Adipotoxicidade e Adiposcience


Dr. Reginaldo Albuquerque
Professor da UnB (1967-1981)
Superintendente de Ciências da Saúde CnPq (1982-1991)
Editor do site da Sociedade Brasileira de Diabetes (2005-2011)
Ex-Consultor em Educação da UnaSus/Fiocruz

No último número da coluna, o Dr.adipocytes Amélio Godoy-Matos relatou um dos seus estudos relacionados com as lipodistrofias e mostrou algumas alterações relacionadas com a proteína transportadora da vitamina A (RBP4), que seria mais uma das proteínas produzidas pelos adipócitos.

Para muitos, a endocrinologia nasceu com a descoberta de um hormônio gastrointestinal: a gastrina, que atuaria na produção do ácido clorídrico pelo estômago. 

Por muitas décadas, os endocrinologistas desviaram a sua atenção do trato digestivo e só nos últimos 40 anos voltaram os seus estudos para o tubo gastrointestinal, tido hoje como um importante órgão endócrino. 

De 1975 a 1979 houve uma explosão de descobertas de novos hormônios no sistema digestivo. Trabalhando no Hammersmith Hospital, no laboratório do Prof. Steve Bloom, tive a oportunidade de participar destes trabalhos que resultaram na descrição da neurotensina, do VIP, da bombesina, da colecistoquinina e do enteroglucagon, entre outros. Chegamos a publicar um trabalho relacionando os seus níveis em pacientes chagásicos. O Bloom continua ativo neste campo e, recentemente, publicou algumas novas descobertas como o PPY e Obestatina, hormônios que, segundo ele, teriam importante papel nos mecanismos do apetite. 

Durante muitos anos, o tecido adiposo foi visto como um órgão inerte e que a célula adiposa funcionaria apenas como um depósito de gordura.  Nos tempos atuais, ela é vista como um órgão endócrino.  Nesta coluna temos abordado estes assuntos.  Há mais de dois anos publicamos: 

  • “As implicações clínicas da leptina na anorexia nervosa”

  • “Adiponectinas, estados nutricionais e diabetes”

  • “Adiposopatia ou Síndrome Metabólica”

O excesso de tecido adiposo é acompanhado por uma deposição de lipídios em vários tecidos, como o fígado, músculo esquelético e pâncreas. O efeito negativo desta deposição gordurosa promove alterações no metabolismo da glicose. Este efeito deletério da gordura tem sido denominado de “lipotoxicidade”.  A leptina é tida como um hormônio antilipotóxico.

Nas últimas décadas, tem sido acumulado conhecimento suficiente para acreditar que o tecido adiposo tem múltiplas funções fisiológicas, seja na saúde ou na doença. Estas funções são alteradas pela massa e ou a distribuição da gordura, resultando numa alteração dinâmica  da produção de adipocininas que se refletem na obesidade severa,inflamação crônica,com infiltração de macrófagos, resistência à leptina e à insulina e alterações do sistema nervoso autônomo.  A estes efeitos tem sido proposto o nome de adipotoxicidade, que seria a soma dos efeitos negativos associados à obesidade.  

Assim, a Síndrome Metabólica, que é um conjunto que compreende obesidade, diabetes mellitus, dislipemia e hipertensão, deve ser estudada debaixo do conceito de adipotoxicidade. A comparação entre obesidade e lipodistrofia (falta do tecido adiposo) tem dado uma significativa compreensão para os nossos conhecimentos da adipotoxicidade, particularmente, aos dramáticos resultados obtidos pelo uso da leptina em pacientes com lipodistrofia. 

É possível que os novos estudos da adipotoxicidade venham contribuir para novas estratégias na prevenção e no tratamento da obesidade e da Síndrome Metabólica. O ponto chave dos estudos sobre obesidade é compreender o significado do armazenamento do excesso de gordura no tecido adiposo. 
E por isto que  Dr. Kazua Nakao – da Universidade de Kyoto -  e que esteve presente no ICE 2008,  propõe que se dê o nome de Adiposcience aos estudos relacionados com as células adiposas.

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