Deu na Globo e Você Precisa Saber, Porque seu Paciente Já Deve Estar Perguntando...


Dr. Reginaldo Albuquerque
Professor da UnB (1967-1981)
Superintendente de Ciências da Saúde CnPq (1982-1991)
Editor do site da Sociedade Brasileira de Diabetes (2005-2011)
Ex-Consultor em Educação da UnaSus/Fiocruz

Deu na Globo e você precisa saber, pois seu paciente já deve estar  perguntando, em razão de ter ouvido e visto a notícia, ou porque algum amigo, parente ou conhecido ligou para ele e contou que viu ou ouviu dizer a respeito. E você, de novo, não sabe de nada! Nós, médicos, trabalhamos o dia todo e raramente temos tempo de assistir TV, daí enfrentarmos esse problema!

A notícia diz respeito a um microchip que ajudará no controle do diabetes. A reportagem cita e mostra um microchip, que está sendo desenvolvido por cientistas da Universidade Federal de Itajubá, em Minas Gerais, que promete simplificar o tratamento da diabetes. Este microchip, segundo eles, será implantado na pele e monitorará a quantidade de insulina no corpo, auxiliando o paciente, assim, a controlar a doença.

A equipe de desenvolvimento, coordenada pelo professor Tales Pimenta, desenvolve os minúsculos sistemas, que vão armazenar informações importantes sobre os pacientes. "Dados pessoais, dia de nascimento, alergias, tipo sanguíneo. Ele vai medir a glicose e a intenção é colocar também capacidade para medir níveis de oxigênio, uréia, colesterol e até mesmo temperatura e outras grandezas não tão complexas de se medir",  afirma Tales Cleber Pimenta, professor da Universidade Federal de Itajubá.

Referido professor, engenheiro elétrico, com mestrado, e tendo feito doutorado e dois pós-doutorados nos EUA, trabalha com Circuitos Eletrônicos, atuando principalmente com circuitos integrados e aplicações biomédicas. Ele está entusiasmado com o tal chip e afirma que os bio-sensores ficarão dentro de uma cápsula, do tamanho de um grão de feijão, que, no futuro, poderá ser implantada no organismo.

Com a aproximação de um outro aparelho ao corpo, será possível obter todas as informações. "Elas seriam passadas por sinais de rádio, então poderiam passar para um computador pessoal, ou poderiam passar para um celular ou outro dispositivo que possa interfaciar com esse dispositivo implantável", segundo Tales Pimenta.

Em uma segunda etapa, o próprio chip liberará quantidades necessárias de insulina. "O paciente nem vai precisar interagir, ele deixa sozinho, o equipamento cuida de tudo sozinho”, comentou.

Segundo o coordenador da pesquisa, em dois anos o aparelho deverá estar pronto para testes.

Impossível?

Seria uma maravilha, se não fosse impossível! Dizem que impossível é somente uma palavra emitida por aqueles que não sabem ou não têm determinação para realizar coisas. Vá lá....., mas este tipo de tarefa é gigantesca, que nem mesmo as grandes empresas que estão gastando dezenas de milhões de dólares, tentando desenvolver tais sistemas, nem o Exército Americano ou a NASA tem um produto como o noticiado.

Neste mês, estive nos Estados Unidos atendendo ao Eighth Annual Diabetes Technology Meeting - encontro de tecnologia em Diabetes - que ocorre anualmente e que congrega físicos, bioquímicos, matemáticos, químicos, estatísticos, cientistas, inventores, desenvolvedores de software, pessoas da indústria de ponta em produtos para pessoas com diabetes, representantes do Exército Americano, da NASA e até médicos endocrinologistas de todo o mundo.

Grandes avanços foram relatados e demonstrados, porém ninguém é tão otimista como na reportagem comentada, a despeito do esforço e da imensa quantia de dinheiro gastos por grandes companhias americanas e internacionais. Assim, acredito que o pesquisador, certamente muito qualificado, não deve ter sido bem compreendido quando falou a respeito da sua pesquisa.


Senão vejamos. Parando para analisar que tipo de equipamento é esse, que esta sendo proposto, tem-se: um microchip, a ser implantado, provavelmente, no sub-cutâneo, o qual carregará informações pessoais e de saúde do paciente, algo viável, sem dúvida, que também medirá a glicemia, o que é pouco factível.

Com efeito, tal é pouco provável, a menos que se tratem de dois chips, sendo um dedicado a guardar a informação e outro sistema, que tenha um chip e também um sensor de glicose implantável no sub-cutâneo, coisa ainda não existente, e que deveria ser trocado de tempos em tempos. Ressalta-se que os sensores existentes no mercado americano (Paradigma, Guardian, Dex-Com e Navigator) usam reagentes químicos para a medicação de glicose e são trocados a cada 3 a 7 dias. Os novos, que estão sendo testados, medem o efeito das mudanças dos níveis de glicose e, mesmo assim, por serem biosensores, deverão ser mudados ao menos uma vez ao ano.

Além disso, os valores de glicose, obtidos com a novidade sob análise, teriam que ser transmitidos via ondas de rádio, para um equipamento externo, algo que, como vocês sabem, já existe – vide o exemplo dos quatro equipamentos retratados – todavia, o que existe fica externamente e não internamente implantado.

Dentre os vários problemas surgidos com a implantação de um chip desse tamanho e até agora não resolvidos podemos citar: como fica a reação fibrótica local, a reação inflamatória e imunológica local e a vascularização na região? É preciso lembrar que todos estes fatores interferem nos níveis de glicose medidos!

Finalmente, digamos que todos os obstáculos apontados sejam ultrapassados, porém, precisaremos de um reservatório de insulina – ele será externo? Já dispomos das bombas de insulina, algumas delas encontradas no Brasil - Paradigma e Spirit – sendo que a primeira tem acoplado um sensor de glicose de tempo real. Frisa-se que nem a Paradigma está plenamente integrada ao sensor e comandada por ele.

A resposta para tudo isto, meus amigos, será, e esperamos que logo, esteja no mercado, o pâncreas artificial. Infelizmente, nada indica que o pâncreas artificial seja desenvolvido, neste grau de miniaturização, para ser colocado em uma cápsula do tamanho de um grão de feijão e em espaço de tempo tão curto.

Grandes avanços foram feitos no tratamento do diabetes, nos últimos 20 anos, desde medicamentos até equipamentos sofisticados, para medição de glicose na ponta de dedo e com sensores no subcutâneo, agulhas especiais, canetas para aplicação de insulina, bombas de infusão de insulina, glicosímetros que necessitam de gotas de sangue muito pequenas mas, infelizmente, teremos que esperar pelo pâncreas artificial um pouco mais.

VOLTAR

Fale Conosco SBD

Rua Afonso Braz, 579, Salas 72/74 - Vila Nova Conceição, CEP: 04511-0 11 - São Paulo - SP

(11) 3842 4931

secretaria@diabetes.org.br

SBD nas Redes