O estudo Look AHEAD falhou em demonstrar que a perda de peso reduz desfechos cardiovasculares em diabéticos obesos


Dr. Walmir Coutinho
Coordenador do Departamento de Obesidade da SBD

O Estudo Look AHEAD gerou imensa expectativa entre a comunidade científica.

A cada década o NIH Norte-Americano tem financiado um estudo na área de diabetes que eles consideram com potencial de modificar as diretrizes terapêuticas. Assim foram justificados o DCCT e o DPP.

O objetivo principal do LOOK AHEAD era testar a hipótese de que um programa de tratamento clínico intensivo para redução de peso poderia reduzir a incidência de desfechos cardiovasculares em pacientes com diabetes do tipo 2.

Os primeiros resultados foram animadores, sendo obtida uma perda de peso ao final do primeiro ano de 8,6% no grupo intensivo contra 0,7% no grupo controle.

Ao final do 4o ano boa parte desta diferença já se dissipara, com o grupo intensivo recuperando 2,45% do peso inicial, o que correspondia a 28% do resultado obtido no primeiro ano.

No ano de 2011 fui convidado a comentar estes resultados de 4 anos e escrevi à época:

-  “Os resultados de 4 anos parecem trazer aspectos positivos e negativos.

-  ...é preocupante observar a recuperação de peso a partir do segundo ano, representando aproximadamente 28% do total de peso perdido nos primeiros 12 meses.

-  Além do risco de recuperação do peso inicialmente perdido, uma importante ameaça ao estudo Look AHEAD é a perda de pacientes, .... Será importante a implementação de estratégias de retenção efetivas para evitar perdas de seguimento que comprometam o poder estatístico do estudo.

Me preocupava principalmente a ameaça de perda de poder estatístico, fator cada vez mais crítico para o sucesso de estudos de desfechos cardiovasculares. Este poder estatístico já fica muito prejudicado pela redução progressiva que se observa na taxa anual de eventos decorrente dos tratamentos mais modernos, com o crescente uso de estatinas e as terapias anti-hipertensivas mais agressivas.

O anúncio do término prematuro do estudo por futilidade, em outubro de 2012, confirmou que a preocupação era procedente.

De fato a taxa anual de eventos foi muito baixa em ambos os braços, sendo relatados um total de 367 desfechos cardiovasculares no grupo intensivo e 383 no grupo controle.

Outro inesperado fator despontou como decisivo. Os pacientes do grupo controle, ao perceberem através da mídia que os resultados do grupo intensivo eram muito melhores que os deles, pesquisaram no site que o Look Ahead manteve na internet quais eram as diferenças de tratamento entre os grupos e muitos destes pacientes decidiram adotar algumas destas mesmas estratégias, como o uso de substitutos de refeição e a supervisão por personal trainers. Na visão de um dos coordenadores do estudo, o professor de Harvard Osama Hamdy, “os pacientes do grupo controle não quiseram mais continuar como grupo controle”.

Ao final do oitavo ano, a perda média de peso no grupo intensivo, que fora de 8,6% no primeiro ano e 6,15% ao final do 4o ano, encolheu para 4,7% aos 8 anos.

No grupo controle, outra surpresa negativa: a perda que se manteve abaixo de 1% até o quarto ano foi turbinada a partir do 5o e chegou ao final do oitavo ano com média de 2,1%, provavelmente como resultado da inesperada mudança de comportamento dos pacientes do grupo controle. A diferença entre os grupos, que após 1 ano era de 7,9% atenuou-se para apenas 2,6% ao final do oitavo. Em outras palavras, 67% da diferença de emagrecimento observado no primeiro ano haviam desaparecido ao final do estudo.

Some-se a isso um outro fator relevante. O uso de estatinas no grupo controle foi maior que no grupo intensivo.

Como principal conclusão, temos que evitar frases como: o Estudo LOOK AHEAD mostrou que o tratamento intensivo para perda de peso não reduz desfechos cardiovasculares em pacientes diabéticos.

A verdadeira conclusão deve ser:

O ESTUDO LOOK AHEAD FALHOU EM DEMONSTRAR QUE A PERDA DE PESO REDUZ DESFECHOS CARDIOVASCULARES EM DIABÉTICOS OBESOS.

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