Quando o médico é o paciente


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

O médico é quem mais sabe de que o estilo de vida saudável, pode prevenir varias doenças. Fazer exercícios  físicos com regularidade, evitar o excesso de peso  não fumar, não beber ou fazê-lo com moderação, respeitar o tempo de lazer e descanso, etc. O profissional de medicina  conhece isso muito bem e indica esse tipo de comportamento para os seus clientes. Além disso, ele conhece como ninguém, os sintomas das doenças.

Por conta disso, deveria ser capaz de fazer diagnósticos precoces em si mesmo, iniciando precocemente a terapêutica, melhorando assim a probabilidade de sucesso terapêutico. Por conviver diretamente com outros médicos, tem maior facilidade de acessá-los. Pelo seu conhecimento, é capaz  de escolher o profissional mais habilitado para tratá-lo.

Com todas estas vantagens, era de se esperar que o médico tivesse melhores indicadores de saúde e maior longevidade. Deveria se esperar que isto ocorresse mas não acontece, aliás, muito pelo contrário. O profissional de medicina tem muito mais problemas de saúde, e inclusive vive menos tempo do que muitas outras categorias profissionais.

A maioria dos médicos não seguem as prescrições de estilo de vida que fazem para os pacientes, não respeitam a necessidade de descanso e lazer, e quando o fazem, costumam realizá-los de maneira incorreta.

A ingesta de álcool e até de drogas ilícitas, é maior nesta categoria. Os exercícios físicos regulares só são realizados por uma minoria. Por conta deste estilo nada saudável e de uma profissão muito estressante, também acontecimentos lamentáveis, não doenças, acontecem mais frequentemente. Suicídios, desastres automobilísticos entre eles.

O problema de saúde do médico se agrava, quando ele é o paciente. Em primeiro lugar, muitos deles não realizam a chamada medicina preventiva. Não freqüentam um consultório de um colega, nem fazem exames laboratoriais periodicamente. Inicialmente resistem o que puderem para assumir a condição de doente e procurar assistência. Tem um sentimento de superioridade, absolutamente falso sobre os problemas de saúde. "Doença é para os meus pacientes e não para mim".

A própria sociedade, tem um pouco dessa visão. E alguns médicos demoram admitir a sua doença com medo da repercussão negativa sobre sua clínica. "Aquele médico não foi capaz de evitar a doença nele, quanto mais a minha". Como resultado na UTI cardiológica, a mortalidade do paciente médico é maior em duas vezes ou mais.

A comunidade tem que entender que médicos, homens e mulheres, são simples indivíduos e por conta disso vulneráveis, até mais  do que a maioria  das pessoas.

A relação do paciente médico com quem lhe está tratando, muitas vezes é tumultuosa. Muitos desconfiam da competência do profissional, que ele mesmo escolheu. O sentimento de superioridade falso, que alguns médicos tem, os estimula a opinar sobre o que não entendem. Afinal o que sabe um oftalmologista sobre uma pancreatite?

Para agravar o problema  o profissional que o está tratando, também não colabora para o sucesso da terapêutica. Não o trata como paciente normal, e consulta o doente mais do que deveria. A situação só tende a normalizar-se em duas condições, ou quando o doutor for autoritário ou a doença do médico for grave.

Por conta de toda essa problemática, algumas escolas de medicina, estão introduzindo nos seus currículos abordagens sobre a saúde destes profissionais. Enfatizar para o médico a necessidade de melhor tratar a sua saúde. E ao profissional que os trata, como se conduzir diante do quase sempre, tão difícil paciente.

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