Gordura para tratar a Síndrome de Tensão Pré- Menstrual?


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

A síndrome da Tensão Pré- Menstrual, é uma condição extremamente freqüente e controvertida. Algumas estatísticas mostram que mais de 70% das mulheres, durante a fase da vida que são férteis, apresenta pelo menos, alguns dos sintomas da síndrome.

A condição é definida como um conjunto de sintomas físicos e ou psíquicos que acontecem na 2ª metade do ciclo menstrual. Geralmente, desde o 12ª dia que antecede a menstruação.

Esses sintomas desaparecem logo nos primeiros dias de sangramento, mas voltam a ocorrer nos ciclos seguintes. São descritos muitos sintomas, dezenas. Desconforto mamário, sensação de inchaço, tristeza algumas vezes com idéias suicidas, ansiedade, pânico, choro fácil, irritabilidade, insônia, aumento ou a aversão de atividades sexuais, dificuldade da concentração, dores articulares, cefaléia e apatia são alguns deles.

Felizmente na maioria das mulheres, eles não são numerosos e nem muito intensos. No entanto, em algumas delas, a intensidade sintomática é tão intensa que prejudica seriamente as suas atividades com a família e com o trabalho.

A Tensão Pré-Menstrual é referida como causa de desentendimentos graves entre os casais, e até de demissões trabalhistas. Inclusive, por se temer que as mulheres quando por ela a acometidas, diminuíssem as suas capacidades de julgamento, a admissão delas como juízes, chegou a ser contestada.

Vários casos de suicídios são também a ela atribuídos. Apesar de usa elevada prevalência a síndrome não é reconhecida como uma doença pela Organização Mundial de Saúde, nem pelos países europeus.

Na Europa, é considerada como manifestação de psicopatia e como tal deve ser tratada. Qual mecanismo que leva a ela a ocorrer? A primeira suspeita é de que sua origem fosse hormonal.

Afinal, diferente do sexo masculino em que a secreção dos hormônios sexuais é igual a todos os dias do mês, na mulher existe diferenças significativas. Na primeira metade do ciclo a produção ovariana é caracterizada pela produção de estrógenos, após a ovulação a secreção dominante é de outro hormônio, a progesterona.

Seria óbvio se suspeitar que as portadoras de síndrome tivessem um padrão de secreção ovariana, diferente das que não apresentassem o problema. No entanto, até os dias de hoje, em que pese o grande número de pesquisas realizadas, não se demonstrou nenhuma alteração de secreção hormonal ovariana, nos portadores da síndrome.

E por conta disso, não existe nenhum exame laboratorial que possa ser utilizado se firmar o seu diagnóstico. É só através da história clínica, é que se pode diagnosticar uma portadora. Como não se conseguiu demonstrar o mecanismo exato da sua etiologia, existem a hipóteses, muitas hipóteses.

Na quase totalidade, delas tenta se explicar que nas mulheres acometidas ocorreria por uma resposta periférica anormal, dos diversos órgãos, a níveis hormonais normais. Isto então poderia causar funcionamento alterado no cérebro, e ou nas adrenais, e ou nos rins, no metabolismo do cálcio e zinco etc.

Outros imputam a deficiência da vitaminas E, B6 etc. Existem ainda, os que defendem a síndrome decorrem problemas psicológicos. Por conta disso existem inúmeros tratamentos propostos. Pílulas anticoncepcionais, antidepressivos, anti-inflamatórios, diuréticos, vitaminoterapia, psicoterapia, acupuntura, homeopatia etc. Os dois primeiros são mais usados, e os que demonstram maior eficácia.

Recentemente, uma pesquisa sobre o tema, realizada na Universidade Federal de Pernambuco foi publicada em uma importante revista internacional Reproductive Health. Os pesquisadores basearam-se nos fatos de que a administração de prolactina, hormônio produzido pela hipófise, em mulheres, simula a sintomatologia da síndrome.

Também já havia conhecimento prévio que algumas gorduras bloqueiam a ação periférica daquele hormônio ao nível dos órgãos. Administraram então, diariamente, cápsulas contendo 2 gramas de um tipo especial de gordura, ácidos graxos essenciais. Estas substâncias existem na dieta, pórem em quantidades diminutas. A pesquisa avaliou as pacientes durante 6 meses, e as mulheres que usaram cápsulas tiveram uma melhora ou supressão dos sintomas  em 74% .

Ficaria assim demonstrado, que pelo menos em alguns casos, a síndrome decorreria de uma sensibilidade aumentada aos níveis normais de prolactina.

Caso outras pesquisas confirmem a veracidade destes dados, estará criada uma nova opção terapêutica. No mínimo, barata e sem efeitos colaterais.

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