Lugar de doente é em casa


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Nos Estados Unidos há um movimento, ainda incipiente, de tratar um maior numero de pacientes em suas casas. A proposta é a de diminuir significantemente as hospitalizações.

Já existe inclusive uma associação de profissionais, que defendem esta idéia (American Academy of Home Care Physicians). O século passado foi marcado pelo um grande aumento do número e ocupação dos hospitais.

Os sistemas de saúde, de uma maneira geral sempre se organizaram, com a preocupação básica, as doenças agudas. No entanto, por conta do envelhecimento da população a epidemia de doenças crônicas, aumenta cada vez mais.

O prognostico é que existirão em 2030, nos Estados Unidos, mais de 70 milhões de indivíduos com mais de 65 anos. Ora, 90% dos com essa idade tem pelo menos uma doença crônica, hipertensão, diabetes, doença cardíaca, ósteoarticular, vascular cerebral etc.

E em 25%dos casos são pelo menos duas. Neste tipo de população também existe, em muitos casos limitação de capacidade motora, inclusive dificultando o deslocamento de sua casa para hospitais ou consultórios. Muitas vezes é requerido meio de transportes especiais, o que obviamente aumentarão os custos.

Além disso, complicações decorrentes do internamento hospitalar são mais freqüentes neste grupo etário, infecções graves, lesões cutâneas quedas, delírios, etc.

Por outro lado, já se demonstrou de maneira inequívoca que o doente hospitalizado portador de uma determinada patologia gasta muito mais, do que se a sua doença fosse tratada em casa Existe uma tendência de que o doente no hospital consuma maior numero de serviços e procedimentos, nem sempre tão necessários.

O modelo atual da saúde de vários países, inclusive no nosso contribui para isto. Quanto maior for o numero de exames e procedimentos utilizados maior a lucratividade para os profissionais, e principalmente para os hospitais.

Por outro lado, o avanço tecnológico, cada vez mais rápido, tem permitido que se tratem inclusive os problemas da saúde complexos, na residência do paciente. Aparelhos miniaturizados permitem a realizações de procedimentos, antigamente só possíveis em clinicas e hospitais.

Em alguns estados americanos, o doente crônico recebe um kit com um aparelho de RX portátil e um mini laboratório que permite a realização de mais de 20 exames de sangue.

Por outro lado, a comunicação sem fio permite ao medico acompanhar á distancia a evolução do paciente, inclusive quando for o caso, observar os monitores nele instalados.

Além disso, a não hospitalização, na maioria das vezes, é bem recebida pelo paciente e por seus familiares. A opção pelo tratamento na residência é ainda mais indicada nos casos de pacientes em que não mais existe a possibilidade de terapêuticas curativas. As medidas paliativas realizadas apenas para evitar sofrimento, são muito melhor recebidas pelos pacientes, nas suas moradias.

A maioria das pessoas, se lhe é concedida a opção, preferem morrer em casa. No entanto é uma cena comum tanto em instituições publicas como em privadas é este tipo de paciente “morando” meses, e até anos em leito hospitalares. Resultado aumento de gastos de um orçamento já muito aquém das necessidades Será que tendência a não hospitalização irá crescer?

Em quantos anos? Em quantas décadas?

Existem vários obstáculos Dentre eles o transito das grandes cidades, e a falta de recursos materiais e humanos que faz com que muitas famílias, não tenham condições de proporcionar uma assistência adequada ao seu paciente. Porém o maior é fortíssimo “lobby” dos beneficiários do atual sistema de saúde.

VOLTAR