A família e o diabetes

Dr. Edson da Silva

  • Doutor em Biologia Celular e Estrutural (UFV)
  • Docente da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM
  • Coordenador do Grupo de Estudo do Diabetes da UFVJM
  • Especialista em Educação em Diabetes (UNIP e ADJ-IDF-SBD)

As atuais abordagens terapêuticas para todos os tipos de diabetes exigem o cuidado efetivo com envolvimento não somente do paciente, mas de toda sua família e das pessoas que lhe fornece apoio social. O apoio familiar é benéfico e necessário para pacientes de qualquer faixa etária. Seja você pai, irmão ou outro membro da família, seu apoio e disposição podem fazer toda a diferença na saúde do membro da família que possui diabetes. As orientações fornecidas por profissionais de uma equipe de saúde, preferencialmente interdisciplinar, com abordagens dos aspectos biopsicossociais centrados no paciente e na sua família devem ser estimulados, enquanto o foco exclusivo na doença deve evitado.

Quando uma pessoa é diagnosticada com diabetes, a família tem sua rotina bruscamente modificada e passa a conviver com novas situações 24 horas por dia. As várias mudanças impactantes incluem os cuidados médicos farmacológicos (comprimidos orais, terapias com insulina, monitorização glicêmica, entre outros) e não farmacológicos (adequação da alimentação, prática regular de atividade física, estilo de vida mais saudável, etc.); os custos com os tratamentos; os desafios enfrentados pelo aluno com diabetes nas escolas ou do adulto nos postos de trabalho; entre outras mudanças podem afetar negativamente a rotina familiar.

Quando a criança tem diabetes os pais costumam assumir toda a responsabilidade pelo tratamento e o manejo da doença. Com o passar do tempo, a criança consegue adquirir autonomia e torna-se capaz de desenvolver habilidades para assumir um papel progressivamente mais ativo no seu tratamento. A capacidade de participação efetiva da criança, com autonomia no processo de aquisição de habilidade de autocuidado, depende mais da sua maturidade que da idade cronológica. Por isso, é importante o envolvimento da família desde o diagnóstico do diabetes, para favorecer o desenvolvimento das estratégias de apoio que possibilitarão o amadurecimento da criança e sua corresponsabilidade pelos resultados alcançados.  

É comum que os pais sintam a necessidade de vigiar seus filhos a todo momento com o objetivo de identificar episódios de hipoglicemia ou de hiperglicemia. Isso pode desencadear uma relação marcada por conflitos em família, o que interfere negativamente na adesão do paciente ao tratamento do diabetes. Por outro ponto de vista, se a família reconhece o esforço dos pacientes e oferece seu apoio, há melhor adesão ao tratamento e melhor controle metabólico, tanto em crianças e adolescentes, quanto em adultos com diabetes.

O autocuidado relacionado ao diabetes é um aspecto crítico do manejo da doença para adultos. Como os membros da família podem desempenhar um papel vital no manejo da doença do paciente, envolvê-los em intervenções de autocuidado pode influenciar positivamente os desfechos do tratamento do diabetes neste pacientes.

Estudos recentes evidenciam que a contribuição de membros da família de crianças, adolescentes, adultos ou idosos com diabetes podem contribuir com a melhora do controle glicêmico e o gerenciamento do diabetes. Uma pesquisa de revisão sistemática analisou as intervenções familiares para adultos com diabetes realizadas em estudos publicados no período de 1994 a 2014 e avaliou o impacto do envolvimento da família nos desfechos do diabetes nos pacientes. Os autores encontramos 26 estudos descrevendo intervenções familiares na vida de adultos com adultos. As intervenções foram realizadas com diferentes populações e configurações de pacientes. O grau de envolvimento familiar variou entre os estudos, mas evidências de melhora na autoeficácia dos pacientes, no apoio social percebido, no conhecimento sobre o diabetes e no autocuidado foram identificadas nos estudos. Devido à heterogeneidade dos desenhos do estudo, tipos de intervenções, relato dos resultados e envolvimento da família, foi difícil para os autores determinar como a participação da família nas intervenções do diabetes pode afetar os resultados clínicos dos pacientes. Apenas dois dos 26 estudos eram de alta qualidade e com substancial envolvimento familiar e relato de melhora da hemoglobina glicada (HbA1c). Segundo os autores, o desenvolvimento de intervenções em diabetes que incluam a família pode ser crítico para melhorar a saúde de adultos com diabetes, embora, outros estudos são necessários para investigar claramente o papel da intervenção familiar, e para avaliar a qualidade e a extensão da participação da família neste processo, possibilitando comparar os resultados dos pacientes com e sem o envolvimento familiar.

Os indivíduos com diabetes devem se envolver em comportamentos diários de autocuidado para evitar complicações. Nas relações entre os casais, compartilhar os desafios com seus parceiros pode influenciar positivamente o relacionamento, o qual muitas vezes dificulta a autoeficácia dos pacientes para o controle do diabetes. Um estudo realizado com adultos com diabetes tipo 2 e seus parceiros analisou três aspectos dos relacionamentos que teoricamente podem afetar a autoeficácia: investimento, apoio e satisfação do parceiro no relacionamento. Os autores identificaram que as intervenções destinadas ao apoio dos pacientes em sua autoeficácia para o comportamento de autogestão podem ser melhoradas através da consideração dos relacionamentos afetivos dos pacientes.

Podemos perceber que com tantas mudanças na rotina da pessoa que possui diabetes é necessário desenvolver estratégias para reduzir os conflitos em família. O conflito familiar relacionado ao tratamento do diabetes tem sido visto como problema comum, muitas vezes necessitando intervenções comportamentais para melhorar a comunicação e promover o trabalho em equipe dentro do lar. Diante disso, compartilhar as experiências da vida diária com diabetes com outras pessoas pode auxiliar os pacientes na aceitação e no enfrentamento do diabetes, no controle glicêmico e na redução da angústia acerca do diabetes, o que consequentemente contribui para a melhora da qualidade de vida e dos relacionamentos em família na presença do diabetes.

Referências

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