Vermes parasitas podem proteger contra o diabetes? – Mito ou Realidade?

Dra. Hermelinda C. Pedrosa

  • Endocrinologista
  • Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes - 2018-2019
  • Vice-President - Worldwide Initiatives for Diabetes Education
  • Advisory Board - Diabetic Foot International - Brazil
  • Coordenadora-Polo de Pesquisa-FEPECS|Unidade de Endocrinologia-HRT SES-DF

Dr. Augusto Pimazoni-Netto - CREMESP 11.970

  • Doutor em Ciências (Endocrinologia Clínica) pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
  • Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
  • E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

ALERTA!

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) mantém uma política de rígido combate aos pseudo-tratamentos e, ao mesmo tempo, reconhece que a comunidade de pessoas com diabetes tem o direito de ser informada sobre as novas opções terapêuticas. Seria o caso do uso de vermes parasitas para o controle do diabetes? A SBD ressalta enfaticamente que ainda não há elementos suficientemente comprobatórios sobre o verdadeiro grau de eficácia e segurança de uso dessa proposta terapêutica.


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Algumas pesquisas em ratos mostraram que as infecções por parasitas podem proteger os animais contra o diabetes, liberando moléculas anti-inflamatórias em seu corpo. Os cientistas da Universidade James Cook, da Austrália, estão recrutando voluntárias para um novo projeto de pesquisa que utilizará ancilostomídeos como uma possível terapia para aqueles em risco de doença crônica. Mulheres jovens com sobrepeso serão infectadas com vermes parasitas em um teste clínico mundial para combater o diabetes tipo 2 (DM2).[1]

O estudo de dois anos, que será realizado por pesquisadores do Instituto Australiano de Saúde e Medicina Tropical da JCU, e pelo Centro de Prevenção de Doenças Crônicas, examinará os efeitos das infestações por parasitas nas mulheres em risco de diabetes, para ver se há um resultado semelhante em humanos. Mulheres com excesso de peso, entre 18 e 44 anos, serão inoculadas com uma dose de larvas de ancilostomídeos e sua saúde será monitorada através de avaliações médicas regulares.[1]

A equipe de pesquisa inclui o Dr. Paul Giacomin, que está envolvido em testes em humanos para vermes parasitas, os quais mostram promessa no tratamento da inflamação em pacientes com doença celíaca. Ele descreveu os vermes parasitas como sendo mestres no controle da inflamação: "Agora temos a oportunidade de realizar um primeiro teste mundial sobre a segurança e os benefícios potenciais que as infecções com vermes parasitas têm em seres humanos que estão em risco de doenças metabólicas. Este teste será crítico para determinar se devemos começar a procurar as moléculas ativas que liberam o hormônio no corpo para controlar o metabolismo, que poderia ser produzido como uma droga para prevenir o DM2", disse o Dr Giacomin.[1]

Os pesquisadores disseram que a obesidade e o DM2 estão aumentando na população da Austrália, o que pode levar à incapacidade e morte prematura por insuficiência renal, doenças cardíacas e infecções. "Nas mulheres, os primeiros sinais de alerta incluem obesidade, pressão alta, glicose e gordura no sangue. Quando as mulheres jovens apresentam diabetes durante a gravidez, isso aumenta a probabilidade de que essas mulheres apresentem diabetes mais tarde e, também, aumenta o risco de diabetes no início da vida da criança", disseram eles.[1]

O estudo sobre ancilostomídeos é um dos 18 projetos de pesquisa locais que receberam uma parte do valor de US$ 135.000 em subsídios este ano da Fundação do Norte do Distrito de Queensland, na Austrália.[1]

Os vermes parasitas (helmintos) podem ajudar a combater doenças autoimunes, como lúpus, DM2, artrite reumatóide e doença de Crohn. Os vermes são pequenos organismos multicelulares que residem nos intestinos humanos. O imunologista da Rutgers, William Gause, publicou um artigo na Nature Reviews Immunology relatando que a presença dos vermes através de séculos de evolução levou os humanos a desenvolver uma resposta imunológica conhecida como imunidade do tipo 2. Essa resposta imunológica inclui vias reguladoras do sistema imunológico que controlam respostas inflamatórias prejudiciais que podem contribuir para várias doenças autoimunes.[2]

Como podem os vermes parasitas ajudar a prevenir doenças autoimunes?

Segundo os pesquisadores, a resposta imune parece ter se desenvolvido como uma forma de o corpo curar rapidamente as feridas causadas pelos parasitas. Componentes da imunidade do tipo 2 podem ser a arma futura para melhorar o processo de cicatrização de feridas. Esta resposta também desencadeia redes regulatórias vitais que impedem respostas imunes prejudiciais e inflamação que tendem a piorar a lesão tecidual.[2]

Os pesquisadores agora querem encontrar uma maneira de aproveitar os componentes da imunidade do tipo 2, a fim de direcionar o controle da inflamação que contribui para doenças autoimunes, como a doença inflamatória intestinal e diabetes. Portanto, encontrar uma nova maneira de estimular os componentes reguladores da imunidade do tipo 2 pode fornecer um novo conjunto de ferramentas para prevenir e controlar as respostas inflamatórias prejudiciais associadas a diferentes doenças.[2]

Estima-se que a estimativa de pessoas que sofrerão de diabetes passará de 425 milhões para 629 milhões em 2045, na faixa etária entre 20 e 79 anos, representando um aumento de 48% em todo o mundo. No caso do DM2, o aumento mais forte da incidência da doença ocorre em países em desenvolvimento e recém-industrializados, como o Brasil, cuja estimativa é de atingir 24 milhões. Esse aumento correlaciona-se não apenas com o progressivo estilo de vida sedentário e alterações nutricionais, mas também com mudanças ambientais.[3]

O aumento da incidência de diabetes tipo 1 (DM1) nos países industrializados nas últimas décadas não pode ser explicado apenas por fatores genéticos, sugerindo que também estão envolvidas mudanças ambientais. Uma dessas mudanças ambientais é uma exposição reduzida a patógenos devido à melhoria da higiene. Os helmintos parasitas modulam o sistema imunológico de seus hospedeiros e induzem respostas imunes tipo 2 e também reguladoras. Como as respostas imunes pró-inflamatórias são cruciais para o surgimento do DM1 e DM2, a imunomodulação induzida por helmintos pode prevenir o início do diabetes e melhorar a sensibilidade à insulina.[3]

Alguns estudos que investigaram helmintos parasitas e produtos derivados de helmintos e seu impacto sobre DM1 e DM2, destacam possíveis mecanismos de proteção. Vários estudos epidemiológicos em modelos animais, humanos e experimentais suportam esse efeito protetor de helmintos para o diabetes autoimune. Estudos recentes sugerem ainda que os helmintos também podem fornecer um efeito benéfico para o diabetes tipo 2.[4]

Referências bibliográficas:

[1] World-first trial to cure diabetes with parasitic hookworms. Diabetes Queenland. 10 de janeiro de 2018. Disponível em: https://www.diabetesqld.org.au/media-centre/2018/january/world-first-trial-to-cure-diabetes-with-parasitic-hookworms.aspx. Acesso em 08 de junho de 2018.

[2] Diabetes Healthy Solutions. Worms for Treatment of Diabetes. Disponível em https://diabeteshealthysolutions.com/worms-for-treatment-of-diabetes/. Acesso em 08 de junho de 2018.

[3] IDF – International Diabetes Federation – 8th Edition, 2017. www.idf.org. Acesso em 10 de junho de 2018.

[4] Berbudi A et al. Parasitic helminths and their beneficial impact on type 1 and type 2 diabetes. Diabetes Metab Res Rev. 2016 Mar; 32 (3): 238-50. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/dmrr.2673. Doi: 10.1002 / dmrr.2673. Acesso em 08 de junho de 2018.

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