A dosagem do PSA e a mamografia. Quem, quando e quanto?


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

O câncer de mama é um dos tipos de câncer mais comuns nas mulheres e o de próstata é a malignidade mais freqüente dos homens. Além da muita alta prevalência, o número de casos de ambos tumores vem aumentando.

Em 1980, o cálculo era que uma mulher em cada 12, iria apresentar a doença durante sua vida. Já em 2006, a probabilidade aumentou para 1 em cada 8 mulheres. Nos casos de tumores de próstata, a elevação foi ainda mais significativa. De 1 para cada 11 indivíduos em 1980, para 1 caso em cada 6 homens, em 2006.

Com números tão alarmantes, muitos países criaram programas com a intenção de detectarem estas patologias o mais precocemente possível. Basearam-se no princípio da cancerologia, de que quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maior a possibilidade de cura.

Assim, depois de uma certa idade, todos os homens deveriam realizar anualmente a dosagem do PSA sanguíneo, substância que se eleva nos casos de doença de próstata, e o toque retal feito pelo urologista. No caso das mulheres, o recurso empregado é a mamografia. Nos Estados Unidos, até 2009, e ainda em muitos países, a idade para se iniciar tais procedimentos é de 40 anos .

Nos últimos anos vem se interrogando se esta conduta é realmente adequada e qual a sua relação custo/beneficio. O primeiro problema são os gastos. Nos Estados Unidos são consumidos, todos os anos, 30 bilhões de dólares apenas com estes dois procedimentos. Também a eficiência de tais condutas, tem sido motivo de discussão, desde há alguns anos.

A mortalidade do câncer de próstata tem diminuído discretamente nos últimos anos. Para muitos, no entanto, isto se deve à melhoria dos tratamentos e não por conta da dosagem do PSA, em toda população masculina de mais de 40 anos. A maioria das pesquisas recentes, inclusive têm sugerido que nos casos de tumores pequenos e pouco agressivos, os resultados são os mesmos com ou sem tratamento.

Em uma pesquisa americana, publicada recentemente, 77 mil homens foram acompanhados durante 10 anos. Um grupo realizou anualmente dosagem do PSA e o toque retal, e o outro grupo, nenhum dos dois procedimentos. Surpreendentemente, o grupo que se submeteu aos exames teve maior mortalidade. Assim, existe a possibilidade de um paciente portador de um pequeno tumor, não tratado, passar toda a sua vida sem que ele lhe traga qualquer problema.
E se, ao contrário, baseado em uma anormalidade dos exames for realizado tratamento, isto poderá lhe causar grandes trnstornos.

Além do grande traumatismo psicológico de ser rotulado como canceroso, iria se submeter a terapias dispendiosas e agressivas. Terapias estas capazes de lhe acarretar seqüelas graves, como impotência e incontinência urinária. Obviamente que nos casos de tumores maiores e agressivos, os que são tratados, têm uma evolução melhor dos que não se submetem a tratamento.

As autoridades americanas, apesar das controvérsias, ainda recomendam o exame de PSA e do toque retal para os homens após os 40 anos de idade. No entanto já não acham mais nescessário realizá-los após os 75 anos. A mortalidade dos câncer de mama vem se mantendo estável nos países desenvolvidos. No Brasil, em torno de 9.000 casos/ano.

Nos subdesenvolvidos, a incidência da doença vem aumentando. A razão provável é a aquisição de novos hábitos alimentares e o aumento da longevidade. A realização da mamografia anual, a partir dos 40 anos, também vem sendo discutida. Alguns países, como o Canadá, só a realizam depois dos 50 anos e tem mortalidade pela doença menor do que países que a iniciam mais cedo. Além disso, os custos não são nada justificáveis.

Para se evitar uma única morte pela doença, é necessário realizar o exame em 800 mulheres, durante 6 anos. Além disso, a mamografia realizada em mamas mais jovens tem uma chance muito maior de mostrar resultados falsamente positivos.
 
Tais resultados podem acarretar grande repercussão psicológica negativa, além de terapias agressivas e onerosas desnecessárias. Por conta disso, o órgão do governo americano responsável por padronizar procedimentos (USPSTF) recomenda, atualmente, que sua realização só se inicie aos 50 anos e se extenda até os 75 anos.
 
Esta decisão está sendo criticada por várias Sociedades Médicas americanas. A propósito, já esta estabelecido que o auto-exame das mamas, antigamente valorizado, não diminui a mortalidade, pela doença, daquelas que o praticam.