Diabetes Mellitus: Ainda Um Grande Desafio


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

O Diabetes Mellitus é um dos maiores problemas de saúde pública, em muitos países. Além de já ser um grande problema atual, a preocupação ainda é maior por conta de que o número de pessoas acometidas por ele não pára de aumentar.

Caso não se seja capaz de descobrir uma maneira eficiente de se modificar a situação, o número de pessoas com diabetes irá duplicar nos próximos 30 anos. No Brasil, se admite que, atualmente, existam entre 8 e 10 milhões de pacientes.

As medidas já sabidas para conter o aumento da prevalência da forma clínica mais freqüente (90% dos casos), a do Tipo 2, são conhecidas, porém muito difíceis de serem adotadas. Esta forma, que acomete preferencialmente os adultos, tem um componente hereditário muito importante. Mas, na maioria das vezes, necessita da existência de fatores ambientais para que o diabetes surja.

Os componentes ambientais mais importantes para que isso aconteça são o excesso de peso, o sedentarismo e o estresse emocional. Condições estas cada vez mais freqüentes e intensas no mundo atual e extremamente difíceis de serem modificadas.

Por conta disso, nenhum país sequer conseguiu diminuir a velocidade de crescimento do seu número de pessoas com diabetes. Alguns medicamentos têm sido usados com a finalidade de evitar o surgimento do diabetes. Os seus resultados são inferiores aos obtidos com a adoção demodificações de estilo de vida: perda de peso e atividade física regular.

É importante ressaltar que, para se obter os benefícios que o exercício físico proporciona, o equivalente a 150 minutos de caminhada, por semana, já são o suficiente. Por outro lado, a outra forma da doença, o Tipo 1, responsável por 5 a 10% dos casos e que geralmente é diagnosticada antes dos 15 anos de idade, também tem a sua incidência aumentando. Os motivos porque isso vem ocorrendo são desconhecidos.

Nesta forma de apresentação, três componentes são envolvidos: herança, um fator desencadeante e a formação de substâncias (anticorpos), que irão agredir e destruir as células produtoras de insulina. O componente hereditário, aqui, tem menor importância. Uma mãe portadora de diabetes tem apenas 1% de chance de ter um filho acometido pelo problema. Os esforços tem se concentrados nos outros dois componentes. O fator desencadeante é, provavelmente, de natureza viral.

Todas as tentativas de identificá-lo ou evitá-lo têm sido fracassadas. O terceiro componente é auto-imunidade, ou seja, o organismo produz, erradamente, substâncias que vão destruir as células beta, que secretam o hormônio insulina.

As medidas terapêuticas seriam as mesmas adotadas para evitar a rejeição nos casos de transplantes, drogas inibidoras da imunidade. Aqui também não se tem conseguido sucesso. O grande problema do diabetes são as complicações que ele pode acarretar. Complicações estas, que podem prejudicar, severamente, a qualidade de vida em algumas pessoas e diminuir as suas sobrevidas.

As artérias coronárias e cerebrais, os rins e os olhos são os órgãos mais freqüentemente acometidos. As últimas pesquisas têm demonstrado que o controle metabólico mais rigoroso é muito importante nos primeiros anos do diabetes, ou seja, os pacientes que assim se comportam evoluirão muito melhor do que os menos controlados. Esta diferença se mantém durante toda vida, mesmo quando não mais existir um bom controle.

Por outro lado, também se demonstrou que, nos pacientes com tempo de doença e que já apresentam início de complicações, o controle metabólico rigoroso não melhora o seu prognóstico quanto a problemas cardiovasculares (coronários e cerebrais). Assim, as recomendações das últimas pesquisas são o oposto do que ocorre na maioria dos pacientes, que só começam a se tratar melhor quando a complicação aparece.

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