O horário do treinamento de força influencia os efeitos dessa modalidade de exercício sobre a glicemia?

Wellington Santana da Silva Júnior

  • Endocrinologista e Metabologista
  • Professor de Endocrinologia do Curso de Medicina da UFMA
  • Doutor em Ciências pela UERJ
  • Presidente da Comissão de Valorização de Novas Lideranças da SBEM
  • Membro do DDEE e do Departamento de Diabetes tipo 1 da SBD

O exercício físico é um componente fundamental do tratamento do diabetes e isso não é uma novidade. Entretanto muitas pessoas desconhecem particularidades dos diferentes exercícios sobre o controle da glicose e acabam perdendo a oportunidade de definir as melhores estratégias para otimizar os seus resultados.

Idealmente, pessoas com diabetes devem combinar o exercício aeróbio (caminhada rápida, corrida, bicicleta, natação etc.) com o exercício resistido (pesos livres, aparelhos de musculação, bandas elásticas ou uso do próprio peso corporal). Essas modalidades de exercício apresentam efeitos bem distintos no controle do diabetes. Diferentemente do exercício aeróbio, o exercício resistido pode aumentar a glicemia durante a sua execução, determinando um menor risco de hipoglicemia tanto durante quanto após o exercício (1). Por isso, antecipar o exercício resistido em relação ao treino aeróbio pode ser uma estratégia para minimizar o risco de hipoglicemia em pacientes insulinizados, por exemplo.

Curiosamente, o efeito do exercício resistido sobre a glicemia também parece ser influenciado pelo horário do treinamento ao longo do dia. É o que demonstrou um estudo recente em adultos com diabetes tipo 1 que usavam tanto múltiplas aplicações diárias quanto bombas de insulina (2). Esses indivíduos praticaram 2 séries de exercícios resistidos, com duração de ~40 minutos, em dois dias distintos. Inicialmente, o exercício foi praticado em jejum, às 07:00 h da manhã. Em um outro dia, a mesma série de exercícios foi praticada à tarde, às 17:00 h, após um lanche (uma barra de cereal com 19 gramas de carboidratos).

Em ambos os dias, os indivíduos iniciaram o exercício com valores semelhantes de glicemia. Quando o exercício foi realizado pela manhã, houve um ligeiro aumento da glicemia, que se manteve mais elevada 6 horas após o exercício. Porém, quando realizado à tarde, o exercício determinou uma ligeira redução da glicemia, que se manteve estável após 6 horas do treinamento!

Também foi constatada maior variabilidade das glicemias nas primeiras 6 horas após o exercício realizado pela manhã. O surgimento de hipoglicemia não foi diferente em quem praticou o exercício pela manhã ou à tarde, mas a hiperglicemia foi mais comum nas 6 horas que se seguiram ao treino matinal.

Com base nesses resultados, os autores sugeriram as seguintes orientações práticas: quem percebe uma tendência à hipoglicemia durante o treinamento de força, deve optar por executá-lo preferencialmente pela manhã. Por outro lado, quem percebe maior tendência à hiperglicemia após o exercício resistido, deve realizá-lo preferencialmente à tarde.

Conhecer essas particularidades do exercício resistido nos ajuda a entender por que a glicemia às vezes se comporta de maneira tão distinta durante e após os treinos. Assim, é possível agir por antecipação, planejando a melhor estratégia para explorar ao máximo os benefícios que o treinamento de força pode oferecer!

Referências:
  1. Sociedade Brasileira de Diabetes. Exercício físico e diabetes mellitus. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2019-2020. São Paulo: Clannad; 2019. p. 146-152.
  2. Toghi-Eshghi SR, Yardley JE. Morning (fasting) vs afternoon resistance exercise in individuals with type 1 diabetes: a randomized crossover study. J Clin Endocrinol Metab. 2019 Nov 1;104(11):5217-5224.