Aplicação clínica dos auto-anticorpos no diabetes


Dr. Sérgio Vêncio
Médico endocrinologista
Presidente da SBD-regional Goiás
Research Fellow (Visiting Faculty) na Academisch Ziekenhuis
Free University Hospital, Amsterdan-Holanda

O JCEM (Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism) publicou no seu último número um artigo de revisão da Dra.Polly Bingley, do departamento de ciência clínica da Universidade de Bristol, que analisa o significado prognóstico dos auto-anticorpos e considera a utilidade dos testes na prática clínica diária.

Foram analisados artigos de consenso ou artigos chaves publicados até maio de 2009, que analisaram o uso dos auto-anticorpos na predição do diabetes, na classificação do diabetes e as implicações desses testes do tratamento do diabetes.

No início do DM 1 quase todos os pacientes possuem algum auto-anticorpo. Se quatro marcadores são medidos, GADA, IA-2A, IAA e ICA ou ZnT8A somente 2-4% dos pacientes são de auto-anticorpos negativos, menos de 10% têm apenas um marcador, e cerca de 70% têm três ou quatro marcadores.

1- O uso dos auto-anticorpos na predição da doença - Estudos em parentes de pacientes diabéticos tipo 1 mostram que o aparecimento dos auto-anticorpos é uma etapa crucial para o desenvolvimento da doença. A presença de dois auto-anticorpos se correlaciona mais fortemente com a incidência de DM1 do que somente um anticorpo positivo. Porém dosar esses anticorpos rotineiramente pode gerar mais ansiedade, uma vez que os estudo de prevenção do DM1 (DPT-1) não trouxeram resultados importantes como no DM2 (DPP). Não há indicação para o screening rotineiro.

2- Uso dos anticorpos na classificação do diabetes - Sabe-se que a presença de auto-anticorpos anti-ilhota é mais frequente nos pacientes magros, onde a progressão da doença com necessidade de insulinização exógena acontece mais rapidamente e com níveis de peptídeo-C menores. O termo diabetes latente auto-imune em adultos (LADA), definido em termos de positividade GADA, foi criado para descrever o diabetes auto-imune lentamente progressivo, que também tem sido chamado de "diabetes tipo 1,5" e "diabetes lentamente progressivo insulino-dependente”

Isso nos dá a possibilidade de dosar esses auto-anticorpos, e identificar um subgrupo de pacientes que aparentemente evolui mais ligeiramente para a falência pancreática, porém não há evidência de que dosar de forma rotineira, e somente o anticorpo anti-GAD, traga benefício. Estudos foram realizados para avaliar a necessidade de insulinização precoce, a utilização de terapias imunomoduladoras e a prevenção de cetoacidose, mas ainda carecemos de dados mais conclusivos.

Um escore clínico combinando idade de início, os sintomas agudos, índice de massa corporal e história pessoal e familiar de doenças auto-imunes tem se mostrado muito eficaz na identificação do mesmo grupo de pacientes.

A conclusão do estudo é que a dosagem dos auto-anticorpos leva a uma taxa de previsibilidade alta para o DM1. Eles tem sido usado na triagem de estudos clínicos de prevenção e tratamento com imunomodulação. A dosagem de auto-anticorpos, para avaliação de risco na prática clínica rotineira, no entanto, é atualmente limitada porque nenhuma intervenção foi capaz de impedir a doença, e os benefícios de identificar e seguir os indivíduos de risco são incertos.