O Transexual e a Medicina


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

A definição de transexual é de uma pessoa que deseja viver e ser aceito, como membro de um sexo diferente do que ele nasceu. O homossexualismo é caracterizado apenas pela atração erótica por pessoas do mesmo sexo. Apesar de ainda não acometer um grande número de pessoas, o transexualismo vem aumentando de maneira importante.

Estes indivíduos, além de serem severamente discriminados pela sociedade, não recebem,  na grande maioria das vezes, tratamento médico adequado, seja porque não procuram médicos por temor à discriminação, seja por desconhecimento dos profissionais de saúde sobre como tratar esses casos. Por conta disso, a Sociedade Americana de Endocrinologia, junto com várias outras entidades médicas, estabeleceu recentemente uma série de normas para o tratamento deste tipo de paciente.

As causas do surgimento de transexualismo são até hoje desconhecidas. Nenhuma pesquisa conseguiu descobrir uma anormalidade, seja hormonal, psicológica ou neurológica. Três tipos de especialistas devem ser envolvidos no tratamento. O primeiro, é o profissional  de saúde mental (psiquiatra ou psicólogo), a quem cabe estabelecer o diagnóstico.
O endocrinologista é quem deve administrar os hormônios, que terão duas finalidades: bloquear aqueles do sexo atual, indesejado, e administrar os que vão produzir as modificações corporais que aproximem  o paciente das características do novo sexo. Por fim, o cirurgião, a quem cabe completar, da melhor maneira possível, a transformação corporal e dos órgãos genitais.

As primeiras manifestações do transexualismo geralmente se iniciam durante a infância. Afirmação insistente do desejo de ser do outro sexo, preferência por roupas, atividades esportivas e de lazer próprias do outro sexo.  Quando tais preferências são repetitivas, os pais deverão encaminhar a criança a um profissional de saúde mental,  para acompanhamento.
É importante ressaltar que o diagnóstico definitivo de transexualismo não deve ser feito nunca antes do início da puberdade. A razão é que mais de 50% de crianças, com este tipo de comportamento, pode modificar-se por ocasião da puberdade. Assim, mais da metade dos adolescentes volta a ser reintegrado a seu sexo original.

O endocrinologista deve ter contato com o paciente antes de sinais puberais surgirem. Ele espera que as primeiras modificações induzidas pelo hormônios sexuais apareçam. Tão logo as mamas comecem a se desenvolver, ou os testículos aumentarem de tamanho e se o desejo de mudança sexual persistir, ele deve intervir. Esta primeira intervenção, consiste e impedir que a puberdade prossiga, para evitar que as modificações corporais por ela induzidas aconteçam: aumento das mamas, do pênis, pêlos, voz, etc.

Caso este bloqueio não seja realizado, dificultará ainda mais a futura adaptação ao novo sexo. Esta intervenção deverá permanecer por longo período, como medida isolada. A etapa seguinte dever ser a de experiência real. O adolescente assumirá o comportamento do novo sexo em todas as suas  atividades (roupas, comportamento), por um período de um ano. Caso o desejo de mudança persista, ao lado do bloqueio dos hormônios do sexo de nascimento, se iniciará a reposição dos hormônios do sexo desejado em torno dos 16 anos de idade. As doses devem ser idênticas às da reposição que se faz, naqueles doentes que têm déficit de hormônios sexuais.
 
Os casos descritos de complicações mais graves (câncer de mama), geralmente são aqueles decorrentes de auto-medicação por parte do transsexual, quando doses exageradas de hormônio são utilizadas. O tratamento cirúrgico, quando desejado, só deverá ser feito pelo menos 2 anos após início do tratamento hormonal. Além da correção das características indesejáveis do sexo original (mamas, pênis, pomo de adão, tonalidade da voz, etc.), obrigatoriamente tem que  contemplar a retirada dos gônadas (ovários ou testículos).

Um outro problema é a cirurgia para criação da nova genitália. Muito mais simples e menos onerosa, nos casos de transformação do homem para a mulher, do que o contrário.
 

Fale Conosco SBD

Rua Afonso Braz, 579, Salas 72/74 - Vila Nova Conceição, CEP: 04511-0 11 - São Paulo - SP

(11) 3842 4931

secretaria@diabetes.org.br

SBD nas Redes