Células-Tronco: Marcos da Pesquisa e Diabetes


Dr. Reginaldo Albuquerque
Professor da UnB (1967-1981)
Superintendente de Ciências da Saúde CnPq (1982-1991)
Editor do site da Sociedade Brasileira de Diabetes (2005-2011)
Ex-Consultor em Educação da UnaSus/Fiocruz

 Em 2005 foi aprovada no Brasil, depois de uma intensa mobilização, a lei de biosegurança que liberava as pesquisas de células-tronco embrionárias.

Neste artigo pretendemos rever os principais marcos no desenvolvimento destas pesquisas e a situação atual do seu uso em diabetes. A história pode ter começado em 1981 quando o britânico Martin Evans estabelece a primeira linhagem de células-tronco de embriões em camundongos.

Em 1988, o geneticista americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin, isola as primeiras células embrionárias humanas.

No Brasil, em 2000, o grupo de Lygia da Veiga Pereira crias as primeiras células de embriões de camundongos do país e em 2004, o laboratório de biociências, da Universidade de São Paulo importa da Universidade de Harvard, as primeiras células-tronco de embriões humanos.

Como podemos ver, estas pesquisas deram a impressão que a obtenção de células-tronco só seriam possíveis a partir de embriões.O debate ético, político, religioso foi iniciado em vários países. No principal país executor de pesquisas, os Estados Unidos, houve um bloqueio completo, quando o Congresso aprovou uma lei presidencial que limitava as pesquisas às 13 linhagens de células embrionárias já existentes. Nenhum novo embrião poderia ser usado. Um paralisia quase total.

Os pesquisadores, os líderes religiosos e os estudiosos da bio-ética foram para as ruas, cada um desfraldando as suas bandeiras. A pesquisa parou. No Brasil, após um longo debate, que chegou aos Tribunais Superiores, foi enfim aprovada uma lei, com algumas restrições, que permitiu o re-inicio das pesquisas. Em 2008, foi obtida por Lygia da Veiga Pereira, a primeira linhagem brasileira de células-tronco embrionárias humanas e em 2009 Stevens Rehen passou a usar  biosreatores para produzir células tronco em larga escala.

Era o fim da discussão. O embrião deixou de ser necessário. Células-tronco poderiam ser obtidas de vários tecidos, inclusive de células adultas da pele.  No Brasil, a produção nos estudos com células-tronco é tímida. De 2005 a 2010, acredita-se que governo federal invista 55 milhões de reais em pesquisas com células-tronco embrionárias e adultas. No Reino-Unido, investe-se 70 milhões de euros anuais. 

Desde 1988, quando a primeira linhagem foi isolada, as células-tronco - de origem então embrionárias - se tornaram a grande esperança para a cura de várias doenças tais como: , doenças neurodegenerativas, do diabetes, doenças neuromusculares, doenças mentais, cardiovasculares e genéticas.  A razão de tanto esperança está no poder destas células se transformarem que qualquer outra célula.(veja a figura acima)

No final de 2009, a Universidade Federal do Rio de Janeiro inaugurou nas dependências do Hospital Clementino Fraga, o Laboratório Nacional de Células-Tronco (LANCE). Será a primeira fábrica de células-tronco embrionárias do país e poderá abastecer 70 laboratório sredenciados. É uma vitória para a ciência nacional  que após a parada  do bate-boca poderá trabalhar com tranqüilidade. O investimento é de 4 milhões de reais vindos do BNDES. Poderemos ter uma linhagem 100 % nacional. Será possível produzir 60 mil células pelo preço de 1 real. 

A grande novidade do momento é a produção de células pluripotentes, denominadas IPS  que são são obtidas de células mesenquimais adultas reprogramadas. Para criá-las são retiradas células de qualquer parte do corpo humano, geralmente da pele, e um virus atenuado é injetado nelas. Eles carregam, tres ou quatro genes, comuns na produção de células-tronco para modificá-las.

Em um mês, elas ganham a versatilidade das células-tronco. A reprogramação pode ser obtida com vetores retrovirais contendo os genes Oct-3/4. Sox-2.Kif-4 e c Myc e confirmada pela formação de colônias de embrionárias e expressão de fatores característicos de células pluripotentes. 

Pesquisas com o Homem

No Brasil, no momento, em humanos, só estão sendo realizadas estudos com células-tronco adultas. Em Ribeirão Preto, o Dr. Júlio Voltarelli estuda pacientes diabéticos, do tipo 1 e com até 6 semanas de aparecimento da doença. É feita uma quimioterapia para destruir as células imunes defeituosas. As células-tronco refazem o sistema imunológico e os pacientes voltam a produzir insulina. Alguns anos depois, contudo, metade deles tiveram  recaídas. O trabalho foi recentemente apresentado, com grande repercussão, no terceiro congresso internacional de novas tecnologias na Basileia. (veja na página principal do site).

O alvo maior, no Brasil, é da aplicação destas metodologias nas doenças Cardiovasculares. No Incor é testada uma técnica que une pontes de safena com o implante de células-tronco para tratar a angina crônica. São aplicadas 100 milhões de células-tronco retiradas da medula óssea do paciente. Os resultados serão divulgados no final de 2010.  Um estudo feito no Hospital São Rafael da Bahia e da UFRJ estudou 187 pacientes com doença de Chagas. Infelizmente não houve diferença em relação ao grupo controle. 

No que diz respeito às doenças neurológicas, ainda não existem resultados significativos e devem levar ainda algum tempo para que  surjam os primeiros resultados da as aplicações clínicas nesta área.

 

Dr. Reginaldo Albuquerque
Médico Endocrinologista. Editor do site da SBD. Research Fellow da Universidade de Londres (1975-1979). Ex-professor de endocrinologia da Universidade Brasilia (1967-1982). Ex-superintendente de Ciências da Saúde do CnPq (1982-1990).

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