intestinais e/ou destruição de hemácias. O material produzido pelo rompimento dos glóbulos vermelhos interfere nos rins, acarretando a Insuficiência Renal. Complicação esta que pode levar a morte ou a cronificação, obrigando aos seus portadores a submeter-se a hemodiálise pelo resto de suas vidas.

A Escherichia que está causando tanto temor as autoridades da saúde é a  0104: HA, que tem estas duas ações maléficas, podendo causar tanto a Síndrome Entero-Hemorrágica, como a Entero-Renal.

De onde surgiu esta bactéria? Ainda não sabemos. A hipótese de ser originada de pepinos espanhóis está descartada. O broto de feijão tem sido ultimamente acusado. A grande maioria dos casos surgiram na Alemanha, porém,  já foram descritos pacientes na Suécia , Áustria , Dinamarca, Holanda , Noruega , Espanha e Suíça. O número de acometidos já ultrapassa de 2 mil.

Nenhum  antibiótico até agora se mostrou eficaz, até pelo contrário, alguns deles quando usados aumentaram sua agressividade. Por enquanto, a recomendação das autoridades de saúde européias é de aumentarmos os nossos cuidados com a higiene dos nossos alimentos e com as nossas mãos. Obviamente, também deveremos evitar ingerir alimentos crus.

E que os cientistas descubram uma medida eficaz de combatê-la. BREVE.

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