Dr. Reginaldo Albuquerque
Professor da UnB (1967-1981)
Superintendente de Ciências da Saúde CnPq (1982-1991)
Editor do site da Sociedade Brasileira de Diabetes (2005-2011)
Ex-Consultor em Educação da UnaSus/Fiocruz

Durante o Congresso da ADA, o teste HOMA para avaliação da resistência à insulina foi objeto de debates. Nesta crônica histórica, o Dr. Reginaldo Albuquerque descreve como foi seu primeiro encontro com o Prof. David Matthews, o criador do método.

(Texto original criado em 2006)

Conheci o Professor David Matthews no ônibus que nos levava ao jantar do Presidente durante o congresso de endócrino em Recife, em setembro de 2006.  Por acaso, sentei-me ao seu lado onde havia um assento vazio.  Não o reconheci e educadamente me esticou a mão e disse: “I am David Matthews from Oxford UK” e eu respondi “I am Reginaldo Albuquerque, from Brasília, Brasil”. A jornada que fazíamos parecia longa, indo de Boa Viagem a Caxangá, rumo ao atelier de Francisco Brenand, renomado artista pernambucano de múltiplas competências: ceramista, escultor, pintor, etc.  O papo foi tão bom, que o tempo passou rápido.

Começamos lembrando que as conexões Oxford-Recife eram muito antigas. Talvez mais de 4 décadas, iniciadas pelo professor Luiz Tavares, um cirurgião cardiovascular de fino trato e rara competência e que prosseguiu com Antonio Figueira, pediatra, diretor, reitor da Universidade do Recife.  e de uma liderança política importante em Pernambuco. A escola pernambucana de endocrinologia recebeu de Oxford uma forte influência. Lá esteve  Ney Cavalcanti, que se iniciou com Santos Moura em Pernambuco, consolidou a sua formação no IEDE com Jayme Rodrigues e Luis César Povoa. Em Oxford, Ney trabalhou com Cris Burke , principalmente em diabetes e a ele se seguiram os novos endocrinologistas de Pernambuco, como Francisco Bandeira, Gustavo Caldas, Lucio Vilar, Luis Gris, Luiza Braga e finalmente o atual presidente da SBEM, Ruy Lyra, que trabalhou diretamente com o Prof. Matthews.

A viagem e o papo prosseguiam até que, na altura da Cidade Universitária, começamos a conversar sobre a aula do professor no dia anterior com o título “Good and Bad news about Diabetes”.  No início ele mostrou vários slides sobre o funcionamento da célula beta. Havia muitos e elegantes recursos de animação que indicavam os vários caminhos metabólicos do funcionamento das células beta das ilhotas pancreáticas.  Em seguida passou a discutir como medir a massa funcionante das células beta. Mencionou, entre outras possibilidades, a medida da insulina, do peptídeo C, da pró-insulina, do clamp glicêmico, dos testes de tolerância à glicose e da glicohemoglobina.

Em seguida, passou a propor vários modelos matemáticos, inclusive o teste HOMA, que foi idealizado por ele e hoje é um dos assuntos mais discutidos em diabetes, principalmente pela necessidade de medir a resistência à insulina na síndrome metabólica.  A maioria dos laboratórios clínicos brasileiros já dá nos seus laudos os resultados do teste HOMA.  No site da SBD, há mais de um calculador que pode ser baixado no computador pessoal.  Em Campinas os Drs. Marcos Tambascia e Bruno Geloneze já determinaram os valores normais em mais de 1500 brasileiros e os dados estão aguardando publicação 

Ao indagarmos ao Dr. David sobre a importância deste teste do ponto de vista individual. Ele mostrou-se  bastante enfático: “É bom para estudos epidemiológicos e populacionais, mas sua interpretação é difícil quando se trata de dados individuais”.

Indagamos sobre o uso do IMC junto com o HOMA e ele disse que a combinação dos dois ajudaria na interpretação e que um modelo matemático poderia ser usado para isto. Ficamos curiosos pelo tratamento matemático que ele costumava usar e disse-me de uma forma bem singela e despretensiosa: “É que eu fui físico antes de ser médico”. As conclusões da conferência foram: a boa notícia é que já sabemos muito sobre o funcionamento das células beta. A notícia ruim é que não sabemos ainda onde elas falham”.

Já chegando no Museu Brenand indagamos sobre a sua aula do dia seguinte que seria sobre os resultados do UKPDS do qual foi uma dos coordenadores (talvez o mais importante)  e disse-me que iria mostrar os dados do impacto de algumas intervenções sobre as doenças cardiovasculares e novamente usaria alguns modelos matemáticos e que hoje, por razões éticas, seria impossível repetir os estudos do UKPDS.

Bom, a exposição e uma bela festa nos aguardavam, mas ainda vi o Prof. David Matthews percorrer embevecido a bela exibição do artista Brenand. Após a segunda aula pedi-lhe que nos gravasse uma entrevista que seria feita por seu discípulo Ruy Lyra e nos cedesse as apresentações para divulgação no site,  Num belo exemplo, para os que ainda resistem em nos ceder as suas apresentações, o professor concordou imediatamente.  Como vocês podem ter sentido isto foi uma bela viagem rumo ao mundo científico e à arte nordestina.

 

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