AIDS: Enquanto a Vacina Não Chega


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Há cerca de 25 anos surgiu a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, AIDS. Apesar do progressos obtidos, principalmente no tocante ao tratamento, a doença  continua sendo um grande problema de saúde pública.

Tão logo demonstrou-se que a doença não era restrita aos homossexuais masculinos e que não respeitava condição socioeconômica, tornou-se grande preocupação em todo  mundo. Comentou-se, inclusive, que nunca uma epidemia recebeu, e continua recebendo maior atenção, e, principalmente, tantos recursos, como nenhuma outra doença epidêmica, até então.

Em que pese, outras epidemias como a Doença de Chagas, a Schistosomose e a Varíola acometerem um número muito maior de pacientes. Afinal estas, há muito, deixaram de ser problema para os países desenvolvidos, onde os recursos materiais e humanos existem. 

Apesar disso, o número de portadores do vírus HIV permanece alarmante.

Neste ano, 2008, 33 milhões de pessoas estão contaminadas pelo vírus, das quais 2,7 milhões foram infectadas em 2007. Naquele ano mais de dois milhões morreram em conseqüência da doença. Caso as medidas, hoje postas em prática, não forem eficientemente modificadas, o número de infectados continuará crescendo até 2030. Mesmo se admitindo um decréscimo de 2,5% ao ano, no número de contaminações, a  previsão é de que entre 40 e 60 milhões sejam portadoras do vírus HIV em 2030.

Vários são os motivos para que isto aconteça. Apesar de ainda não se ter conseguido a cura, houve um imenso progresso no tratamento dos doentes. Conseguiu-se transformar uma sentença de morte, a ser cumprida em curto espaço de tempo, em uma doença crônica . Quanto à prevenção do surgimento de novos casos os resultados são insatisfatórios. Recentemente, houve uma comemoração por parte dos cientistas envolvidos com a doença. Menos crianças e adultos foram contaminados e menos pacientes morreram em 2007, ao contrário do que vinha ocorrendo nos anos anteriores.  Porém o problema ainda é da maior gravidade.

Várias nações conseguiram estabilizar ou até diminuir o número de pessoas infectadas.  No entanto, em alguns países como Rússia, Ucrânia e Quênia, a sua prevalência continua aumentando. Isto se deve a pouca eficiência das medidas até então postas em prática para evitar a disseminação do vírus.

As campanhas para o uso de preservativos e a modificação dos comportamentos sexuais de risco são difíceis de ser cumpridas e, como tal, tem menor adesão do que seria desejável. Por outro lado, medidas médicas mais simples e, como tal, mais fáceis de serem adotadas não demonstraram eficácia. O uso de cremes vaginais viricidas, o uso de diafragma uterino e tratamento de outras doenças, sexualmente adquiridas, em nada contribuíram para diminuir a disseminação da doença.

Já existem 25 drogas aprovadas com atividade contra o vírus. Por um lado, elas reduziram, substancialmente, o risco de transmissão da mãe para com o feto. Por outro, aumentaram em muito a sobrevida dos pacientes, o que permite um maior tempo para que um infectado possa contaminar outros.

A vacina, que é a grande medida terapêutica para a maioria das infecções virais, não tem funcionado para o HIV. O motivo é o comportamento desse agente viral, que não permite que os mecanismos de defesa, induzidos pelas vacinas, lhe destrua.

Tão logo ele infecte o indivíduo, o vírus penetra nas suas células se ligando ao seu DNA. Nesta situação, ele permanece quase ”invisível” ao nosso sistema de defesa. Além de ter um muito grande capacidade de se reduplicar, ele é capaz de se modificar, se tornando resistente a drogas que, até então, teriam a capacidade de destruí-lo.

A vacina ainda é uma esperança ainda longínqua, que para uns nunca surgirá e, para outros, só será possível em torno de 2030. A Medicina precisa investir muito mais não só no tratamento, mas também, e principalmente, na prevenção da doença. A propósito, o presidente Bush, em 2007, resolveu triplicar os recursos do Governo americano, de 5 para 15 bilhões de dolares para o combate a epidemia. Será que ele irá cumprir depois desta crise econômica?

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