As Desigualdades Sócio-Econômicas e a Saúde


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

A crise da assistência pública à saúde que o estado de Pernambuco enfrentou, recentemente, é um retrato, sem retoques, de como o Brasil trata a os seus pobres. Durante semanas foi negado o tratamento médico necessário, às nossas classes menos favorecidas, inclusive para os casos de urgência. Um verdadeiro caos.

Não sabemos quantas mortes teriam sido evitadas, se isto não tivesse acontecido. Surpreendentemente, esta situação dramática evoluiu quase como se nada estivesse acontecendo. Em muitos países do mundo, uma série de protestos, provavelmente violentos, já teriam ocorrido. Ambulatórios e hospitais seriam invadidos e depredados. Autoridades governamentais e profissionais de saúde poderiam sofrer agressões. Mas nada disso aconteceu. Afinal, o pobre brasileiro é muito pacífico e tolerante. No meu entender, exageradamente.

Por outro lado, a nossa pobreza praticamente não tem representatividade política ou social. Os nossos políticos, na sua grande maioria, só se preocupam com os pobres nas épocas de eleições. A própria esquerda brasileira, que se intitula defensora da nossa pobreza, de fato só se preocupa com as classes politicamente organizadas, os sindicatos, as centrais de trabalhadores. Afinal, eles sãos fiéis no voto e contribuem financeiramente para as campanhas eleitorais.

E se os políticos não protestam, muito menos a nossa elite econômica. Afinal, eles não usam a saúde pública governamental e a medicina privada continua funcionando sem nenhuma intercorrência. Uma crise semelhante na medicina privada duraria quantos dias, ou horas? Além disso, a elite brasileira, uma das mais egoístas do mundo, detesta os pobres.

Considera a pobreza um defeito e a trata historicamente o pobre, desde a escravatura, com o maior desprezo. Fora dos momentos de crise aguda, como aquele que vivenciamos, a diferença entre a assistência médica oferecida aos pobres e aos ricos, em nosso país, é vergonhosa, inaceitável.

Falta de Material

Necessidade que chega aos serviços médicos de madrugada ou até na véspera, para conseguir um atendimento. Cirurgias urgentes, inclusive para tratamento de doenças graves, são adiadas por falta de material ou por motivos fúteis. Medicamentos fornecidos pelo governo para tratamento de doenças crônicas, Aids por exemplo, freqüentemente estão em falta. Os profissionais da saúde trabalham em condições precárias e são mal remunerados. Emergências com número excessivo de clientes, falta de leitos, doentes em macas e, às vezes, no chão, pacientes morrendo por falta de leitos na UTI etc.

Em ambientes como este, a maioria dos profissionais se estressa e se desdobra para minimizar tamanhas dificuldades em atender aos doentes. Alguns desses profissionais, infelizmente, "retribuem" este mal tratamento, não ao governo, mas aos pobres pacientes. Horários não são cumpridos, os doentes não são tratados com respeito e atenção que deveriam, falta-se ao trabalho por qualquer ou nenhum motivo etc.

Os profissionais acusam o governo. O governo, por outro lado, os culpa. O mais importante é que o grande inocente, a nossa população pobre, é que é a grande prejudicada. A quem realmente cabe a maior parcela de culpa?? À nossa elite econômica, afinal é ela quem escolhe os nossos dirigentes e faz as nossas leis. O nosso Governo necessita destinar muito mais recursos para que se possa melhorar as condições de atendimento e os salários.

Mas, tão importante quanto esta medida, é estabelecer critérios para avaliação do trabalho destes profissionais. No serviço público brasileiro, quase sempre, exercer adequadamente suas funções ou não, não faz a menor diferença. O bom funcionário não é elogiado e muito menos promovido. Por outro lado e tão importantemente, o relapso, o incompetente, não é nem sequer advertido.

Neste ambiente, só os idealistas procuram dar o melhor de si, no cumprimento das suas funções. O aumento simples dos salários pouco ou nada melhorará a situação atual. É imprescindível modificar a maneira como o serviço público trata os seus funcionários. É preciso reconhecer e premiar os bons e punir os maus.

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