Identificado o receptor através do qual age a IRISINA!

Dr. Roberto Zagury

  • Endocrinologista do LPH - Laboratório de Performance Humana

Saiba mais sobre esta descoberta “pivotal” na coluna “Conversando com o especialista” do mês de JUNHO...

Você já ouviu falar da IRISINA ? Se ainda não ouviu, deveria... A IRISINA é uma miocina, ou seja, um hormônio sintetizado pelo músculo esquelético em resposta ao exercício físico e que suscita, entre outras ações, um “amarronzamento” do tecido adiposo branco (WAT – “White Adipose Tissue”). O que significa isso ? Através da ligação da IRISINA em seu receptor, presente em pré-adipócitos residentes no WAT, se inicia um programa gênico dito “termogênico”. Ou seja, se induz a transcrição gênica de forma a aumentar a expressão da UCP-1 (“Uncoupling Protein Type 1” = proteína desacopladora tipo 1) assim como se produz um aumento na densidade populacional de mitocôndrias. Este fenótipo celular, muito mais semelhante ao exibido pelo tecido adiposo marrom (BAT – “Brown Adipose Tissue”), é protetor do ponto de vista metabólico uma vez que é capaz de “queimar” calorias através dos chamados ciclos fúteis ao invés de estocar calorias. Quanto mais BAT (ou quanto mais “tecido adiposo beige” = tecido adiposo branco com características de marrom) e quanto maior a sua função menor o risco de obesidade, resistência à insulina e DM2. Este modelo, apesar de já consagrado em nossa especialidade, ainda tinha um “gap” principal: até então não se havia identificado o receptor no qual a IRISINA se liga nos órgãos alvo. Sabemos que a IRISINA é fruto da clivagem da porção extracelular de uma proteína transmembrana chamada FNDC5, mas não sabemos em qual receptor ela se liga. Mas isso agora é passado! Kim e cols (1) identificaram tal receptor. A ação da IRISINA se dá via um receptor da superfamília das integrinas: a integrina αV, um receptor transmembrana. Há agora então mais um potencial alvo terapêutico. Além da possibilidade de se desenvolver uma forma sintética de IRISINA, é possível também que tenhamos no futuro agonistas do receptor integrina αV. Quem sabe ? Não custa nada sonhar com toda uma família de terapias exercício miméticas... Nada irá substituir o exercício em si. Nunca! Mas ainda assim, muitas pessoas poderiam se beneficiar desse tipo de estratégia. Será que viveremos para ver ? “Time will tell”...

Outro aspecto muito interessante do trabalho do grupo de Kim e cols, citado em uma publicação no NEJM de abril de 2019 (2) diz respeito aos efeitos ósseos da IRISINA. Era de se esperar que a ativação do receptor tipo integrina αV presente no osteócito produzisse aumento de massa óssea. Isso porque o exercício protege contra o desenvolvimento de osteopenia/osteoporose. No entanto, infelizmente, a coisa não é tão simples quanto nós gostaríamos que fosse: ao se ligar no seu receptor presente no osteócito, a IRISINA estimula o processo de reabsorção óssea. Sim! Justamente o contrário do que esperávamos! Tal fato foi comprovado em animais de experimentação, “knockouteados” para o FNDC5 (o precursor da IRISINA) e que ficaram protegidos assim da perda de massa óssea induzida por ooforectomia. Ficamos então com o seguinte modelo: ao se ligar no receptor tipo integrina αV presente no osteócito, a IRISINA, impede que o ligante fisiológico – a fibronectina presente na matriz óssea – se ligue e com isso ativa a via da esclerostina, uma via de reabsorção óssea. Complicado, não é mesmo ? Com toda certeza. Mas muito intrigante ao mesmo tempo. E abre uma nova possibilidade em termos de tratamento para osteoporose: a modulação negativa da IRISINA no tecido ósseo. Enfim... especulações à parte, ficamos com as duas seguintes mensagens-chave deste momento importante da endocrinologia do esporte:

  1. Foi identificado o receptor através do qual a IRISINA exerce seus efeitos: a integrina αV, um receptor transmembrana presente no WAT e também nos osteócitos;
  2. Quando ativado no WAT este receptor promove um “amarronzamento” do WAT (aumento da expressão de UCP-1 e aumento na densidade mitocondrial) gerando um tecido mais ativo metabolicamente e protetor no que diz respeito a doenças metabólicas;
  3. Por outro lado, este mesmo receptor quando ativado pela IRISINA no tecido ósseo, produz reabsorção óssea (o contrário do esperado) via ativação da via da esclerostina e subsequente ativação de pré-osteoclastos em osteoclastos ativos.

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Bons treinos!
Roberto Zagury




Referências Bibliográficas:

  1. Kim H, Wrann CD, Jedrychowski M et al. Irisin mediates effects on bone and fat via αV integrin receptors. Cell 2018;175:1756-68.e17
  2. Farmer SR. Boning up irisin. N Engl J Med 2019;380(15):1480-2

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