Em janeiro de 2012 dividi com todos um dos mais promissores artigos sobre transplante de células-tronco em pacientes com diabetes tipo 2 (DM2). Neste artigo foram infundidas por veia periférica células-tronco mesenquimais de placenta em 10 voluntários. Entretanto, este estudo assim como vários outros envolvem um número pequeno de pacientes e com seguimento muito curto. 

Após 1 ano o número de publicações sobre terapia celular em diabetes aumentou exponencialmente, sendo obviamente a maioria dos estudos realizados em animais ou in vitro.

A China tem se destacado pelo grande número de pacientes incluídos em pesquisas clínicas com células-tronco. Minha sugestão de leitura é um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Qingdao, China que avaliou o efeito da infusão autóloga de células-tronco mononucleares da medula óssea em pacientes diabéticos tipo 2.

Quando se fala de infusão de células-tronco mononucleares da medula óssea isto quer dizer que são infundidas células-tronco mesenquimais, hematopoéticas...

As células-tronco são conhecidas pelo seu potencial de se auto-renovar e também de se diferenciar em células mais maduras in vitro. Por isso, muita esperança reside no seu uso terapêutico em humanos, especialmente em doenças crônico-degenerativas.

Como estamos vivendo ainda uma fase inicial dos estudos, não sabemos ao certo quais doenças serão realmente beneficiadas com o uso de células-tronco  e em quais doenças esta terapia ficará apenas na promessa.

Felizmente o Brasil é pioneiro no uso de células-tronco em humanos com diabetes e as pesquisas se iniciaram em 2003 com o diabetes tipo 1. O diabetes tipo 1 é autoimune, ou seja, o sistema imunológico do paciente destrói as células produtoras de insulina localizadas no pâncreas. Neste caso, nossos estudos conduzidos pelo grupo de transplante de células-tronco da USP-Ribeirão Preto visam promover um “reset” no sistema imunológico destes pacientes evitando que ele continue o processo de agressão ao pâncreas. Este “reset”...

O Dr. Walter Minicucci, membro do conselho científico da SBD, esteve na Grécia, onde participou da Segunda Conferência Internacional em Avanços e Tecnologia no Tratamento de Diabetes (Advanced Technologies & Treatments for Diabetes - ATTD). Colaborou na cobertura do evento a endocrinologista, Dra. Denise dos Reis Franco. Foram mais de 800 participantes, representando 68 países.

Nesse encontro sobre avanço em tecnologias e tratamento para diabetes, como não poderia deixar de ser grande parte das discussões foram sobre bombas de infusão de insulina, sensores de glicose, melhores técnicas para conseguir controle metabólico, nos pacientes com DM1 e também naqueles com DM2 que não requerem tanta tecnologia, mas onde aderência tanto dietética quanto nutricional e requerida.

Veja o relato com os objetivos do evento e a importância dos debates realizados no evento, que foi promovido pela Kenes International.

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Apesar de estarmos acostumados com a dosagem de auto-anticorpos na determinação diagnóstica do diabetes tipo 1, sabemos que estes anticorpos possuem papel secundário no fenômeno de autoimunidade desta doença.

Há quase 15 anos o Dr Bart Roep da Universidade de Leiden - Holanda publicou no New England Journal of Medicine um relato de caso de um menino portador de uma doença genética rara chamada agamaglobulinemia. Trata-se de uma síndrome de imunodeficiência congênita em que o paciente não produz nenhum tipo de anticorpos. Neste relato de caso, o menino em questão desenvolveu diabetes tipo 1 a despeito de não possuir qualquer nível de anticorpos circulantes.

Por conta disto e por diversos outros estudos sabemos que o diabetes tipo 1 é uma doença autoimune que tem como principal agente a imunidade celular, sendo os anticorpos atores coadjuvantes e não necessários para a ocorrência do fenômeno autoimune. Dentre os principais agentes da autoimunidade celular temos...

Todos estamos familiarizados (infelizmente) com a neuropatia diabética acometendo os nervos periféricos de membros inferiores, acometendo a inervação autonômica cardiovascular e gastrointestinal, etc.

A diabetologia vive um enorme dilema com relação às neuropatias diabéticas. Muitas formas de neuropatia são de diagnóstico difícil e outras neuropatias facilmente identificáveis não são detectadas por uma simples falta de exame físico adequado em consulta médica regular.

Não bastasse tudo isto exposto, surge uma nova forma de neuropatia: neuropatia na medula óssea! A medula óssea não é apenas um arcabouço ósseo. Na medula óssea existem células-tronco adultas responsáveis por inúmeras funções, dentre elas:

  • Angiogênese (via produção de células-tronco endoteliais)
  • Formação do sistema imunológico
  • Formação da série vermelha do sangue

Estudos recentes apontam que o diabetes poderia reduzir a formação e a liberação destas células para o sangue periférico, sendo estas uma das causas para a pessoa com diabetes ter maior risco de doenças macrovasculares.  Com a...

Muito antes de assumir a editoria do site da SBD, nosso grande amigo Reginaldo Albuquerque dava mostras de sua criatividade e de sua inquietude científica quando começou a editar os “Portulanos”, uma espécie de newsletter eletrônica na qual Reginaldo propunha o debate de temas polêmicos em diabetes, muito antes da entronização dessa técnica como uma das modalidades mais eficientes de incorporação de conhecimento médico.

Cada edição dos Portulanos se transformava num sucesso de público e de crítica muito maior que a edição anterior. Os Portulanos sempre contavam com a participação dos nomes mais expressivos da diabetologia brasileira e, sem sombra de dúvidas, pode ser considerado como um dos maiores sucessos editoriais da mídia eletrônica dos últimos tempos.

Participei dos Portulanos em várias oportunidades e, em uma delas, coloquei para discussão uma questão relativa à minha própria condição de portador de diabetes, instigando o debate em cima de um caso clínico...

Boas-novas vindas dos Estados Unidos, em abril deste ano.

O FDA (Food and Drug Admnistration), orgão do governo americano encarregado de controlar e legislar sobre a aprovação de medicamentos e aparelhos médicos, aprovou um sistema integrado de bomba de infusão de insulina e sensor contínuo de glicose (CGM), para o manejo do diabetes de tipo 1 e 2 e denominado MiniMed Paradigm REAL-Time. Fabricado pela Medtronic Inc.

Este sistema é composto do sensor de glicose em tempo real, chamado REAL-Time CGM system e de uma bomba de infusão de insulina, denominada MiniMed Paradigm. Trata-se de sistema semelhante ao já existente no Brasil para uso por médicos, clínicas ou laboratórios, conhecido por “Holter” de glicose ou CGMS, mas que não se comunicam diretamente.

Nos dois casos é usado um sensor de glicose descartável, inserido no subcutâneo, na região do abdômen, e que mede os níveis de glicose intersticial, continuadamente, durante 3 dias, perfazendo 288 medidas de...

Recentemente, tem-se cogitado em utilizar a hemoglobina glicada como teste de rastreio ou mesmo de diagnóstico para o diabetes como um possível substituto do teste de glicemia de jejum e do teste oral de tolerância à glicose (TOTG). Entretanto, os estudos têm demonstrado que a limitação dessa proposta não está relacionada ao fato de que valores altos de A1C indiquem a presença de diabetes, mas, sim, ao fato de que um resultado "normal" não exclui a doença. Em outras palavras, a utilização da A1C no rastreio ou no diagnóstico do diabetes seria uma opção diagnóstica dotada de especificidade, porém, sem sensibilidade. Outro aspecto a ser considerado é o custo de realização do teste de A1C, que ainda é incompatível com sua utilização como teste de rastreio, do ponto de vista de economia da saúde.

No Congresso da American Diabetes Association, ocorrido em junho de 2009, em New Orleans, EUA, um...

Caros leitores,

Nesta edição da coluna "Debates", tenho a honra de veicular um assunto de extrema importância prática para o sucesso da educação em diabetes, desenvolvido pela psicóloga e especialista em educação em saúde, Graça Camara, com invejável currículo nessa área tão crítica de promoção da saúde e prevenção de doenças. A Graça tem atuação destacada como membro do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da UNIFESP e, também, do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Centro de Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Também atua como coordenadora educacional do projeto "Educando Educadores", um projeto conjunto SBD/ADJ.

Aumentando a Efetividade dos Grupos de Educação em Diabetes

Graça Maria de Carvalho Camara
Psicóloga - especialista em Educação em Saúde

A educação em diabetes tem se mostrado um recurso poderoso no tratamento e controle do diabetes. Muitos estudos revelam resultados excepcionais nesse sentido, quando...

O Estudo Look AHEAD gerou imensa expectativa entre a comunidade científica.

A cada década o NIH Norte-Americano tem financiado um estudo na área de diabetes que eles consideram com potencial de modificar as diretrizes terapêuticas. Assim foram justificados o DCCT e o DPP.

O objetivo principal do LOOK AHEAD era testar a hipótese de que um programa de tratamento clínico intensivo para redução de peso poderia reduzir a incidência de desfechos cardiovasculares em pacientes com diabetes do tipo 2.

Os primeiros resultados foram animadores, sendo obtida uma perda de peso ao final do primeiro ano de 8,6% no grupo intensivo contra 0,7% no grupo controle.

Ao final do 4o ano boa parte desta diferença já se dissipara, com o grupo intensivo recuperando 2,45% do peso inicial, o que correspondia a 28% do resultado obtido no primeiro ano.

No ano de 2011 fui convidado a comentar estes resultados de 4 anos e...

A depressão tem impacto nocivo sobre o controle glicêmico e o diabetes mal controlado intensifica os sintomas depressivos

Para dar uma idéia das correlações negativas entre a depressão e o controle do diabetes, nada melhor do que um caso clínico real: Mariana (nome fictício) foi atendida em nosso serviço com uma glicemia média semanal de 476 mg/dL e uma variabilidade glicêmica, medida através do desvio padrão, de 60 mg/dL. Mulher sofrida, com sérios problemas familiares que incluíam alcoolismo e violência doméstica, manifestou claramente sua conformidade com o fato de nunca ter controlado seu diabetes, alegando que as consequências desse fato eram irrelevantes diante dos problemas que enfrentava.

Os esforços educacionais da equipe multidisciplinar conseguiram convencê-la a, pelo menos, tentar seguir as novas orientações para ajudá-la a obter o necessário controle glicêmico que, por sua vez, iria contribuir para a melhoria de seu depressivo estado emocional. Contra todas as expectativas, ela aderiu totalmente ao...

Um resumo do Posicionamento Oficial da American Diabetes Association, da American College of Cardiology Foundation e da American Heart Association, em janeiro de 2009.

A comunidade científica internacional vem enfrentando uma verdadeira epidemia de conclusões conflitantes emanadas de grandes estudos clínicosbem controlados. No caso específico do diabetes, estudos recentes como o ACCORD, o ADVANCE e o VADT mostraram resultados que contestam o conceito clássico segundo o qual o bom controle glicêmico é uma estratégia eficaz para a redução do risco cardiovascular. Por outro lado, na direção oposta, um estudo recente avaliando, após 9 anos, a proteção em longo prazo proporcionada pelo tratamento intensivo em indivíduos comdiabetes tipo 1 que participaram do estudo DCCT original mostrou uma redução de 42% nos eventos cardiovasculares e de 57% no risco de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral ou morte por doença cardiovascular no grupo de tratamento intensivo, em comparação com o grupo submetido a tratamento padrão [1].

Na mesma direção, um estudo de...

Instituições públicas e privadas ainda são pouco sensíveis às evidências de ações preventivas como fator de geração de ganhos econômicos.

Patrícia (nome fictício) é uma jovem senhora de 30 anos de idade, portadora de diabetes há apenas 14 anos, casada, com um filho e...provável candidata a um transplante duplo de rim e pâncreas por insuficiência renal crônica. Ela está cega de ambos os olhos por descolamento bilateral da retina devido à retinopatia diabética. Hipertensão arterial, cardiopatia e insuficiência cardíaca, dislipidemia, anemia profunda e edema generalizado complementam seu quadro clínico. Ah, ia me esquecendo de mencionar uma neuropatia muito importante a ponto dela acidentalmente enterrar um prego na sola do pé, sem sentir absolutamente nada.  Na primeira consulta, sua A1C era de 10,1%.

Graças a um invejável desejo de viver, Patrícia é um exemplo de garra, dedicação, empenho e...esperança. Através de uma intensiva intervenção educacional e farmacológica, ela conseguiu atingir uma glicemia média semanal de...

Na falta de estudos comparativos mais recentes, autoridades de saúde tendem a subestimar o tamanho real da população de portadores de diabetes no país.

O Estudo Multicêntrico sobre a Prevalência do Diabetes Mellitus no Brasil, também conhecido como “Censo Brasileiro de Diabetes”, foi um marco histórico na medicina preventiva brasileira. Sob o comando de Reginaldo Albuquerque, no CNPq, e de Geniberto Paiva Campos, no Ministério da Saúde, o Censo de Diabetes teve a coordenação técnica de Laércio Joel Franco e Maria Inês Schmidt, contando com a colaboração de um grupo assessor do qual tivemos a honra de participar, juntamente com Domingos Malerbi, Adolpho Milech, Luciano Almeida, Laurenice Pereira Lima, José Bernardo Peniche e Corina Costa Braga.

A prevalência do diabetes foi avaliada, no período de 1986 e 1988, em nove capitais brasileiras (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Recife, João Pessoa, Fortaleza e Belém), através de medidas diretas de...

Dados do estudo A1C-Derived Average Glucose (ADAG) modificam a correlação entre valores de A1C e glicemia média.

Até recentemente, a avaliação do controle glicêmico de longo prazo no paciente diabético era feita exclusivamente com base nos resultados da hemoglobina glicada (A1C). Resultados de A1C abaixo de 7% eram considerados como metas de controle adequado da glicemia, o que contribuiria para a redução do risco de complicações crônicas atribuídas ao diabetes. Por muitos anos, a A1C foi considerada como padrão-ouro para a avaliação de longo prazo do controle glicêmico.

Em fevereiro de 2008, os pesquisadores franceses Louis Monnier e Claude Colette, em artigo publicado no Diabetes Care, mostraram evidências concretas dos efeitos perniciosos relacionados não apenas à hiperglicemia crônica sustentada mas, também, à variabilidade glicêmica, a qual também contribuiria de maneira significativa para o aumento do risco de complicações crônicas do diabetes, uma vez que as flutuações agudas dos níveis de glicemia ao redor de um...

Resultados finais do Veterans Affairs Diabetes Trial demonstram que a rosiglitazona não está associada a aumento da mortalidade.
 
Um dos trabalhos mais brilhantes da literatura médica foi publicado em 1984 por Goodwin e Goodwin no JAMA, sob o título “The Tomato Effect: Rejection of Highly Efficacious Therapies”. Nesse artigo, os autores descrevem o chamado “Efeito Tomate”, para caracterizar a situação na qual terapias altamente eficazes são simplesmente abandonadas em função de interpretações equivocadas de dados da literatura médica ou devido a puro preconceito científico. O termo “efeito tomate” deriva do seguinte fato histórico: o tomate pertence à família das solanaceae. As folhas e frutos de várias plantas desta família como, por exemplo, a beladona e o mandraque podem causar morte se ingeridas em quantidades suficientes caracterizando-se, assim, como plantas venenosas.

De acordo com o raciocínio vigente na época, o tomate também teria que ser venenoso em função de seu parentesco com...

O fato verídico aqui relatado mostra que intervenções terapêuticas eficazes podem, eventualmente, contrariar a lógica médica.

Estou entre aqueles que acreditam que a medicina deva ser utilizada para proporcionar, não apenas uma vida digna mas, também, uma morte com dignidade. O direito à vida deve se confundir com o dever de viver, sempre que ainda haja uma esperança de vida digna. Mas, o direito à dignidade na morte é inalienável e deve ser respeitado pelos que praticam a medicina como ciência e sacerdócio.

O ponto crucial desta questão reside, justamente, na capacidade de se definir, de forma precisa e inquestionável, a hora exata em que os esforços de sobrevivência devam dar lugar à resignação, frente a uma morte inevitável. Seguramente, este é o dilema mais crucial na vida profissional daqueles que compartilham esta filosofia de resignação perante o desfecho inevitável.

Certas vivências reais em nossa vida profissional parecem ter a finalidade de questionar nossos mais arraigados conceitos, fazendo com que nos...

Texto publicado pelo British Medical Journal, em resposta às conclusões desfavoráveis do estudo ESMON com relação à automonitorização glicêmica no diabetes tipo 2.

Transcrevo, a seguir, o conteúdo de minha resposta, publicada pelo British Medical Journal, no último dia 21 de abril, contestando as conclusões desfavoráveis do estudo ESMON com relação à automonitorização glicêmica em pessoas com diabetes tipo 2, recentemente diagnosticado, e sem a presença de complicações ou comorbidades.

As conclusões desse estudo ficam prejudicadas basicamente pela exigência da realização desnecessária de oito testes semanais, durante 12 meses, para pacientes bem controlados que, na realidade, necessitariam talvez de um ou dois testes semanais, em horários distintos. O teor de minha resposta foi o seguinte:

"Os estudos de Simon et al. e de O'Kane et al. incluíram apenas pacientes ideais, portadores de diabetes tipo 2, acompanhados a cada três meses, durante um ano inteiro. O estudo sobre a eficácia da (AMG) por O'Kane et al. incluiu apenas pacientes ‘cinco...

Planos de Saúde ou de Doença ?
Dioclécio Campos Júnior.

Saúde não significa apenas a ausência de doença. O conceito é muito mais amplo. Traduz o bem-estar físico, mental e social do indivíduo. Promovê-la não se limita ao mero diagnóstico e tratamento de enfermidades contraídas pelas pessoas. Supõe ações diversas e contínuas que, ademais de evitarem o adoecimento, asseguram a fruição de vida saudável, prazerosa, feliz.

Corresponde ao principal componente em que se baseia o direito de viver, tese cuja evidência cresce na atualidade. De fato, não basta nascer, ter direito à vida. Não é suficiente estar vivo. Nem ser mais um sobrevivente. A dignidade é valor imanente ao ser humano, como afirmou Kant. Para alcançá-lo é necessário poder viver, direito inimaginável sem o pressuposto da saúde plena. 

Como os cidadãos ainda não atentaram para o caráter revolucionário de tal associação conceitual, a realidade sanitária do país deixa a desejar. A doença...

Lei Rouanet permite renúncia fiscal de cerca de R$ 1 bilhão para projetos de teatro, cinema e música, enquanto saúde e educação se deterioram.

Definitivamente, vivemos num país de idéias e prioridades tropicais, onde proliferam livremente as posturas de incoerência político-administrativa, subvertendo a ordem natural de nossas necessidades básicas como nação ainda subdesenvolvida, apesar do glorioso eufemismo de "país emergente".

Discutir essa postura global de incoerência seria por demais trabalhoso e não traria nenhuma contribuição adicional ao debate sobre as reais necessidades e as verdadeiras prioridades típicas de um país que ainda não conseguiu sair do subdesenvolvimento quase total nas áreas fundamentais de educação e saúde. A chamada "Lei Rouanet" é emblemática da total inversão de prioridades em nosso país tropical.

Promulgada em dezembro de 1991, a Lei 8313 (Lei Rouanet) chega quase à maioridade, com um histórico de generosa renúncia fiscal em favor de projetos que tratam de prioridades culturais,...

Cada vez mais, a visão filosófica do ato médico vem questionando a adequação das condutas terapêuticas, principalmente em relação àqueles pacientes nos quais os fatores adversos de ordem psicossocial se apresentam como obstáculos intransponíveis para o sucesso da condutaterapêutica.

Afinal, temos o direito de perturbar a tranqüilidade de um paciente polifragilizado na tentativa de impor nossos conceitos pétreos de metas adequadas de controle glicêmico?

Seria ético desestabilizar sua confortante ignorância sobre os riscos a que está sujeito em função da falta de controle adequado de fatores de risco importantes como diabetes, hipertensão, dislipidemias, entre outros?

Permitam-me apresentar a vocês o senhor "Poli-F", um típico polifragilizado, atendido em nosso no Grupo de Educação e Controle do Diabetes. Em termos de perfil de patologias associadas, ele difere pouco dos demais pacientes que nos são encaminhados, apresentando intenso descontrole glicêmico, A1C entre 8 a 12%, graus variáveis de insuficiência renal, dislipidemia, hipertensão, retinopatia e neuropatia. O que diferencia o senhor "Poli-F" dos demais pacientes é o grau...

Se me perguntarem qual é minha sensação em relação às bombásticas e altamente conflitantes conclusões dos estudos clínicos de alta confiabilidade durante os últimos anos minha pronta resposta seria algo como "Apertem os cintos...O piloto sumiu!!!" ou, para ser mais explícito e coerente, algo mais parecido com "O samba do crioulo doido..." A ciência está de cabeça para baixo. Assim como a corrupção no Brasil, a confusão científica não tem mais fim. Em muitas áreas, ninguém mais sabe o que é certo e o que é errado, ninguém mais conhece a verdade de plantão, ninguém mais sabe qual a conduta terapêutica mais apropriada.

A primeira bomba do ano explodiu em 16 de janeiro, quando foram anunciados os resultados do Estudo ENHANCE, que avaliou os efeitos da combinação de uma estatina (sinvastatina) com um bloqueador da absorção intestinal do colesterol (ezetimiba), em comparação com a sinvastatina em monoterapia. O desfecho primário...

Tomei conhecimento hoje, dia 10 de setembro de 2009, das normas publicadas pela Prefeitura do Município de São Paulo para a distribuição do material necessário para a avaliação do controle do diabetes (monitores, tiras, lancetas, seringas, etc.) dentro do Programa de Automonitoramento Glicêmico. Esse documento, sem data conhecida de publicação, foi desenvolvido com base na legislação federal e na estadual sobre o assunto e apresenta algumas impropriedades de significativo impacto clínico direto, utilizando termos como “insulinodependentes” e “não insulinodependentes”, termos já abandonados e condenados pelas sociedades médicas de diabetes há mais de 10 anos.

Além disso, menospreza a importância da automonitorização por pacientes “não insulinodependentes” (seriam estes os pacientes com diabetes tipo 2?), recomendando que os mesmos façam seus testes de glicemia nas Unidades de Saúde, uma postura que tende a perpetuar o mau controle glicêmico. Conforme informações contidas na Deliberação Del_CIB nº 43/2008, o investimento governamental em diabetes está...

As intervenções nutricionais inteligentes e adequadamente implementadas respeitando-se os gostos e preferências dos pacientes representam uma estratégia de alta eficácia na prevenção e no tratamento do diabetes. Classicamente, a orientação nutricional voltada à prevenção e ao controle do excesso de peso e da obesidade tem-se mostrado como uma das estratégias mais importantes nos esforços de se promover o controle glicêmico necessário. Quais seriam as dietas já consagradas e capazes de proporcionar benefícios indiscutíveis nesse sentido?

Dentre as intervenções nutricionais mais eficazes, a dieta do Mediterrâneo, sem sombra de dúvidas, é a que proporciona evidências científicas mais concretas. O papel dessa dieta na prevenção do diabetes tipo 2 foi avaliado em artigo publicado no British Medical Journal, em Maio de 2008. Os autores explicam que essa dieta inclui os seguintes componentes: alto coeficiente de ácidos graxos monoinsaturados/saturados, ingestão moderada de álcool, alta ingestão de legumes, vegetais, grãos, frutas e sementes, baixa ingestão...

No modelo clássico da relação médico-paciente a informação segue um fluxo de direção única, onde o médico emite ordens e o paciente obedece sem nenhuma preocupação com o aspecto educacional do ato médico. Essa forma impositiva de abordagem terapêutica, ao ignorar a importância da educação do paciente durante a consulta, acaba gerando consequências danosas aos efeitos clínicos desejáveis.  Mais modernamente, boa parte da classe médica passou a aceitar a importância do processo educacional do paciente como elemento fundamental para o sucesso terapêutico, com base no conceito óbvio segundo o qual o paciente educado será, sem dúvida, um paciente aderente aos tratamentos e às recomendações da equipe de saúde.
 
Não é fácil educar, uma vez que existe um longo caminho a percorrer entre a exposição ao conhecimento e a implementação efetiva desse conhecimento na rotina diária do paciente. Essa situação, conhecida como “a cascata do conhecimento”, está resumida na figura...

Meu primeiro e verdadeiro mestre em Educação em Diabetes foi o saudoso Dr. Donnell Etzwiller, fundador e presidente do International Diabetes Center de Minneapolis, USA, quando iniciei minha formação nessa fascinante área da diabetologia, ainda em 1985. 

Don, como era carinhosamente chamado, ensinou-me algumas regrinhas básicas para o sucesso dos projetos educacionais na prevenção da doença e na promoção da saúde, tais como: a educação em saúde deve ser um processo contínuo, que não se esgota com meia dúzia de aulinhas; o médico deve ser apenas o coordenador de uma equipe de saúde onde os profissionais não-médicos é que, efetivamente, promovem o conhecimento e a qualificação do paciente para a auto-gestão de sua doença; não basta a equipe de saúde ser multidisciplinar, mas ela precisa ser interdisciplinar, ou seja, cada membro da equipe precisa ter uma formação verticalizada em sua área de atuação e também uma formação horizontalizada nas demais áreas...

A avaliação correta do controle glicêmico é um recurso indispensável para se verificar a adequação do tratamento, tanto em portadores de diabetes tipo 1, como do tipo 2. é através dessa avaliação que o médico pode definir as necessidades de eventuais mudanças no esquema terapêutico. Na prática clínica, essa avaliação pode ser feita através de dois testes principais: a glicemia de ponta de dedo, realizada em casa pelo próprio paciente, e a hemoglobina glicada, também conhecida como hemoglobina glicosilada e abreviada como A1C ou HbA1c, sendo que este teste só pode ser realizado em laboratórios clínicos, não sendo recomendado ainda na rotina do controle domiciliar.

Embora ambos os testes sejam destinados à avaliação do controle glicêmico, cada um desses testes oferece um determinado tipo de informação. A glicemia de ponta de dedo, por exemplo, informa o nível de glicemia no momento exato do teste (lembrar que a glicemia varia continuamente durante...

Uma diferença estatisticamente significante traduz  obrigatoriamente uma significância clínica? *

Durante a Reunião Anual da American Diabetes Association aconteceu o ansiosamente esperado debate entre Steven Nissen, um cardiologista da Cleveland Clinic e Philip Home, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. O primeiro defendeu ardorosamente os resultados da meta-análise que publicou recentemente no New England Journal of Medicine (NEJM), questionando a segurança de uso da rosiglitazona em função de uma suposta associação com um risco significativamente aumentado de infarto do miocárdio. O segundo, apresentou os resultados de uma análise parcial dos dados do estudo RECORD (Rosiglitazone Evaluated for Cardiac Outcomes and Regulation of Glycemia in Diabetes), um estudo prospectivo de longo prazo desenhado exclusivamente para avaliar o risco cardiovascular com o uso de rosiglitazona. 

Diferentemente da meta-análise de Nissen, o estudo RECORD, coordenado por Home e também publicado no NEJM, não conseguiu evidenciar nenhuma associação direta entre o uso de rosiglitazona...

A relação causa/efeito entre sobrepeso ou obesidade e os principais fatores de risco cardiovascular já está exaustivamente comprovada. Já é fato sobejamente conhecido que perdas de peso relativamente modestas, da ordem de 5% a 10% do peso original, conseguem proporcionar benefícios significativos a pacientes com diabetes com excesso de peso e portadores de patologias freqüentemente associadas ao diabetes, como a hipertensão e a dislipidemia. Muitos dos pacientes com diabetes tipo 2 (DM-2) que conseguem atingir tais níveis de perda de peso corpóreo descobrem que podem reduzir significativamente e até mesmo, em alguns casos, suspender os tratamentos farmacológicos que precisavam receber para o controle da hiperglicemia, da pressão arterial elevada e dos distúrbios do metabolismo do colesterol. 

A adoção da prática de atividades físicas regulares pode trazer benefícios adicionais que vão além daqueles derivados simplesmente da perda do excesso de peso corpóreo proporcionada por um tratamento dietético bem conduzido. Portanto, em tese, se a maioria dos...

Quase todos os dias nos deparamos com o conceito de “significância estatística” dos resultados de um estudo clínico, geralmente avaliada através da expressão “p<0,05” ou semelhantes. Mas, na realidade, o que significa isso em termos de verdade científica? O termo “nível de significância” não costuma ser adequadamente entendido pelos médicos na prática clínica.

Na linguagem coloquial, o termo “significante” quer dizer “algo importante” ao passo que, na linguagem estatística, esse termo tem o significado de “provavelmente verdadeiro” e, portanto, não resultante de uma situação aleatória. Um achado científico pode ser verdadeiro sem ser necessariamente importante. Quando os estaticistas dizem que um resultado é “altamente significante”, isto significa que a hipótese que está sendo testada é muito provavelmente verdadeira. Da mesma forma, em ciência, o fato de uma diferença entre tratamentos, por exemplo, ser estatisticamente significante, isso não significa necessariamente que esta diferença seja clinicamente importante ou interessante.

A definição do limite...

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