Dr. Arnaldo Moura Neto
Médico Endocrinologista formado pela Unicamp
Mestre em Clínica Médica e doutorando em Clínica Médica pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp
Especialista em endocrinologia pela SBEM e membro da SBD

Recentemente, a organização mundial da saúde (OMS) publicou novas diretrizes1 com recomendações para limitar o consumo de “açúcares livres”, ou seja, carboidratos simples que são adicionados artificialmente durante o processamento industrial dos alimentos. A OMS, em parceria com sua divisão de agricultura e alimentos (FAO – Food and Agriculture Organization), afirmam que o consumo de mais de 10% do total de calorias diárias na forma destes compostos pode levar ao aumento de obesidade, doenças não transmissíveis (diabetes, hipertensão, etc.) e cáries dentárias. Uma recomendação opcional é feita para limitar este total a não mais de 5%.

A associação entre ganho de peso e obesidade é já bem reconhecida, mas o papel do açúcar, consumido em quantidades cada vez maiores desde os anos 1970, como gerador de obesidade e diabetes ainda é assunto de grande controvérsia. Como o diabetes é popularmente conhecido como o aumento do “açúcar no sangue”,  é bem frequente o raciocínio dos pacientes de que um maior consumo de açúcar é o principal fator gerador da doença.

A confusão aumenta com o fato de que, na maioria dos estudos com grupos menores de pacientes, o papel do ganho de peso, seja este associado ao consumo excessivo de açúcar ou não, é o fator dominante para aparecimento de diabetes. Maior ainda, se associado ao sedentarismo. Fatores adicionais como história da doença na família, estresse, medicamentos e muitos outros podem modificar o risco individual. Assim, é corriqueiro que os médicos desmintam essa associação entre açúcar e diabetes, e passem a dar mais ênfase ao controle de peso e pratica de atividades físicas regulares.

Então, como conciliar essa visão com as preocupações da OMS? Uma possibilidade bastante plausível é a seguinte: do ponto de vista individual, muitos fatores altamente variáveis competem para o aparecimento do diabetes, sendo o ganho de peso aquele com maior preponderância. Por outro lado, várias pesquisas feitas com dados populacionais encontraram associação significativa entre maior consumo de açúcar e doenças crônicas, inclusive o diabetes. Um interessante estudo2 feito por pesquisadores da Califórnia avaliou dados de 173 países, provenientes de dados oficiais (urbanização, PIB per capita, industrialização, envelhecimento, incidência de diabetes) e da FAO (consumo alimentar de fibras, proteínas, álcool, açúcar refinado e outros), bem como sua evolução durante período de 2000 a 2010.

Após uma análise estatística cuidadosa e bastante repetitiva, o consumo de açúcar foi relacionado a maior incidência de diabetes, de forma independente da obesidade, sedentarismo e consumo de álcool. Tempo mais longo de exposição ao maior consumo de açúcar teve resultados semelhantes. Os autores tiveram ainda o cuidado de separar países onde o consumo de açúcar diminuiu durante o período, verificando que nestes a incidência de diabetes também caiu.

Ou seja, do ponto de vista mais coletivo, onde os fatores individuais são menos importantes, o consumo excessivo de açúcar pode aumentar o número de novos casos de diabetes. Diversos mecanismos metabólicos têm sido estudados nos últimos anos implicando o consumo de açúcar (principalmente aqueles ricos em frutose) com maior chance de ganho de peso, diabetes, esteato-hepatite não alcoólica, hipertrigliceridemia, aumento do ácido úrico e hipertensão. Enfim, todos os componentes da chamada síndrome metabólica.

Ou seja, como conclusão desta polêmica, pelo menos até o momento, podemos dizer que do ponto de vista individual de cada paciente, dentro do consultório, devemos continuar a atacar os fatores já consagrados: obesidade e sedentarismo. Porém, para uma estratégia preventiva eficaz, do ponto de vista coletivo e de saúde pública, talvez deveríamos dar maior atenção ao crescente aumento na adição de açúcares simples durante o processamento industrial dos alimentos, bem como ampliar os esforços em educação alimentar, visando uma escolha mais consciente daquilo que levamos do supermercado para dentro de casa.

Contra uma doença que se alastra rapidamente e em grande número, apenas com uma abordagem coletiva e maciça é que poderemos ter esperança de um futuro mais doce, mas no bom sentido.

Fontes:

  1.          http://who.int/mediacentre/news/releases/2015/sugar-guideline/en/
  2.          Basu S, Yoffe P, Hills N, Lustig RL. The relationship of sugar to population-level diabetes prevalence: an economic analysis of repeated cross-sectional data. Plos One 2013; 8(2):e57873

 

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Comentários  

Sadi 11-05-2015 17:23
Eu consumo muita fruta, verduras e legumes. Gostaria de saber qual desses é proibido para portador de diabetes tipo 2? Grato
Izidoro 15-04-2015 01:16
Dr. Arnaldo, seu artigo vai de encontro as novas orientações que devemos ministrar aos pacientes sobre a importância de reduzir a sobrecarga por carboidratos simples para prevenir a hiperinsulinemi a e a consequente esteatose hepática e suas consequências.