Frequentar um Freezer para Evitar e Tratar a Obesidade???


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

A obesidade é definida como decorrente de uma ingesta calórica superior às necessidades. Este excesso é então armazenado como gordura. Alguns obesos consomem alimentos, principalmente os mais calóricos, de forma exagerada. Porém outros, muitos outros, aumentam de peso ingerindo alimentos de maneira semelhante a indivíduos de peso normal. Nestes casos, obviamente, o problema estaria nos gastos. Estas pessoas gastariam menos calorias. A medicina tem tentado, sem muito sucesso, descobrir como isto ocorre.

O metabolismo basal, o nosso maior gasto calórico, é a energia nescessária para fazer o nosso organismo funcionar. O coração, como por exemplo, consome energia continuamente para poder realizar as suas funções. No metabolismo basal, os gordos, surpreendentemente, gastam mais calorias do que os indivíduos de peso normal.

O segundo gasto calórico é representado pelas atividades físicas que varia de acordo com quem as pratica, mais ou menos. Também este tipo de gastos não parece ser a causa do excesso de peso. Afinal quantos magros sedentários conhecemos??

O terceiro mecanismo é a termogênese, ou seja, a utilização de calorias para produzir calor. Existe um tipo especial de tecido gorduroso, o tecido adiposo marrom, que, em vez de armazenar as calorias sob a forma de gorduras, as utiliza para produzir calor.

Este tipo de tecido existe em quantidades razoáveis em determinado tipo de roedores, na raiz dos seus membros. Quanto mais dotados de tecido adiposo marrom, mais resistentes a ganhar peso. Ele também existe nos humanos, principalmente nos recém-nascidos, e é muito importante para a manutenção da temperatura corporal nesta fase da vida.

Vestimentas

No entanto, com o passar do tempo, a sua quantidade vai diminuindo e, nos adultos, se acreditava que praticamente não mais existia. O grande estímulo para o seu funcionamento é o frio. E como o ser humano se protege das temperaturas baixas com vestimentas, este tecido não sendo estimulado, vai se atrofiando. 

Alguns anos atrás, a medicina tentou encontrar uma relação de excesso ponderal como o tecido adiposo marrom. Dificuldades tecnológicas de localizá-lo e estudar o seu metabolismo foram as causas de não se prosseguir. Nos últimos anos, novos recursos estão permitindo um melhor conhecimento da sua existência e do seu funcionamento.

Hoje sabemos que este tipo de tecido persiste na vida adulta, muito embora em pequenas quantidades. A sua localização é principalmente na regiões supra claviculares e no tórax. E tem quantidade e eficiência diferentes relacionadas com a quantidade de gordura corporal do indivíduo.

Quanto maiores as dimensões do patrimônio de gorduras, menor a quantidade daquele tecido e de sua eficiência metabólica. A sua atividade funcional pode ser avaliada pelo Petscan, método hoje utilizado na pesquisa de metástases. Quando se coloca a pessoa em temperaturas baixas, a atividade do tecido adiposo marrom aumenta até 15 vezes.

Os tratamentos do excesso de peso, sem muito sucesso na maioria dos casos, quase sempre foram orientados na tentativa de diminuição da ingesta de calorias. O aumento de consumo calórico só é hoje conseguido, quase sempre por pouco tempo, com a realização de atividades físicas.

Apesar de existirem drogas capazes de promover aumento dos gastos de calorias, quase nunca podem ser usadas, pelos seus inaceitáveis efeitos colaterais. Uma esperança seria manter as quantidades e eficiência do tecido adiposo marrom. Caso pudéssemos passar horas dentro de um freezer, seria um dos métodos.

Porém, como isso não é factível, esperamos que a Medicina seja capaz de descobrir um método simples e eficiente de preservar a quantidade daquele tecido durante toda vida.

Os gordos agradecerão.

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