Os Transplantes de órgãos e os seus Obstáculos


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

transplante de órgão é quase um milagre, é capaz de salvar vidas ou melhorar, dramaticamente, as suas qualidades. É uma intervenção médica cada vez mais realizada. No entanto, o número de pacientes que o necessitam é sempre maior. O nosso país é um dos que mais realizam esse tipo de procedimento.

O transplante de órgão é um ato médico complexo e que enfrenta vários obstáculos. O primeiro é que, na grande maioria das vezes, existe a necessidade de uma morte, de preferência um jovem saudável. Além disso, é preciso que ela ocorra em um ambiente hospitalar e que disponha de recursos.

Os transplantes que não necessitam de morte, geralmente são os de órgãos duplos, como os rins. Um outro obstáculo que deve ser ponderado é o custo dessas intervenções. Cada transplante de fígado custa, ao nosso sistema de saúde, dezenas de milhões de reais. 

Quantas doenças hepáticas, graves, seriam evitadas caso esse dinheiro fosse gasto em saneamento básico na prevenção da Schistosomose? Quantos casos com indicação para transplante cardíaco seriam reduzidos se os gastos fossem orientados para prevenção da Doença de Chagas?

O terceiro obstáculo é a obtenção do órgão para ser transplantado. Como o número de necessitados aumenta, sem cessar, e a busca por órgão se torna cada vez mais necessária, só nos Estados Unidos existem mais de 5.800 organizações dedicadas à procura desses órgãos.

Em 2003, considerando a necessidade, cada vez maior, o governo americano criou uma série de normas que têm como objetivo aumentar, em 75%, o número de órgãos para transplantes. Entre as determinações, existe uma que obriga aos médicos prolongar a vida de todos os pacientes terminais, independente de consentimento familiar, até que o representante das centrais de transplante se pronuncie da possibilidade, ou não, da existência de um órgão em condições de ser transplantado.

Estas normas causam um grande conflito com as recomendações da ética médica. Os pacientes e seus familiares têm o direito à correta informação sobre as condutas adotadas. Prolongar a vida de pacientes, sem nenhuma perspectiva futura, muitas vezes sem o conhecimento dos seus familiares, apenas visando uma possibilidade de uma doação? O governo obriga aos hospitais a comunicação imediata das mortes e de todos pacientes terminais. O contato inicial com a família do possível doador deve ser, sempre, feito por um membro das organizações de transplantes.

Para facilitar o contato, eles, geralmente, não se identificam como tal e, muitas vezes, fingem-se como membros das equipes médicas que estão prestando assistência ao paciente. Várias frases-padrão costumam ser ditas: "você e seu médico têm a chance de transformar o seu filho em um herói", "a maioria das pessoas salvam vidas se lhes é dada a oportunidade".

No entanto, o que preocupa os profissionais de saúde, também favoráveis aos transplantes, é que as doações sejam feitas de maneira ética, preservando-se o direito da informação correta e a liberdade de opção. Afinal, caso assim não seja feito, será perdida a valorização e a lamentação que representa uma morte e que ela passará a ser vista apenas como uma fonte de órgãos.

VOLTAR