As Pesquisas Médicas, a Mídia e o Público


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

A conhecimento das populações sobre as descobertas das pesquisas médicas tem aspectos muito positivos. Em razão disso, milhões de pessoas lutam contra o excesso de peso, procuram se exercitar, bebem com moderação, usam dieta rica em fibras etc. Ou seja, por terem sido informados dos benefícios destes procedimentos adotam hábitos saudáveis.
No entanto, a comunicação dos resultados de pesquisas, feita pela mídia para a população, também apresenta problemas. Um dos principais é a contradição. Durante algum tempo foi aconselhado a substituição da manteiga pela margarina. Posteriormente, no entanto, se demonstrou o contrário, a margarina favorece mais a arteriosclerose. 

O ovo e os crustáceos, por serem muito ricos em colesterol, deveriam serem banidos da dieta, dos que tinham aquela elevada gordura no sangue. 

Hoje, sabemos que o teor de colesterol dos alimentos, tem pouca ou nenhuma importância nos níveis do colesterol sanguineo. Afinal, o fígado coloca no intestino, através da biles, o equivalente a dezenas de gemas de ovo de colesterol. Uma ou duas gemas a mais, praticamente, não farão diferença.

Já se afirmou que o adoçante sacarina causava câncer de bexiga. Atualmente, sabemos que isto só poderia ocorrer, se usarmos milhares de vezes as doses necessárias para adoçar os nossos alimentos. Anos atrás se afirmou que grandes doses de vitamina E evitariam o câncer de pulmão nos fumantes. O conhecimento atual é que, provavelmente, ocorre ao contrário. Ou seja, uso exagerado daquela vitamina, talvez, aumente a incidência da doença. Fritura dos alimentos é maléfica, principalmente, quando a gordura usada é reutilizada varias vezes . 

A mídia e o público se queixam dos cientistas, afinal a que era verdade ontem passou a ser mentira hoje . 

Porém os cientistas são os menos culpados. Quando uma revista médica publica o resultado de uma pesquisa a científica, não significa uma conclusão definitiva sobre o assunto. A finalidade principal é comunicar o resultado obtido pelos autores e que poderá ou não ser confirmado por outras investigações. Um outro aspecto que deve ser considerado é que o resultado pode ser decorrente de outros fatores e não aqueles pesquisados. 

Por exemplo, quem faz exercícios físicos, regularmente, pode ser mais saudável, não por isto, mas por outros comportamentos que não foram analisados . 

Outro problema é que o resultados obtidos em uma determinada população podem não se repetir em outra diferente. Uma outra consideração é quase sempre os resultados refletem uma probabilidade. Uma mulher que bebe tem 30% mais chance de ter câncer de mama. Isto, obviamente, não significa que todas que tem este hábito irão ter a doença. 

Uma outra, e muito importante contribuição para os ruídos desta comunicação, são os exageros da mídia. Um exemplo um terapêutica anticoagulante que aumentou a sobrevida dos infartados em 1% foi anunciada: “Terapia Anticoagulante Salva Vidas”  Estes problemas na comunicação entre a ciência e o publico só poderão ser resolvidos a longo prazo com a educação da população sobre a ciência. 

Uma atitude que poderia muito ajudar, seria o público se conscientizar que muito raramente a ciência dá passos gigantescos. A evolução cientifica é quase sempre feita passo a passo.

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