Menopausa, Hormônios e o Cérebro


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Com o decorrer dos anos, os nossos sistemas orgânicos vão perdendo, lenta e progressivamente, a sua eficiência. Este processo ocorre também com as nossas glândulas endócrinas. Como resultado, as quantidades dos nossos hormônios vão diminuindo gradativamente. 

Um comportamento diferente é observado com o funcionamento dos ovários. Na maioria das mulheres, isso acontece entre os 45 e os 50 anos de idade. Existe, então, uma diminuição rápida e acentuada da secreção nos estrógenos ovarianos. Isso faz com que as menstruações cessem - é amenopausa.

Na maioria das mulheres, ela é acompanhada de outros sintomas: ondas de calor (fogachos), insônia, sudorese, palpitações, infecções urinárias, dor no ato sexual. Este conjunto de sintomas constitui a chamada climatérica. Em 20% das mulheres, esses sintomas não aparecem. E, na maioria delas, os sintomas, mesmo sem tratamento, cessam entre seis meses e dois anos.

Em muitas pacientes, no entanto, a intensidade dos sintomas faz diminuir as suas qualidades de vida e eles necessitam ser tratados. A terapêutica mais eficiente é a administração dos hormônios, que deixaram de ser produzidos, os estrógenos. 

Por outro lado, nas mulheres dessa idade também é comum o surgimento de outras várias queixas: nervosismo, irritabilidade, depressão, envelhecimento da pele e dos cabelos e diminuição da libido são algumas delas. 
Acreditava-se, também, que os estrógenos eram benéficos para esses sintomas e que o seu uso retardaria o envelhecimento, além de diminuir, em cerca de 50%, o risco de infarto. Com tantas vantagens, os medicamentos se tornaram um grande sucesso de venda. 

A Reviravolta

No início da década de 90, houve uma grande reviravolta. Ao contrário do que se acreditava até então, os estrógenos aumentam o risco de infarto e acidente vascular cerebral. Também a maioria das pesquisas demonstrou a não melhora dos sintomas psicológicos, exceto casos em que eles eram decorrentes do sofrimento que a síndrome psicológica acarreta. 

Também se constatou a inexistência de comprovação científica de que esses hormônios retardariam o envelhecimento. Afirmou-se que o uso de hormônios na menopausa diminuiria o risco da doença de Alzenheimer, outras pesquisas constataram o contrário. 

Além disso, a estrogenoterapia aumenta a probabilidade do surgimento de câncer de mama, quando usada por períodos longos, de cálculo na vesícula biliar e de trombose venosa. Por conta disso, hoje, a maioria das Sociedades Médicas recomenda que, rotineiramente, só se faça hormonioterapia nas mulheres que apresentem sintomatologia climatérica intensa: fogachos, palpitações, sudorese, etc.

Aprendizado

Mesmo nesses casos, o uso da dose e o prazo devem ser os menores possíveis. Em roedores, no entanto, a retirada dos ovários acarreta uma diminuição da capacidade de aprendizado. Isso não acontece se, logo após a cirurgia, se administra o hormônio estrogênico. 

Pesquisas recentes sugerem, ainda, que isso também acontece em humanos, preservando-se a memória e a capacidade de aprendizado, quando a administração do hormônio ocorre logo após a menopausa. Esses cientistas justificam que os estudos anteriores, que não confirmavam essa ação benéfica dos estrógenos sobre o cérebro das mulheres, não mostravam isso porque a droga só era administrada muitos anos após a menopausa.

Será que vamos usar estrógenos não só para síndrome climatérica, mas também para preservar a função cerebral das nossas coroas?

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