Sou gordo, mas não sou culpado


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Os portadores de excesso de peso sofrem, por parte da sociedade, uma discriminação igual ou maior que outras minorias. Por conta disso, da mesma maneira que outras categorias discriminadas como gays, lésbicas e deficientes físicos, os obesos têm, em alguns países, sociedades organizadas para os defenderem desta discriminação.

A própria medicina, até algumas décadas atrás, quase que afirmava que o excesso ponderal era um distúrbio de caráter. Comilão, sedentário, sem força de vontade, beberrão, com problemas emocionais sérios, etc., eram, e infelizmente ainda são, rótulos que os gordinhos recebem. É claro que existem alguns com vários destes problemas, mas também é verdade,que eles também são encontrados, quase com a mesma freqüência, em indivíduos de peso normal.

Apesar de  que muitos conhecimentos ainda precisem ser adquiridos sobre a doença, muitos progressos foram realizados nos últimos anos. Para se ter uma quantidade excessiva do tecido gorduroso, duas condições são essenciais, herança e alimentos disponíveis. Quem tem apenas uma delas, não se torna obeso.

Quem tem uma herança genética para obesidade, mas ingere uma quantidade pequena de alimentos, seja por falta ou por decisão consciente, não se torna obeso. Por outro lado, quem não tem os genes que favorecem o acúmulo de gordura, mesmo vivendo em ambientes com abundância de alimentos, não engorda. O nosso organismo é muito consciente sobre os seus patrimônios. A quantidade de água corporal, em condições de saúde, não se altera. Todo excesso ingerido é eliminado seja pela urina, pela pele ou pulmões, etc.

O mesmo acontece com as proteínas. Por mais que as ingerimos, nenhum grama excedente é armazenado. Só aumentamos o nosso patrimônio protéico, quando em crescimento estatural, ou realizando atividades físicas que aumentem a nossa massa muscular. Todo açúcar de nossa alimentação, satisfeitas as nossas necessidades básicas, é transformado em gordura. Ou seja, também não se consegue aumentar a sua quantidade corporal. 

O grande problemas é com as gorduras. A nossa reserva energética é feita de lipídios, gorduras. A escolha pelas gorduras é feita por elas serem um combustível mais leve. 

Cada grama produz 9 calorias, ao contrário das proteínas e do açúcar, que só rendem 4 calorias. Afinal, ninguém escolhe carregar o mais pesado, se pode optar pelo mais leve.

A reserva energética de calorias é essencial, pois continuamente estamos utilizando-as para viver.

Os nossos órgãos, coração, pulmão, cérebro, para funcionar consomem energia, 24 horas por dia, e como não nos alimentamos continuamente, elas são buscadas no nosso "tanque" de combustível, que é o tecido gorduroso. Assim, indivíduos de peso normal têm uma quantidade de energia adequada para suas necessidades. Ao passo que nos obesos, o "tanque" é mais cheio do que deveria. 

Nos indivíduos de peso normal, os mecanismos hormonais são acionados quando a quantidade de combustível adequada é atingida e assim são desencadeados mecanismos para aumentar os gastos e/ou inibir a entrada de alimentos. Nos obesos, estes mecanismos não funcionam adequadamente e só acontecem quando a reserva de gordura já é exagerada.

Como isto acontece, ainda não temos pleno conhecimento. Nas últimas duas décadas, no entanto, descobriu-se novos hormônios, secretados pelo tecido adiposo e pelo tubo digestivo e que são produzidos de maneira diferente nos indivíduos obesos e nos de peso normal. Muito provavelmente, em breve teremos tratamentos muito mais eficazes para obesidade.

Enquanto isto não acontece, trate bem os gordinhos, eles não têm culpa.

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