Cirurgia para tratar o Diabetes: aonde estamos?


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

"Meu pai trata pacientes com Diabetes, diz o filho do endocrinologista; o meu pai os cura, diz o filho do cirurgião."

Esta é uma piada que existe entre os profissionais de saúde.

Exageros a parte, as cirurgias que se realizam para tratar a obesidade foram, sem dúvida, o maior acontecimento da terapêutica do Diabetes nas últimas décadas.

Os recursos medicamentosos disponíveis até o inicio da década de 90 eram apenas três: a insulina, descoberta nos anos 20, e as sulfas e as biguanidas, já conhecidas desde a década de 50.

Nos últimos anos, é verdade, muitas novas drogas foram disponibilizadas para tratar a doença. No entanto, as suas limitadas potências terapêuticas e os seus altos custos, são fatores limitantes. Por conta disso, não temos conseguido tratar os pacientes da maneira que seria desejável. Na maioria dos diabéticos, não se consegue controlar seu metabolismo adequadamente.

No Brasil, cerca de 75% deles deveriam ter melhor tratamento.

Até em países altamente civilizados, como por exemplo, a Dinamarca, a maioria dos pacientes não têm o controle desejável.

Os dois principais tipos da doença são o Tipo 1, antigamente chamado de Infanto-Juvenil e o Tipo 2, também conhecido como o do adulto.

No Tipo 1 existe uma destruição de células produtoras de insulina. Assim, a única medida de curar a doença seria através de novas células secretoras daquele hormônio. O que, teoricamente, só pode ser conseguido por transplante do pâncreas ou de células-tronco. Técnicas, como sabemos, ainda com muitas dificuldades a serem vencidas.

No Tipo 2 as células beta produzem insulina porém em quantidades inferiores às necessárias. Na grande maioria dos casos, cerca de 80% desta insuficiência é conseqüente à obesidade . O excesso de gordura, principalmente no abdômen, cria uma resistência à ação daquele hormônio ao nível dos tecidos.

Nos indivíduos geneticamente predispostos, o pâncreas não tem capacidade de aumentar a produção da insulina que a obesidade fez ser necessária. Resultado, a doença surge.

Observou-se que, ao se operar grandes obesos diabéticos, visando-se emagrecê-los, na grande maioria deles, o metabolismo do açúcar normalizava. O primeiro pensamento foi de que isto ocorria pela perda de peso, que a cirurgia acarreta. Posteriormente verificou-se que isto somente não seria o responsável. Afinal, o desaparecimento da doença ocorre muito mais rapidamente, às vezes, no pós-operatório imediato. A diminuição do peso, em período tão curto, era muito pequena e não poderá justificar a grande modificação ocorrida.

Hoje sabemos que, mais importante do que o emagrecimento, são as modificações na secreção dos hormônios gastrointestinais que a cirurgia produz.

Atualmente conhecemos apenas alguns deles, Ghrelina, GLP1, GIP, VIP, PYY entre outros.

Vários desses hormônios atuam sobre o pâncreas estimulando a secreção da insulina.

Hoje está indicado o tratamento por cirurgia do emagrecimento (Bariátrica) para todos os diabéticos do Tipo 2? A resposta é: NÃO.

As Sociedades Médicas, Internacionais e Nacionais, só recomendam este tratamento para diabéticos grandes obesos e em quem não se está conseguindo controlar através do tratamento clinico. A cirurgia, para os obesos diabéticos menos gordos, só deverá ser realizada em centros de pesquisas ou em situações muito especificas.

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