Efeitos Colaterais

O médico Silvano Turatti é um profissional que gosta de contar histórias por ele vividas durante seus muitos anos de dedicação à medicina.

 

Dotado de um estilo leve, didático e capaz de envolver o leitor, Silvano Turatti lançou, em 2012, seu livro de casos “Juro que é tudo (ou quase) verdadeiro”, pela Editora Noeses Ltda., onde relata várias histórias bastante interessantes, como é o caso de “Efeitos Colaterais...”, cujo título original é apenas “Colateral”. Silvano Turatti é o pai de nosso amigo Luiz Alberto Turatti. 

EFEITOS COLATERAIS...

Medicina não é somente conhecimento e suas aplicações. É também uma arte, pois, como estas, às vezes, uma boa dose de criatividade é fundamental. Esta história é verdadeira, acreditem. 

Nos anos oitenta, os homens passaram a definitivamente cuidar da saúde como resposta às campanhas contra os chamados fatores de risco: obesidade, pressão alta, tabagismo, sedentarismo, diabetes e dislipidemias (que vem a ser elevação dos níveis de colesterol ou de triglicérides no sangue). Desenvolveram a consciência da importância dos exercícios, da alimentação e de cuidados periódicos, fazendo check-up, etc.

Atendi a um senhor, recomendado por outro paciente, que carregava diversos envelopes de laboratórios recheados de exames. Era um “figuraço” como diria um conhecido meu que trabalhava como estilista masculino. Tinha seus cinquenta e poucos anos, corpo atlético, barba bem feita, abundantes cabelos grisalhos, exageradamente banhados em gel fixador e um terrível e adocicado perfume. Camisa justa de cor azul com listas verticais vermelhas e amarelas e as mangas elevadas até o meio do antebraço. Nos pulsos, ao lado de um gigantesco relógio de mostrador preto, diversas pulseiras que com os movimentos emitiam um som que lembrava o da cauda de uma cascavel enfurecida. O grosso pescoço ostentava um cordão, de grandes elos, nestes pendurados um medalhão dourado, uma aliança e um crucifixo de madeira preta, com detalhes em prata. Calças “jeans” do tipo “stone washed five pocktes”, com um cinto branco fechado por uma vistosa fivela “country”. Nos pés, sem meias, sapatos mocassim amarelos com fivelas douradas. 

Vamos finalmente ao que interessa: 

Vinha de um amplo “check-up” realizado em um grande hospital da Capital há poucas semanas. Os exames já tinham sido apresentados e discutidos com o seu clínico: “tudo ótimo” a não ser os triglicérides, que se apresentavam em níveis elevados, quase oitocentos miligramas. 

– Bastante alto, hein? 

– É por causa dele que estou aqui, doutor. 

– O seu colega, clínico, recomendou-me controle na ingestão de gorduras, mais exercícios e um medicamento que deveria tomar quatro cápsulas por dia, está aqui a receita: clofibrato 500 mgs. 

– Concordo. Neste momento, é um dos melhores fármacos de que se dispõe, afirmei.

– Mas doutor, eu tenho uma “baita saúde”: nado, corro e pratico muitos esportes, como o tênis. Tenho um fantástico desempenho sexual, faço sexo todos os dias, diversas vezes. Sou um “garanhão”, sou melhor do que muito garoto por aí. 

– E doutor, não sinto nada, não sou doente e eu ODEIO tomar remédios, ainda mais QUATRO por dia! Assim não dá. Não irei tomar. Não vou tomar mesmo, pode escrever! 

Neste momento entrou em ação a criatividade: tínhamos à nossa frente uma pessoa que valorizava e muito, as suas performances sexuais. 

– O seu problema tem um componente genético importante. Veja, seu avô, seu pai, seus dois irmãos também têm triglicérides elevados. Este medicamento é necessário e eficaz. Tem poucos efeitos colaterais. Talvez o mais comum seja um rubor, uma sensação de calor no rosto, provavelmente por efeito vaso dilatador. Talvez por isso, alguns clientes refiram ereções mais firmes e aumento da libido. Claro que isso não seria um problema, ainda mais no seu caso.

– Como o senhor detesta medicamentos vamos combinar uma coisa: vai tomar só uma cápsula por dia, após o almoço, assim os efeitos colaterais, se surgirem, serão de pequena intensidade. Está bem assim? 

– Uma cápsula por dia? Topo.

– Ótimo. Faça tudo como combinado e volte dentro de dois meses para uma revisão e novamente os exames.

Levantou-se, agradeceu, passou pela recepção e se foi. 

Avisei à secretária que ia aproveitar o intervalo até a próxima consulta para ler alguns artigos que chegaram pelo correio. E se o último paciente, por acaso, telefonasse, que me transferisse a ligação. 

Não deu outra. Poucos instantes depois o telefone tocou. Era ele. 

– Sabe, doutor, dei novamente uma olhada nos exames. Os níveis do tal de triglicérides estão altos mesmo, não é? Não seria melhor eu já começar tomando mesmo quatro cápsulas por dia? Quero ficar bom logo!

– Ah! E tem uma coisa: quanto aos efeitos colaterais pode ficar tranquilo que eu “seguro a barra”.

Coloquei o fone no gancho. “Mordeu a isca”. Pensei comigo. Enquanto lentamente me espreguiçava dei boas gargalhadas. Remorso? Nunca, ainda mais quando se faz as coisas pelo bem...

 

Conte sua História
Nome
Obrigatório
Email
Obrigatório
Telefone
Mensagem
Obrigatório


Entrada Inválida

VOLTAR

Outras histórias

Fale Conosco SBD

Rua Afonso Braz, 579, Salas 72/74 - Vila Nova Conceição, CEP: 04511-0 11 - São Paulo - SP

(11) 3842 4931

secretaria@diabetes.org.br

SBD nas Redes