Entendendo a Pílula do Exercí­cio

Dr. Rodrigo Nunes Lamounier
Médico endocrinologista
Doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
Professor visitante da Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia (Filadélfia, EUA)
Diretor Clínico do Centro de Diabetes de Belo Horizonte (CDBH)
Médico do Hospital Mater Dei
Coordenador do Departamento de Atividade Física da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)

Alvoroço na imprensa, nas pessoas, nos fãs de TV, internet e de um sofazinho. Foi noticiado nesta última semana, resultados de uma pesquisa que descreve a ginástica dos sonhos dos “Couch potatos”, como se diz na América. É a pílula do exercício!

“Couch Potatos” é a expressão, muito usada nos Estados Unidos, para descrever os gordinhos sedentários, sendo composta pela junção das palavras, em inglês, “sofá” e “batata” (frita, pode-se supor). Pesquisadores do Salk Institute, na Califórnia, já haviam demonstrado, anteriormente, o papel da ativação do gene PPAR Delta,relacionado à oxidação de gordura no tecido muscular, que, quando hiperativado em camundongos geneticamente modificados, melhora a performance ao exercício de resistência.

Diante disso, os cientistas decidiram avaliar se a administração de uma medicação que ativa este gene (agonista), oGW1516, produziria efeito semelhante. Após administrar a substância a camundongos obesos e destreinados, não foi observado qualquer diferença na capacidade desses animais em resistir e suportar o exercício físico.

Tristes, mas não desanimados, os pesquisadores repetiram o mesmo experimento, porém, fazendo com que os animais passassem por uma rotina de exercício físico intenso e regular, com 30 minutos de esteira, várias vezes por semana. Assim, entre os camundongos atletas, eles viram que em comparação àqueles que receberam placebo, os que ingeriram o ativador do PPAR Delta apresentaram rendimento 68% superior. Impressionante!

A conclusão foi de que a ativação do PPAR ativa uma série de genes importantes para o recrutamento de fibras musculares de resistência, enquanto a prática de exercício físico estimulava outras, complementando o efeito e proporcionando a melhora da performance.

Estudando a cascata de reações que ocorre com a ativação do PPAR no músculo, eles resolveram então testar uma outra substância, já pesquisada para outros fins, que estimula o AMPk, uma proteína essencial nesse processo. Essa droga, chamada de AICAR, foi então administrada a uma seleção de camundongos “couch potatos”, ou seja, que foram alimentados com dieta hipercalórica e sem qualquer atividade física, mas que tinham o gene PPAR delta geneticamente hiperativado, como aqueles, descritos inicialmente.

O resultado foi que aqueles que receberam o AICAR conseguiram percorrer uma distância 44% maior que aqueles que receberam placebo. Portanto, a substância proporcionou condicionamento físico sem a prática de exercício!!!

Muita excitação, mas calma que ainda há muita estrada a se percorrer. Os testes foram feitos apenas em camundongos e ainda não se sabe se a substância é segura ou mesmo se produziria os mesmos efeitos em humanos.

Além disso, há uma série de outros efeitos metabólicos relacionados à ativação do PPAR delta e da AMPk que devem ainda ser estudados, para que se melhor entenda os efeitos resultantes da administração dessas substâncias. Outros medicamentos estimuladores de PPAR apresentaram resultados iniciais promissores, mas nem chegaram a ser utilizados clinicamente, porque a despeito dos bons resultados metabólicos, os estudos clínicos iniciais mostraram aumento de risco de mortalidade, como foi o caso dos glitazares.

De qualquer maneira, diante dos diversos pedidos que recebeu de pessoas obesas e sedentárias e ainda de atletas que se candidataram a testar o uso da droga, o pesquisador Ronald Evans, responsável pelo trabalho, já entrou em contato com o Comitê Olímpico internacional e está desenvolvendo testes de sangue e de urina que possam detectar o uso da substância, a fim de se evitar o doping ilegal.

Vejamos o que vem por aí...

Até lá, o melhor, sem dúvida, é moderar nas gostosuras, colorir a alimentação e vamos malhar!

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