Como posso contribuir para a saúde pública?

Sou médico, Clínico Geral, e trabalho no serviço público há 22 anos, incluindo dois anos de Residência Médica na especialidade.

 

Nesse período de Residência, passei por vários estágios, como Enfermaria, ambulatórios de especialidades básicas, Pronto Socorro, Unidade de Terapia Intensiva e atendimento primário em Centro de Saúde. Em cada setor tive a oportunidade de aprender, não apenas medicina, mas, principalmente, observar as condições de cada paciente encontrado em seus respectivos espaços de avaliação!

Aprendi a separar mentalmente cada doença ou morbidade em quatro seguimentos: Evitáveis, tratáveis, incuráveis e controláveis. As condições evitáveis são todas àquelas possíveis de interferências prévias; as tratáveis são as que dependem de medidas eficientes em seu combate e cura; as incuráveis são as que extrapolam os limites dos meios e das ciências disponíveis, porém têm as medidas paliativas e de apoio como suportes apaziguadores; enquanto as controláveis são àquelas aonde os pacientes e doenças podem conviver em equilíbrio, necessitando para isso intervenções periódicas para ajustes partilhados entre equipes multidisciplinares, pacientes e familiares.

Percebi que as doenças crônicas ofereciam a maior demanda hospitalar, em todos os setores, com grau de gravidade variado, sendo a obesidade o tronco com maior influência no surgimento de patologias outras e complicações afins.

Vendo, por exemplo, pacientes que davam entrada na UTI, causada por acidente vascular encefálico (AVE) ou Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), percebi que a maioria portava Diabetes, Hipertensão Arterial ou Dislipidemia (níveis de gorduras elevadas na corrente sanguínea) e que não vinha tendo controle metabólico e/ou hemodinâmico, por falta ou por tratamento inadequado. Esses pacientes tinham evoluções diferentes, dependendo da gravidade de seus quadros. Alguns iam a óbito, outros eram transferidos às enfermarias para compensação completa, ficando internados por tempo indeterminado ou necessário. Evidentemente, estariam susceptíveis a intercorrências inerentes à permanência em ambiente hospitalar, como por exemplo, infecções multirresistentes, levando-se em conta a fragilidade imunológica desses pacientes, causada pelo estresse natural da circunstância.

No serviço de nefrologia, também tive a mesma percepção, aonde pacientes chegavam com plena insuficiência renal, havendo, muitas vezes que se submeterem a diálise (filtração sanguínea extra corpórea) imediata, por perda de capacidade renal, causada, na maioria das vezes por Hipertensão Arterial Sistêmica e/ou Diabetes mellitus dos tipos 1 ou 2. Outros, por infecções repetitivas do trato urinário. Outros ainda, mais raramente, por causa obstrutiva, como Hiperplasia prostática benigna. No ambulatório de Oftalmologia lesões de retina, com redução da acuidade visual de graus variados se apresentavam nesses pacientes vulneráveis.

Na cirurgia vascular amputações também se processavam em pacientes com vasculopatias complicadas por processos necróticos e infecciosos. No Pronto Socorro pacientes davam entrada com picos hipertensivos, glicemias elevadas ou extremamente reduzidas, IAMs, AVEs, ferimentos infectados, etc. Diante das situações maiorais ficava a refletir: não seriam evitáveis?

Descobri também os grupos mais envolvidos nos atendimentos de urgências e de emergências (Pronto Socorro e UTIs) e nos setores de atendimentos especializados (Cirurgia vascular periférica/angiologia, Nefrologia, Oftalmologia, Cardiologia, Endocrinologia, etc.): Diabetes mellitus tipos 1 e 2, Hipertensão Arterial Sistêmica e Dislipidemia, com grande predomínio de Obesidade (graus I, II e III). Vítimas de acidentes automobilísticos ou de trânsitos e de traumas decorrentes de ferimentos por armas brancas, de fogo ou instrumentos corto contusos.

Após conclusão da minha residência médica, fiz o concurso na Secretaria de Saúde do DF, sendo aprovado e lotado no Centro de Saúde 6402 de Sobradinho/DF, em 94. Fui indicado para atendimento de clínica médica geral, de hipertensão arterial sistêmica e de diabetes mellitus tipo2, porém não disponibilizava de protocolos para apoio logísticos, para um médico recém formado e apresentado no mercado, sem experiências para formação dos referidos protocolos e sem noção de integração multidisciplinar, pois quando frequentei o Centro de Saúde, na época de Residência Médica, fazia apenas atendimento ambulatorial de rotina, sem ter sido apresentado aos serviços prestados naquela Unidade de Saúde.

A quantidade de pacientes, marcados para consultas médicas era sempre sufocante, sem tempo para discussão com a gerência daquele Centro ou com os funcionários envolvidos nos atendimentos, sempre diferentes no dia a dia, com rotatividade nas escalas, dificultando o aprimoramento harmônico e melhores resultados. Como avaliar? Não tínhamos banco de dados! Como compensar os pacientes em tempo hábil, sem vaga disponível para os retornos e os encaixes? Quantidade extra de pacientes e de trabalho, era o que podia ser feito (muitas vezes entrei além do horário de almoço e noturno também, sempre de forma voluntária)! Reduzir vagas e disponibilizar de agenda aberta foi o passo seguinte; fomos adaptando...

A medida que íamos melhorando, mais pacientes chegavam, paradoxalmente ao número disponível de servidores. Ir até a casa do paciente descompensado, investigar o motivo da descompensação: acondicionamento da medicação (insulina em ambiente inadequado?), nutrição disponível na casa daquele paciente (não tínhamos nutricionistas disponíveis para o feito), uso adequado da medicação (dose, horário, quantidade, etc.), compreensão das informações educativas aplicadas durante as reuniões direcionadas (não tínhamos quantidade suficiente de Agentes de Saúde para este trabalho). As parcerias seriam bem vindas, no intuito de orientar formação de hortas comunitárias, introdução de atividades físicas especializadas (parcerias: Universidades, Secretaria de Educação, SESI, etc.).

Distribuição regionalizada, cadastro, diretrizes, aplicativo, acompanhamento multidisciplinar ambulatorial e domiciliar – Acolhimento Espaço físico e  quantitativo de Servidores Capacitados: Médicos (02), Enfermeiras (02), Agentes comunitários (10), Nutricionistas (02), Dentistas (02), Servidora Social (01), etc.

Centro Escola: (Recebe alunos de Escola Superior de Ciências da Saúde);

Extensão: PSE e parcerias (Bombeiros, PM, Embrapa, etc: Equipes nas escolas: Obesidade, Gestação e DSTs na adolescência, Drogas lícitas e ilícitas, etc.);

Reuniões científicas periódicas, regionalizadas, etc.

Modelo de Centro de Saúde Integrado: Farmácia, RX, Ecografia, ECG, Laboratório de Análise Clínica, Ambulatórios de atendimento primário (Clínica Médica, Pediatria e Ginecologia/Obstetrícia + Serviço de Controle e Erradicação: TB, MH, DSTs/AIDS, Vacinação + Salas exclusivas para: curativos (limpos e contaminados), Hidratação e Medicação,  Nebulização, etc.

Benefícios:

- Prevenção, com reflexos sociais e financeiros (Acessibilidade qualificada, preservação da vida, apoio à integridade física e/ou mental, longevidade com qualidade, desoneração da carga previdenciária, redução nas internações e intervenções de complicações precoces, manter a capacidade produtiva do individuo em suas tarefas profissionais, etc.);

- Apoio no seguimento dos pacientes com patologias crônicas;

Papel das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs):  oferecer um atendimento emergencial, rápido e eficiente, assim como o fazem os Serviços de Pronto Socorro, integrados aos Hospitais Gerais. Reduz o movimento dos PSs, mas não oferecem seguimento das patologias de base!

O DETRAN percebeu a sua importância e tomou decisões importantes, unindo dados e formando parcerias, incluindo educação populacional, envolvendo faixas para pedestre, lei seca, punições mais rigorosas e fiscalização, dentre outras. Não solicitou mais construções de penitenciárias ou de hospitais destinados ao atendimento ao politraumatizado!

Dr. José Alberes Silva
Sobradinho/DF

 

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