Alguns casos de diabetes neonatal podem ser tratados com medicamentos orais


Dr. Reginaldo Albuquerque
Professor da UnB (1967-1981)
Superintendente de Ciências da Saúde CnPq (1982-1991)
Editor do site da Sociedade Brasileira de Diabetes (2005-2011)
Ex-Consultor em Educação da UnaSus/Fiocruz

O importante jornal médico New England Journal of Medicine (NEJM) publicou na sua edição de 3 de agosto dois interessantes trabalhos sobre mutações genéticas que ocorrem em um certo número de diabéticos neo-natais, ou seja antes dos 6 meses de idade. Na noticia abaixo comentamos estes trabalhos e o editorial sobre os assuntos publicados no NEJM.

Os gens envolvidos são o Kir6.2 e o SUR1 e o aspecto mais importante é que nestes pacientes, o tratamento com insulina pode ser substituído por sulfonilurea e obtendo-se um bom controle metabólico. 

O diabetes neonatal é usualmente descoberto depois do aparecimento dos sinais clássicos de diabetes tais como: glicosúria, desidratação, dificuldade mastigatória e cetoacidose nos primeiros 6 meses de vida. Uma vez iniciado o tratamento a insulina pode ser retirada poucos meses depois, mas muitas vezes a doença retorna no inicio da idade adulta.

Os autores explicam que os canais sensitivos de potássio-ATP (K-ATP) se expressam na superfície das células beta e regulam a liberação de insulina. Existem duas subunidades da K-ATP que interagem com o canal de potássio e têm uma alta afinidade com o receptor na célula beta para sulfonilurea (SUR1). 

Mutações nos genes de qualquer uma das subunidades fazem com os canais K-ATP permaneçam abertos e a secreção de insulina seja diminuída causando o diabetes neonatal. 
O autor do trabalho, Andrew T Hattersley, da Península Medical School, Exeter, UK, descreveu que mutações no gen Kir6.2 causam 30 a 58 % dos casos de diabetes neo-natal. Estes pacientes são tratados imediatamente com insulina, mas os autores descobriram que o tratamento com sulfonilurea pode produzir fechamento dos canais, de uma forma independente do ATP, resultando na secreção de insulina.

O grupo do Dr. Hattersleys avaliou o controle glicêmico em 49 pacientes com mutações Kir6.2 que foram tratados com sulfonilureas (gliburida). Os pacientes tinham entre 3 meses e 36 anos de idade e foram capazes de continuar o tratamento sem insulina. As doses utilizadas foram elevadas e em alguns chegaram a 0.8 mg/kg/dia. 
Entre os 44 que tiveram sucesso no tratamento a média de A1C caiu de 8,1% para 6.4%, com nenhum episódio de de hipoglicemia severa. Os investigadores, no entanto, chamam a atenção que mais tempo é necessário para determinar o sucesso do uso da sulfonilurea.

Os autores, ainda relatam que outras mutações genéticas não respondem à sulfonilurea, sugerindo que um diagnóstico molecular seja realizado antes iniciar a terapia com sulfonilurea. 

Um segundo estudo na mesma linha foi feito pelo Dr. Michel Polak do Hospital Necker Enfants Maladies em Paris. O seu grupo estudou 73 pacientes com diabetes neonatal transitória ou permanente e encontrou em 18 % deles mutações no gen Kir6.2 e analisaram também as mutações no gen ABCC que codifica o SUR1.

Em 18 % dos casos eles encontraram estas mutações, que estavam ausentes em 180 pacientes com diabetes típica e em 140 pessoas sem diabetes. 
Da mesma forma que o Dr. Hattersley, o grupo do Dr. Polak observou que alguns pacientes podem ser tratados com sucesso com a sufonilurea. 

Devido a importância do trabalho, o NEJM publicou um editorial de autoria do Dr. Mark Sperling, da Universidade de Pittsburgh, recomendando que em todos os diabéticos neo-natais sejam procuradas mutações genéticas do Kir6.2 porque esta deve ser a causa mais freqüente de diabetes neo-natal. Se os resultados forem negativos deverão ser estudados os 39 exons do gen SUR1.

Ele termina o editorial, dizendo que como o diabetes neo-natal é uma doença congênita, com a incidência de 1 para 100 mil nascidos e tem conseqüências severas e pode ser tratada com uma pílula, o teste deveria ser incluído rotineiramente nos programas de screening pós- natal. 

COMENTáRIOS DE DURVAL DAMIANI

Caro Reginaldo,

Parabéns pela seleção dos artigos. Não sei bem como discutir no site e por isso lhe escrevo como resposta ao e-mail. Nosso Grupo no Instituto da Criança está com um caso de mutação do Kir6.2 e estamos com o protocolo do Hattersley, utilizando sulfoniluréia. O interessante é que, nesses casos, há manifestações neurológicas concomitantes e, ao que parece, o tratamento não só melhora o DM como tende a melhorar o aspecto neurológico. Isto faz do tratamento uma arma muito importante porque, tratar por tratar, podemos usar insulina que o controle vai bem também. Porém, se podemos atacar ao mesmo tempo outros aspectos da mutação, isto passa a ter um valor especial.

Um grande abraço, Durval Damiani.

 

Dr. Reginaldo Albuquerque
Médico Endocrinologista. Editor do site da SBD. Research Fellow da Universidade de Londres (1975-1979). Ex-professor de endocrinologia da Universidade Brasilia (1967-1982). Ex-superintendente de Ciências da Saúde do CnPq (1982-1990).

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