O diagnóstico de depressão exige o preenchimento de vários critérios. Pelo menos 5 sintomas precisam estar presentes por pelo menos 2 semanas:
 

1) humor deprimido; 2) diminuição no interesse no prazer em ativitidades (anedonia); 3) mudança significativa no peso ou no apetite; 4) insônia ou hipersônia; 5) agitação psicomotora (ou lentidão); 6) fadiga; 7) dificuldade de concentração; 8) sentimentos de culpa ou inutilidade; 9) ideação suicida. Um dos sintomas deve ser humor deprimido ou anedonia. Depressão menor envolve sintomas abaixo do critério para depressão maior. Distimia é definida com a presença de menos do que 5 sintomas, durando pelo menos 2 anos.

A depressão tem impacto nocivo sobre o controle glicêmico e, por sua vez, o diabetes mal controlado intensifica os sintomas depressivos. Para avaliar os impactos recíprocos entre depressão e diabetes do tipo 1 e do tipo 2, Anderson e colaboradores publicaram uma metanálise sobre a prevalência da depressão em adultos com diabetes [1]. Segundo esses autores, a depressão está associada à hiperglicemia e a um risco aumentado de complicações do diabetes. No sentido oposto, o alívio da depressão associa-se a uma melhora significativa do controle glicêmico. A metanálise incluiu 42 estudos e mostrou que a probabilidade de depressão na população diabética foi duas vezes maior do que a da população não diabética. Mostrou ainda que a prevalência de depressão foi significativamente maior em mulheres diabéticas (28%) do que em homens (18%).

Para dar uma ideia das correlações negativas entre o humor deprimido e o controle do diabetes, nada melhor do que um caso clínico real: Mariana (nome fictício) foi atendida em nosso serviço com uma glicemia média semanal de 476 mg/dL e uma variabilidade glicêmica, medida através do desvio padrão, de 60 mg/dL. Mulher sofrida, com sérios problemas familiares que incluíam alcoolismo e violência doméstica, manifestou claramente sua conformidade com o fato de nunca ter controlado seu diabetes, alegando que as consequências desse fato eram irrelevantes diante dos problemas que enfrentava. Os esforços educacionais da equipe multidisciplinar conseguiram convencê-la a, pelo menos, tentar seguir as novas orientações para ajudá-la a obter o necessário controle glicêmico que, por sua vez, iria contribuir para a melhoria de seu depressivo estado emocional. Contra todas as expectativas, ela aderiu totalmente ao tratamento e às orientações educacionais recebidas e, depois de apenas três semanas, conseguiu atingir, pela primeira vez na vida, o controle do diabetes, reduzindo a glicemia média semanal para 99 mg/dL e a variabilidade glicêmica para 34 mg/dL, como mostra o gráfico de perfil glicêmico a seguir.

Diante do sucesso obtido em sua tentativa desesperada de recuperar sua autoestima, Mariana sofreu uma completa transformação: pela primeira vez, mostrou um sorriso de satisfação pela conquista. Antes, um pouco descuidada com sua aparência pessoal, cortou os cabelos para um visual mais moderno e passou a investir numa aparência mais jovial e mais saudável. De poucas palavras no início, passou a se relacionar muito melhor com a equipe e com seus companheiros de ambulatório. Abandonou o pessimismo crônico e começou a manifestar esperanças de uma vida melhor. Enfim, aquela sua conquista pessoal foi decisiva para vencer o estado depressivo que a dominava. Mariana era outra pessoa durante todo o período de acompanhamento de várias semanas. Entretanto, é preciso ser realista. Seus problemas não desapareceram por milagre, mas a alegria da conquista mudou para muito melhor suas perspectivas de vida.

A American Diabetes Association publica uma orientação geral sobre o problema da depressão em portadores de diabetes [2], na qual ressalta os seguintes pontos:

Sentir-se triste de vez em quando é normal. Mas, algumas pessoas sentem tristeza, aparentemente sem causa, que simplesmente não desaparece. Sentindo-se assim na maior parte do dia, durante duas semanas ou mais, pode ser um sinal importante de depressão.

Estudos clínicos demonstram que portadores de diabetes têm um risco maior de depressão, embora não haja explicações fáceis para esse fato.

Quando o paciente não consegue obter o controle glicêmico, ou quando enfrenta as complicações do diabetes, ele “se convence” de que perdeu o controle sobre a doença.

A depressão pode promover um ciclo vicioso, prejudicando o controle da doença e dificultando a realização de tarefas necessárias para atingir o bom controle glicêmico.

A falta de controle glicêmico pode levar a sintomas que simulam a depressão. Níveis muito altos ou muito baixos de glicemia podem promover a sensação de cansaço e ansiedade.

Sempre que possível, uma orientação de profissional especializado em saúde mental e com experiência em diabetes pode ajudar bastante. O tratamento com antidepressivos pode ser necessário e, para tal, um profissional médico deve ser consultado.

Na presença de sintomas de depressão, não se deve esperar muito para buscar ajuda. Procure informar-se mais sobre a doença e procure serviços multidisciplinares de atenção ao portador de diabetes.

O diagnóstico precoce da depressão pode acelerar seu tratamento. Portanto, esteja atendo aos sinais mais comumente encontrados já nas fases iniciais do processo depressivo. Sempre que possível, é importante enfatizar a importância de tentar o controle glicêmico antes de medicar o estado depressivo. Em nosso Grupo, tivemos vários pacientes que saíram do estado depressivo a partir do controle glicêmico, outros que já tomavam medicação para depressão e só sentiram a melhora após o controle glicêmico e os que precisaram ser medicados para a depressão antes de aderirem ao tratamento do diabetes.

Psic. Katia Martins
CRP: 33316-0/06
Coordenadora de Psicologia do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do
Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP

Dr. Augusto Pimazoni Netto
CREMESP: 11.970
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do
Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP

PARTICIPE DESTE DEBATE: VOCÊ ACREDITA QUE O DIABETES MAL CONTROLADO PIORA A INTENSIDADE DA DEPRESSÃO OU DO HUMOR DEPRIMIDO? E VOCÊ ACREDITA QUE UM CONTROLE GLICÊMICO ADEQUADO PODE ALIVIAR OS SINTOMAS DE DEPRESSÃO OU DO HUMOR DEPRIMIDO?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Anderson RJ et al. The Prevalence of Comorbid Depression in Adults With Diabetes. Diabetes Care 24:1069-1078, 2001.
  • American Diabetes Association. Depression. Disponível aqui. Acesso em 02 de junho de 2014.

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Comentários  

Luciana Aguiar Leme 21-06-2016 09:49
Sou diabética a 20 anos e há aproximadamente estou instável, com a glicemia bem mais alta, e sem sucesso com todas as tentativas. A sensação de cansaço, fracasso e abandono são intensas, e por mais que lute nada melhora. Me consulto com uma endocrino muito boa, e acredito que preciso de mais ajuda
silvaneide 10-09-2014 19:38
tenho 39anos,e ja algum tempo tenho me encontrado assim,tenho recebido criticas quando vou nas consultas e sinceramennte não tem me ajudado.Hoje mesmo tive que sai do trabalho e procurar um pronto socorro e como sempre sai de lá,referindo sintomas de depressão ,mas sem nenhuma atenção em relação a tratamento.prec iso procurar um psiquiatra. ME AJUDEM!
Ana Celia 15-07-2014 20:52
Olá, me chamou a atenção o seguinte trecho "Quando o paciente não consegue obter o controle glicêmico, ou quando enfrenta as complicações do diabetes, ele “se convence” de que perdeu o controle sobre a doença".
Tenho 55 anos e sou diabética a 5 anos, não faço uso de insulina, faço dieta, atividades físicas, tomo as medicações prescritas, mas mesmo assim muitas vezes, sinto como se eu não tivesse controle nenhum sobre a diabetes, pois a medição mostra um aumento da glicemia que eu não entendo. Como não se convencer que perdeu o controle sobre a doença? Obrigada pela atenção,
Augusto Pimazoni Netto 23-06-2014 15:36
PREZADA VALÉRIA:

POR RAZÕES ÉTICAS, NÃO PODEMOS FORNECER NENHUMA ORIENTAÇÃO MÉDICA OU TERAPÊUTICA SOBRE NECESSIDADES E PROBLEMAS ESPECÍFICOS DE CADA PACIENTE. PELAS INFORMAÇÕES QUE VOCÊ NOS PASSA, A SITUAÇÃO DE SEU MARIDO INDICA QUE ELE EFETIVAMENTE NECESSITA DE ORIENTAÇÃO GERAL E DE SUPERVISÃO MÉDICA ESPECIALIZADA. TALVEZ VOCÊ POSSA CONTATAR UM PROFISSIONAL MÉSICO DE SUA CIDADE OU ENTÃO TENTAR ENCAMINHAR SEU MARIDO PARA TRATAMENTO JUNTO À FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO DA USP - HOSPITAL DAS CLÍNICAS.
Valéria R Almeida 21-06-2014 22:45
Boa noite.
Lendo a materia Diabetes em Debates, percebi que o problema do meu marido se encaixa nas pauta descutida. Meu marido e diabetico tipo 02 a 15 anos, sempre teve dificuldades em mante-la controlada, mas agora esta pior. Em dezembro foi jogar bola e quebrou a perna direita de lá para cá não consegue se recuperar. Perdeu muitos quilos, esta muito magro e agora a 2 semanas esta com a coluna travada e a perna direita. Não aceita falar em depressão faz usio de vários remédios, tem insonia, tem sentimento de culpa de ter ido jogar bola ele acha que por causa disso, quebrou a perna e não se recupera. Estamos em um circulo neurologista, ortopedista e endocrinologist a, cada um fala uma coisa e não chegam a nenhum diagnostico final, chegaram a falar em neuropatia diabetica. Por favor nos orienta o que fazer, quer ir trabalhar mas seu patrão vendo sua situação pediu para se recuperar primeiro. Esta a base de atestado. Me de uma luz, estou vendo meu marido de 47anos definhando, morrendo aos poucos, nos oriente por favor. Moro em Porto Ferreira - SP. Fico no aguardo de uma resposta.