Melhor Condição Econômica, Mais Câncer de Mama


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

O câncer de mama é o segundo mais comum da espécie humana. A sua prevalência só é menor do que o da próstata. Nos Estados Unidos, uma em cada nove mulheres, no decorrer de suas vidas, vai ser diagnosticada como portadora da doença. No Brasil, a probabilidade é semelhante: uma em cada 12.

Felizmente, graças aos recursos terapêuticos atuais, a maioria delas consegue ser curada. Porém, o câncer de mama ainda é uma importante causa da mortalidade. No nosso país, cerca de 6 mil mortes por ano. Além disso, a doença continua aumentando e as nossas autoridades de saúde esperam que serão diagnosticados 49 mil novos casos, só neste ano, no Brasil. A doença é, tradicionalmente, mais prevalente nos países desenvolvidos.

No entanto, enquanto que os números se mantêm estáveis no primeiro mundo, tem ocorrido um aumento preocupante nos países sub e em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, se conseguiu, inclusive, nos últimos anos, uma diminuição do número de doentes acometidos, fato que é atribuído à grande redução no uso de hormônios na menopausa.

Por outro lado, o aumento da incidência de malignidade da mama ocorreu, principalmente, na África e na Ásia. Nesta última região, que tradicionalmente apresentava uma das menores prevalências no mundo, o número de novos casos triplicou nas últimas décadas.

Na China, o aumento foi de 30%, só nos últimos dez anos. Na África, onde os registros não são muito confiáveis por conta da pouca organização dos seus sistemas de saúde, o aumento também é preocupante. Acredita-se que o número de casos, pelo menos, duplicou na última década.

Por que isso está ocorrendo? Obviamente, com a melhoria econômica, em um maior número de mulheres é feito o diagnóstico. Também com mais recursos, a longevidade aumenta, permitindo que mais mulheres atinjam a idade em que a doença tem a maior incidência, entre 40 e 64 anos.

Porém, apenas estes fatores não explicariam aumentos tão grandes. Acontece que, com a melhoria das condições econômicas e a globalização das informações, existe uma tendência ao "ocidentalismo" daquelas populações. Resultado: novos tipos de alimentos, menor atividade física, mais gente com excesso de peso. Todas essas modificações comportamentais aumentam a probabilidade do surgimento da doença.

Por outro lado, as mulheres passam a casar mais tarde, têm um menor número de filhos e amamentam menos. Resultado: mais fatores que favorecem o aumento da incidência do câncer de mama.

Para agravar ainda mais a situação, a mortalidade por esta malignidade é três vezes maior entre os pobres do que nos países desenvolvidos. Isso ocorre, ou por conta de que o tipo do tumor ser mais agressivo, ou porque muitos pacientes só procuram tratamento quando a doença encontra-se em estágio avançado.

São poucos os programas organizados naqueles países para a realização de mamografia e ultrassonografia na população feminina a partir dos 40 anos de idade. O próprio autoexame, que poderia ser realizado sem a necessidade de maiores recursos, só é utilizado por poucas.

Aliás, por falar em autoexame, uma pesquisa com 300.000 mulheres, na China, demonstrou que a sua realização, ou não, não fez nenhuma diferença quanto à mortalidade por esta doença. Obviamente, a maneira de enfrentar o problema do câncer de mama nos países pobres é destinação de mais recursos para pesquisa e assistência médica às suas populações.

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