Medicina Alternativa: Benefícios ou Malefícios


Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

A medicina alternativa pode ser definida por um conjunto de práticas e uso de substâncias que não são, hoje, considerados como válidos pela  medicina convencional.

Medicina ortomolecular, dietas e remédios populares, quiropraxia e massagens, uso de chás, benzedeiras, gurus, terreiros e etc.

Estes tipos de terapias médicas continuam sendo utilizadas por parte importante da população, e o que é mais preocupante, é cada vez maior o número de pessoas que delas são usuárias. Nos Estados Unidos, na década de 90, o aumento dos gastos pela comunidade com esse tipo de tratamento foi de 50%.  Acredita-se que, atualmente, perto de 30 bilhões de dólares, seja o faturamento dos setores que realizam tais práticas. Um outro dado que surpreende é que a chamada "medicina alternativa", é mais utilizada pelos que têm mais escolaridade e renda. Como explicar tal paradoxo? Muito difícil. Afinal a medicina alternativa não deveria sequer existir.

Qualquer recurso terapêutico em que se demonstrasse a sua eficácia, deveria ser incorporado à medicina convencional. Os críticos por esse tipo de medicina, dizem que ela é nada mais nada menos que o conjunto de tratamentos que ainda não demonstraram eficiência.

Uma outra preocupação destes grupos de pessoas é que um paciente portador de uma doença grave, porém potencialmente curável pela medicina convencional, deixe de sê lo pelo tempo perdido em práticas alternativas. Porém, o problema existe e não é possível ignorá-lo. Além do mais, muitos dos seus usuários são satisfeitos com os resultados obtidos.

Tais práticas não costumam sequer serem abordadas nos cursos de medicina. Inclusive a homeopatia e a acupuntura, que para alguns já pertence à medicina convencional, enquanto para outros, ainda  são consideradas alternativas, não são abordadas no currículo na maioria das faculdades brasileiras.

É bom que se frise que o problema da medicina alternativa é um problema universal, ocorrendo em todo os tipos de países, pobres, em desenvolvimento e ricos. Inclusive, em alguns deles a maioria dos doentes é, por práticas alternativas, tratada. Na África do Sul, por exemplo, existem apenas 25 mil médicos e mais de 200 mil curandeiros. Em outros países, a medicina alternativa é incorporada ao sistema de saúde governamental. Por exemplo, na China e em ambas Coréias. 

No Brasil, não é do meu conhecimento, a frequência desse tipo de pratica médica. Recentemente, um professor mineiro, João Felício R. Neto, com grupo de colaboradores, pesquisou a prática de medicinas alternativas na comunidade de Monte Claros, Minas Gerais. Analisando apenas os procedimentos que têm custos, consultas e/ou medicamentos, eles constataram que 8,3% da população é usuária de alguma das práticas alternativas. Destes, 15% utilizavam remédios caseiros, 15% benzedeiras, 2,5% homeopatia, 1,5% acupuntura e 0,2% medicina ortomolecular.

Assim como em outros países, o uso dessas práticas é mais freqüente entre os que ganham mais e têm maior escolaridade.

Como a medicina convencional e a sociedade deverão encarar a medicina alternativa?

Introduzir no currículo médico ensinamentos sobre tais práticas?

Realizar pesquisas científicas rigorosas, para avaliar a existência ou não de valor terapêutico?

Proibir o seu uso, alegando a não existência provas científicas da sua eficiência?

Apenas o fato de que, parte importante da comunidade utiliza e acredita na sua eficiência, não garante que isto possa ser verdadeiro.

Afinal, milhões de brasileiros acreditam, e até se sacrificam, por uma seita religiosa, que as autoridades brasileiras estão acusando os seus dirigentes de serem um covil de ladrões.

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