Nessa copa, para ser técnico tem que ter currículo


Dr. Arnaldo Moura Neto
Médico Endocrinologista formado pela Unicamp
Mestre em Clínica Médica e doutorando em Clínica Médica pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp
Especialista em endocrinologia pela SBEM e membro da SBD

Para o brasileiro, essa época de copa do mundo é especial. Não porque o futebol seja uma paixão. No Brasil, futebol é religião. Nesse momento de alegria contagiante, são comuns os excessos e os cabelos dos endocrinologistas ficam um pouco mais brancos com o prospecto de glicemias elevadas e exames descompensados. Revisam-se prescrições de orientação alimentar e de como escolher melhor os petiscos. Reforça-se não exagerar no consumo de bebidas alcoólicas para impedir glicemias fora do padrão e hipoglicemias. Os jovens são um grupo de risco em particular.

Mas a copa é antes de tudo um evento esportivo. Então por que não aproveitar esse período para tentar engajar mais os pacientes com diabetes em atividades físicas, inclusive o futebol? É preciso sempre lembrar o que conseguiríamos atingir se passássemos mais à ativa ao invés de apenas assistir aos jogos e dar uma de técnico. Futebol é um santo remédio.

Talvez a maior vantagem seja a de que o exercício regular é capaz de promover diminuições de glicemia de um modo que é independente da insulina. Assim, não importa se jovem ou velho, diabetes tipo 1 ou tipo 2, ou quais medicações a pessoa usa, a glicemia vai diminuir. Ajuda a controlar o peso. Mantém a disposição, o bem-estar e ajuda a melhorar o sono. Previne outras doenças muito associadas ao diabetes, como hipertensão, hipercolesterolemia e doenças cardiovasculares. Aumenta a expectativa de vida. Agrega amigos. Combate a depressão. É barato e ainda ajuda a economizar nos remédios. Talvez até permita mitigar um pouco as consequências de determinados excessos cometidos na hora de jogos do Brasil. Abre-se assim a possibilidade de um pouco mais de liberdade na dieta.

O futebol em especial, além de muito divertido, engloba atividades de resistência aeróbica e de explosão.  Partidas regulares são ótima oportunidade para incentivo ao preparo para o jogo, com fortalecimento de musculatura para diminuir a chance de lesões. Deste modo, temos uma prática bem completa e ao mesmo tempo divertida e segura.

Médicos e portadores de diabetes devem discutir em todas as consultas as vantagens e cuidados relacionados ao exercício. Pacientes com complicações como problemas cardíacos e neuropatia ou retinopatia devem passar por avaliação médica antes de iniciar prática mais vigorosa. Consumo de álcool pode aumentar a chance de hipoglicemia. É fundamental lembrar de checar a glicemia antes, durante e após a partida e estar em dia com as medicações, principalmente os pacientes dependentes de insulina. Há de se encontrar um plano que se encaixe para todos, individualmente, de modo que ninguém fique de fora. 

Como no mundo atual a obesidade e os excessos alimentares são cada vez mais frequentes e ainda por cima constituem a principal causa de diabetes, é compreensível que acabemos nos preocupando muito com alimentação, ainda mais em época de festa. Porém, essa é uma comemoração esportiva e uma ocasião imperdível para incentivar a pratica de exercícios, principalmente o futebol.

Nesse mês de 200 milhões de técnicos, vamos lembrar que cerca de 17 milhões deles são diabéticos. Eles vão se dar muito melhor se tiverem no currículo um pouco mais de experiência prática. 

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