Dr. Augusto Pimazoni Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

A situação do controle glicêmico no Brasil é desastrosa e altamente preocupante: 90% dos diabéticos tipo 1 e 73% dos diabéticos tipo 2 estão com o diabetes fora de controle. Uma das principais causas dessa situação é a falta de uma prática adequada de automonitorização da glicemia, o que retarda o diagnóstico do descontrole e não permite ao médico tomar decisões terapêuticas mais eficazes, exatamente pela falta de conhecimento do estado do controle glicêmico de seus pacientes.

A maioria dos pacientes simplesmente não dispõe dos monitores de glicemia e das tiras reagentes para essa prática. Dentre os que dispõem desse recurso, a grande maioria o utiliza de maneira equivocada, seja realizando os testes de forma totalmente aleatória e não freqüente, seja realizando seus testes sempre à mesma hora do dia, em geral sempre em jejum. Assim procedendo, o paciente jamais poderá conhecer o real estado de seu controle glicêmico: ele poderá estar bem controlado nas glicemias de jejum, mas totalmente fora de controle nas glicemias realizadas 2 horas após cada refeição.

Outro aspecto importante é que os testes de glicemia devem ser realizados de uma forma estruturada, de tal forma a obter os valores de glicemia nos diferentes horários do dia. Não existe uma frequência previamente determinada para a realização dos testes. Tudo vai depender do nível de controle e da estabilidade dos valores de glicemia. Quando o paciente está bem fora de controle, ele deve medir sua glicemia no mínimo 6 vezes ao dia, sendo 3 testes antes das principais refeições e 3 testes realizados 2 horas após essas refeições, durante pelo menos 3 dias por semana. Os resultados devem ser comunicados semanalmente ao médico, que deverá realizar as correções necessárias na conduta terapêutica. Repetindo-se essa frequência ampliada de testes durante algumas semanas seguidas, pode-se ter uma idéia precisa de como o controle glicêmico está evoluindo no decorrer das semanas. Depois de obtido o adequado controle glicêmico, daí então a frequência de testes poderá ser reduzida para 2 a 4 testes por semana, em diferentes horários do dia. A ilustração a seguir mostra a evolução favorável dos níveis glicêmicos durante um período de observação de 5 semanas, seguindo-se as orientações mencionadas anteriormente. O paciente em questão passou de uma situação de total descontrole para uma situação de controle completo da glicemia em apenas 5 semanas. A faixa verde do gráfico corresponde à área de normalidade dos valores de glicemia (70 mg/dL a 160 mg/dL).


A International Diabetes Federation considera a automonitorização uma prática indispensável, tanto para diabetes do tipo 1 como do tipo 2, desde que obedecidas as seguintes premissas: o paciente deve estar consciente da importância do bom controle glicêmico, além de conhecer bem como a automonitorização deve ser realizada; o paciente deverá também ter um suporte educacional de longo prazo por uma equipe multidisciplinar; e os dados obtidos através da automonitorização devem servir para auxiliar o médico na avaliação e na redefinição da conduta terapêutica.

Em resumo: a automonitorização é uma prática essencial para o bom controle do diabetes, quando praticada adequadamente. Mas torna-se um recurso absolutamente inútil quando praticada de forma equivocada.

VOLTAR

Você não tem permissão para enviar comentários

Comentários  

Augusto Pimazoni Netto 11-12-2014 13:33
Você tem razão. Minha recomendação refere-se apenas aos diabéticos tipo 2.
Dani Yumi 11-12-2014 13:26
No texto diz: "Depois de obtido o adequado controle glicêmico, daí então a frequência de testes poderá ser reduzida para 2 a 4 testes por semana, em diferentes horários do dia". Isso seria para os de diabetes tipo 2 apenas, não seria? Diabéticos tipo 1 precisam medir todos os dias em diferentes horários.
Alexandre Soares 09-12-2014 12:58
ANtes de mais nada parabéns pelo documento, muito importante e por conta deste e pesquisando na Internet formas alternativas de monitoramento e que pergunto ao Dr Augusto e a esta comunidade, se poderiam informar se presta o "tal" do Glucowatch e onde compra-lo. A idéia seria o monitoramento durante o sono, pois já tivemos diversos incidentes de hipoglicemia na minha sogra e justamente a noite.

Obrigado pela atenção.