Por que nos Suicidamos?


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

No ano passado, em uma decisão por 5 a 4, a Suprema Corte Americana praticamente extinguiu as penalidades que os proprietários das armas poderiam sofrer. Decisão esta, que, no mínimo, deve ser considerada infeliz. Qualquer americano, sem passado criminal, pode adquirir armas. Não bastasse ser com elas que os assassinatos e as chacinas são cometidas, é também com armas que a maior parte dos suicídios é realizada.

Em 2005, 46 americanos tentaram se suicidar, a cada dia, e os números não param de crescer. Não só são mais frequentes os atos praticados com as armas, mas também têm muito maior probabilidade de serem fatais. Quanto mais armamento, maior o número de suicídios.

Vários estudos demonstraram isso. Nos estados americanos em que o número de casas onde existem armas é menor, a frequência desse tipo de acontecimento, para uma mesma população, é pelo menos três vezes reduzida.

Um indivíduo psicótico com depressão grave tem de 3 a 7 vezes mais chances de cometer suicídio durante a sua vida. No entanto, a grande maioria das tentativas contra a vida é feita por pessoas não psicóticas.

Em cerca de 80% dos casos, o ato é cometido por impulso e não decorre de uma decisão antiga, amadurecida. Em 25% dos casos, o espaço de tempo entre a decisão e a realização do ato é de menos de 5 minutos. Em 70% das vezes, esses períodos não excedem a uma hora. Na maioria das ocasiões, este acontecimento ocorre durante ou logo após uma situação estressante, vivenciada pelo futuro suicida.

Rompimento de uma relação afetiva, perda de emprego, aparente ausência de perspectiva e humilhações são alguns dos exemplos. É importante ressaltar que, na grande maioria dos casos, ultrapassada a crise ou quando não foi fatal a tentativa, a ideia de suicídio não é sequer mais aventada. É fácil de se concluir que, se durante a crise, o acesso a armas for possível, isso favorece, e muito, que o ato seja praticado.

É reconhecido por todos os estudiosos que a maneira mais eficaz de diminuir as tentativas de suicídios é dificultar o acesso aos meios através dos quais ele possa ser realizado. O acesso às armas, principalmente.

Existe grande variação no número de suicídios entre as nações. De 25 (nos países do Leste Europeu) para 20 (nos Estados Unidos) e 9 (na Espanha) por cada 100.000 pessoas. Felizmente, o Brasil está muito bem colocado nestas estatísticas: apenas 4,5 casos, para esse número de habitantes.

Há 10 anos tínhamos 10% a menos. Apesar de mais mulheres fazerem mais tentativas, os homens morrem muito mais (3,7x1,0). Afinal, enquanto elas preferem fazê-lo pela ingestão de drogas, eles usam mais as armas de fogo.

No Brasil, os grupos com maior mortalidade são os indígenas e os com mais de 60 anos. Entre as capitais brasileiras, também existem diferenças muito grandes. Enquanto em Macapá ocorrem 13,6 suicídios para cada 100.000 pessoas, em Salvador é menor do que 1 para cada 100.000 habitantes.

Por que Salvador tem o melhor índice do Brasil? Seria pela acusação que nós fazemos aos baianos de serem lentos nas suas tarefas? Teriam assim mais tempo de pensar depois da decisão e, assim, não cometeriam o ato?

 O dado surpreendente foi o que o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco constatou em pesquisa recente. No estado, o índice de suicídio é menor do que o nacional (4,1 x 4,3).

No entanto, nos municípios de menor índice de desenvolvimento humano (Itacuruba, Petrolândia e Manari) os números são alarmantes. Variam de 25,0 a 50,0 para cada 1.000.000 habitantes. Os médicos do Conselho atribuíram estes números à total falta de condições daquela região. Pobreza, desemprego e ausência de perspectivas ou lazer seriam os fatores determinantes.

Assim como os armamentos, estas condições também seriam armas estimuladoras aos suicídios.

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