Dr. Augusto Pimazoni Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
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Definir uma estratégia terapêutica que seja baseada em evidências, compatível com as habilidades e conceitos do médico prescritor e aceita sem restrições pelo paciente é uma verdadeira arte, muita vezes de difícil execução, mas de fundamental importância para o sucesso do tratamento.

A individualização da conduta terapêutica, definida com base nas características pessoais de cada paciente, é uma tendência atual e bastante efetiva no sentido de otimizar os resultados do tratamento.

Entretanto, o sucesso do tratamento não depende apenas da escolha acertada do médico prescritor em relação à efetividade terapêutica dessa escolha. Por um lado, as chances de sucesso de qualquer tratamento, com ou sem bases científicas, encontram um grande aliado e um promotor bastante efetivo da eficácia do tratamento: estamos falando do efeito placebo, caracterizado por uma visão muitas vezes excessivamente otimista do tratamento recebido pelo paciente. Nessa situação, a postura otimista do paciente aumenta consideravelmente o potencial de sucesso de qualquer tratamento.

A prática médica é muito rica em exemplos fantásticos de efeito placebo como fator contributivo importante dos resultados finais do tratamento. Muitas vezes, o próprio nome comercial do medicamento pode ser percebido pelo paciente como uma opção muito favorável à promoção da necessária eficácia terapêutica. Vários medicamentos populares usam e abusam da estratégia de criação de uma atitude favorável do paciente em relação a tratamentos que, sabidamente, não apresentam eficácia para o tratamento das condições a que se destinam. Da mesma forma, os vários “chás” que curam tudo e até mesmo a influência psicológica promovida pela fé podem funcionar como placebos bastante eficientes.

Mas, o que seria o tal de “efeito nocebo”? Evidências crescentes sugerem que a ocorrência de efeitos adversos indesejáveis durante o tratamento medicamentoso é determinada, pelo menos em parte, por efeitos não farmacológicos. Por exemplo, a maioria dos efeitos e sintomas indesejáveis relatados por pacientes em estudos clínicos não são causados pela medicação, o que pode ser comprovado com o fato bastante comum de que esses sintomas costumam ocorrer com frequências muito semelhantes entre pacientes do grupo tratado e do grupo placebo. Da mesma forma, a troca de um medicamento de marca por um medicamento genérico com componentes idênticos é frequentemente associada a um aumento dos eventos adversos indesejáveis, podendo levar à suspensão do tratamento. Esses exemplos salientam que as expectativas do paciente em relação a eventos adversos são fatores determinantes importantes de efeitos indesejáveis durante o tratamento medicamentoso.

Portanto, o efeito nocebo é caracterizado quando fatores psicológicos do paciente conseguem induzir efeitos negativos sobre a eficácia e/ou a tolerabilidade de um medicamento ou de um tratamento. Em outras palavras, o efeito nocebo é o oposto do efeito placebo, podendo ser desencadeado por fatores psicossociais e contextuais como, por exemplo, alguma experiência anterior mal sucedida ou de falha no tratamento, levando o paciente a acreditar que alguns ou todos os medicamentos para aquela sua condição específica apresentam efeitos adversos indesejáveis. O relato de eventos adversos pelos centros de farmacovigilância, quando divulgados pela imprensa em geral, promove um aumento considerável de relatos desses mesmos eventos por pacientes que já vinham sendo tratados pelo medicamento considerado. Coletivamente, o efeito nocebo pode reduzir substancialmente a eficácia e a tolerabilidade do medicamento e, como consequência, comprometer a adesão ao tratamento, resultando, muitas vezes, na suspensão de medicamentos absolutamente essenciais para determinado paciente.

Uma perguntinha final: você já se deparou com uma situação de efeito nocebo em alguns de seus pacientes? Como você conseguiu superar esse obstáculo?

Referência bibliográfica

Bingel U. Avoiding Nocebo Effects to Optimize Treatment Outcome. JAMA. Publicado online em 07 de julho de 2014. DOI:10.1001/jama.2014.8342.

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