Quem causa nossas doenças, os genes ou o ambiente?


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Em 1993 foi concluído um projeto científico patrocinado pelo governo americano, chamado Human Genome Project .

O seu objetivo foi identificar os mais de 20.000 genes, da espécie humana. A sua conclusão foi considerada pela comunidade cientifica, como um grande progresso para a medicina.

A sua importância foi comparada a das descobertas das vacinas e dos antibióticos.

Os benefícios que esta pesquisa trariam para a humanidade seriam grandiosos.

A identificação dos genes, que condicionariam no futuro, determinadas doenças, permitiriam que evitássemos os fatores ambientais, que colaborassem com seu surgimento.

Além disso, seria possível diagnosticar as patologias precocemente, aumentando a possibilidade de sucesso terapêutico.

Uma pessoa que tivesse os genes que muito provavelmente fariam lhe surgir, no futuro, um câncer de esôfago, seria desde cedo que submetida a endoscopias digestivas.

E ao menor surgimento de uma lesão, a trataríamos. Além disso, no futuro, com a evolução tecnológica poderíamos inclusive modificar os genes maus.

Isto nos levaria, sem dúvida a uma muito melhor qualidade de vida e a uma maior longevidade. Além disso iria haver uma grande diminuição dos custos da medicina.

Por exemplo, deixaríamos de realizar mamografias em mulheres cujos genes afastassem a possibilidade do surgimento de cancer de mama. Com esta perspectiva , muitas pesquisas, mais de 700 setecentas  foram e vem sendo realizadas, em vários paises.

Por serem muito onerosas, acredita-se vários bilhões de dólares já foram gastos.

No entanto, infelizmente até a data atual os resultados são no mínimo decepcionantes, frustrantes.

A exceção de um pequeno número de patologias, a maioria raras, o estudo dos genes humanos não nos trouxe maiores benefícios.

Excluídas estas raras doenças, não se conseguiu determinar um padrão genético que implicasse em um aumento significativo da possibilidade do surgimento de patologias. Entre estas poucas, que os estudos detectaram um padrão gênico específico  estão a doença Huntington, uma síndrome neurológica, uma das formas de anemia hemolítica, e a Hemocromatose, distúrbio do metabolismo do ferro, com sérias repercussões para a saúde.

Também existe um padrão gênico para Fibrose Cística, doença caracterizada pelo surgimento de cistos no pulmão e sistema digestivo e que acomete 1 em cada 33.000 crianças.

Afora essas condições, muito pouco frequentes, também se conseguiu identificar um padrão de genes que aumenta significativamente a possibilidade do surgimento da doença de Alzheimer.

Também os portadores dos genes BRAC 1 e 2, tem uma chance muito aumentada de câncer de mama. Por conta disso algumas pacientes portadoras desses genes, fazem cirurgia para retirada do tecido mamário, como medida preventiva.

Ressalte-se no entanto ,que mais de 95% das mulheres acometidas de tumor mamário, não tem esses genes. Convenhamos, resultados extremamente modestos para o número de pesquisas e de dinheiro investido.

Para a grande maioria das doenças, as mais prevalentes na população a contribuição do estudo dos genes é praticamente nenhuma.

Desconhece-se padrão gênico que aumente o risco de: câncer, obesidade, diabetes, doença cardíaca, hipertensão, vascular cerebral, esquizofrenia, depressão, autismo, parkinson, etc.

As dezenas de tentativas de identificar gens para estas doenças, tem fracassado.

Uma pesquisa associa a presença de varios genes.  Outros pesquisadores não confirmam estes dados e propõem outros candidatos. Desta maneira a maioria da comunidade científica está decepcionada, com os dados oferecidos até agora, no tocante a descoberta de genes responsáveis pelo surgimento de doenças. Inclusive, enfatizam ser atualmente, totalmente desaconselhável que alguém gaste qualquer dinheiro, na realização de uma pesquisa para identificar genes que poderiam lhe acarretar uma doença no futuro.

Assim o pensamento atual é que as doenças resultam, muito principalmente das condições ambientais.

Muitos exemplos corroboram esta tendência . A obesidade na China era muito pouco prevalente. Com a introdução de hábitos dietéticos ocidentais ,a China já tem mais obesos, do que toda população brasileira . Os japoneses quando vivem no seu país, são menos acometidos pelas doenças cardiovasculares do que outas populações. Quando emigram para os Estados Unidos, se igualam aos Americanos.

Os seguidores da religião Jesus Cristo dos Últimos Dias, vivem 8 anos mais do que a média de americanos.

Afinal são vegetarianos, não fumam ou bebem.

Em resumo sua saúde e longevidade estão em suas mãos. Cuide-se.

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