A Idolatria à Magreza e a Anorexia Nervosa


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Um paradoxo atual da sociedade moderna é que, se por um lado, mais pessoas têm excesso de peso, cada vez mais se idolatra a magreza. A título de piada, se diz que as mulheres, hoje, preferem a magreza a qualquer outra coisa: é melhor ser magra do que ter uma boa altura, do que ser inteligente e culta, do que ser famosa, do que ser rica ou saudável, do que ser bonita e até do que ser feliz. Talvez a única qualidade que as mulheres achem mais importante do que ser magra é não ter celulite.

É essa busca desenfreada do baixo peso, a qualquer custo, tem acarretado um aumento da incidência de uma doença grave, Anorexia Nervosa. Nas estatísticas americanas, 0,5 a 1% das mulheres, são acometidas por este problema.

No Brasil, não conheço os números. Mas, seguramente e felizmente, são menores. A doença é tão grave que pode, inclusive, causar a morte nas suas portadoras, geralmente por arritmias cardíacas ou suicídio.

A patologia é muito mais frequente nas mulheres adolescentes e adultas jovens. O início geralmente ocorre com tratamento para perder peso. Por ocasião do diagnóstico, essas pacientes apresentam dimensões ponderais extremamente reduzidas. Mesmo assim, ainda se consideram obesas.

Por conta disso, continuam fazendo grandes reduções no consumo alimentar. Algumas delas contam, inclusive, os grãos de feijão que comem. Também é frequente a prática exagerada de exercícios físicos extenuantes. Além disso, apresentam outros sintomas psicológicos. A ansiedade e a depressão são os mais observados.

Ao exame físico, além da acentuada magreza com grande diminuição do tecido adiposo, pele seca, anemia e redução ou ausência dos pelos axilares e pubianos, nos casos mais severos, em que a desnutrição é grave, também existem edemas.

A explicação para este comportamento, para o não reconhecimento da sua real situação, é a de que essas pacientes têm um distúrbio da percepção de sua imagem corporal. Apesar da magreza, algumas afirmam: "quando me vejo no espelho, me sinto uma baleia".

Por que algumas mulheres são acometidas por esta doença? Quais os problemas psíquicos que a faz surgir? Quais as alterações metabólicas que as fazem assim agir? Perguntas ainda sem respostas convincentes. Como quase nada sabemos, também não dispomos de tratamentos eficazes.

Muitas drogas, principalmente antidepressivos e até antipsicóticos, têm sido tentadas, com resultados controversos. A terapêutica mais aceita é a da modificação comportamental. Para isso, é preciso uma equipe multidisciplinar, com clínicos, psiquiatras, enfermeiros, psicólogos.

Na maioria dos casos, se faz necessário, inicialmente, internamento hospitalar. Esse tratamento, extremamente oneroso, nem sempre tem sucesso. Além disso, alguns doentes que responderam bem ao tratamento têm recaída depois. A melhor estratégica é tentar prevenir a doença antes que se instale.

As famílias devem estar atentas às suas filhas que realizam restrições dietéticas exageradas para emagrecer. Devem procurar auxílio médico, antes que seja tarde.

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