Alimentação e vida longa: estudo recente mostra que dieta balanceada pode ser a chave para uma vida longa e fértil

Dr. Rodrigo Nunes Lamounier
Médico endocrinologista
Doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
Professor visitante da Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia (Filadélfia, EUA)
Diretor Clínico do Centro de Diabetes de Belo Horizonte (CDBH)
Médico do Hospital Mater Dei
Coordenador do Departamento de Atividade Física da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)

É senso comum que comer os alimentos certos, sem excessos é bom para a saúde. Por outro lado, a restrição alimentar, sem desnutrição, está relacionada a aumento da vida em diversos organismos, desde leveduras, insetos, roedores, primatas e, possivelmente, humanos.

Mas a restrição dietética tem seu preço: freqüentemente prejudica a fecundidade, possivelmente porque a manutenção do soma (porção não germinativa do organismo) e da vida longa é incompatível com as demandas metabólicas da reprodução em algumas situações. Cientistas acreditaram por muito tempo que a resposta adaptativa do organismo à baixa oferta de nutrientes ocorre através de um aparato evolucionário que permite indivíduos sobreviver à fome através de um deslocamento de recursos energéticos da atividade reprodutiva para serem alocados em funções essenciais à sobrevivência. De fato, os dados empíricos reforçam que o aumento da longevidade via de regra ocorre à custa de diminuição da fecundidade.

Foi publicado recentemente na Revista Nature os resultados de um trabalho que apontam em direção contrária a este conceito. Grandison e colaboradores, da Áustria, descobriram, em experimentos com drosófilas, que aminoácidos da alimentação são responsáveis pelo encurtamento da vida e o aumento da reprodução, mas que ambas as características podem ser maximizadas sem prejuízo entre si, quando a ingestão desses nutrientes é ajustada.

Grandes avanços foram feitos recentemente no nosso entendimento de alimentação e restrição calórica. Está claro que dietas ricas encurtam a vida, não por causa de excesso de calorias, mas principalmente por causa de desequilíbrio nutricional. Nutrientes específicos estão implicados na restrição dietética, especialmente aminoácidos, as unidades formadoras das proteínas. Por exemplo, reduzir a ingestão de caseína, uma importante fonte de aminoácidos, aumenta a sobrevida, mas diminui a fertilidade nas Drosófilas. De maneira similar, a restrição de metionina, promove longevidade em insetos, ratos e camundongos. Para avaliar o papel específico de determinados aminoácidos, os pesquisadores induziram restrição dietética que promove aumento de expectativa de vida à custa de fertilidade. Depois, tentaram restabelecer as condições de longevidade e fertilidade da alimentação plena, através da adição de nutrientes específicos. Carboidratos, gorduras e vitaminas não influenciaram, mas a adição de aminoácidos reduziu a longevidade e aumentou a ovulação. Eles passaram então a observar este efeito em função dos tipos de aminoácidos e viram que a adição de aminoácidos não-essenciais (aqueles que podem ser sintetizados pelo organismo), afetou muito discretamente a longevidade, sem efeito na fertilidade. Ao contrário, ao suplementar aminoácidos essenciais (aqueles que devem necessariamente ser supridos pela dieta), eles reduziram a longevidade e recuperaram a fertilidade, de maneira similar à alimentação plena. Ao detalhar a avaliação a fim de estudar cada aminoácido individualmente, eles observaram que a metionina isoladamente teve efeito. Melhorou a fecundidade de maneira semelhante à alimentação plena, sem diminuir a expectativa de vida. Os autores identificaram nutriente específico que modula a longevidade e a reprodução.

Uma teoria para este mecanismo é de que a restrição de metionina aumente as concentrações de glutationa, um antioxidante melhorando as defesas da célula ao estresse oxidativo. Outra possibilidade é de que a metionina reduza a sinalização na via insulina/IGF-1 (fator de crescimento insulina símile-1).

Estes mecanismos estão ainda por ser mais detalhadamente investigados. De qualquer maneira, prevalece o conceito de que os recursos energéticos se distribuem entre a função somática, de manutenção da vida e a fecundidade e a reprodução e que, portanto, a evolução e desenvolvimento de uma característica ocorrem em detrimento da outra função. De fato, a ablação de células germinativas aumenta a duração da vida, em determinados microorganismos.

Os dados deste estudo austríaco colocam este conceito em cheque, já que o ajuste da metionina restabeleceu a fecundidade, sem interferir na longevidade.

Naturalmente, que são dados experimentais, mas se os resultados deste estudo puderem ser aplicados em geral, mamíferos e, possivelmente humanos, poderão desfrutar de uma vida mais longa e fértil, através de uma alimentação balanceada.

Referências: Grandison, R. C., Piper, M. D. W. & Partridge, L. Nature 462, 1061–1064 (2009).

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