Respostas da Enquete sobre Epidemiologia – Parte II - Prevenção de diabetes e suas complicações: paralelo entre o conhecimento dos profissionais de saúde e da população leiga

Apesar da evolução no conhecimento sobre os fatores de risco e história natural e dos avanços tecnológicos e terapêuticos em diabetes (DM), a ocorrência da doença e suas complicações crônicas são alarmantes conforme demonstrado na Parte I da Enquete de Epidemiologia (LINK para o texto da parte I). Grande ênfase é dirigida às medidas de prevenção primária e secundária do DM, tanto pelos profissionais de saúde quanto pela população leiga, visando à melhoria do cenário brasileiro da doença.

 Mas será que os aspectos associados ao DM tipo 2, passíveis de prevenção, são amplamente conhecidos por profissionais de saúde e população leiga (com ou sem DM)? De quais conhecimentos os leigos de fato já se apropriaram? Quais nós – profissionais de saúde – consideramos estar bem sedimentados para a população que assistimos?

Este texto discorre sobre estas questões fazendo um paralelo entre o que conhecemos e o que achamos que a população conhece, e informando sobre o que os leigos efetivamente incorporam no cotidiano. Para tanto, usamos as respostas relativas à prevenção e cuidados com DM provenientes de 2 fontes: Enquete de Epidemiologia, realizada com profissionais de saúde da SBD) e inquérito na população leiga conduzido pela empresa IBOPE (resultado completo no ...LINK). Questões selecionadas da Enquete são apresentadas, seguidas das respostas dos profissionais de saúde e de leigos entrevistados pela pesquisa IBOPE.

  1. A enquete eletrônica a profissionais de saúde cadastrados na SBD, realizada de março a junho de 2015, foi composta de 12 perguntas relacionadas ao DM. Um total de 291 profissionais respondeu, sendo 202 (69,4%) com formação em medicina, 23 (7,9%) em nutrição, 9 (3,1%) em educação física, 8 (2,7%) em psicologia e 49 (16,8%) classificados como outros.
  2. A pesquisa idealizada pela SBD e realizada pelo IBOPE, em setembro de 2013, incluiu 1106 pessoas de 6 cidades: São Paulo (336), Rio de Janeiro (210), Brasília (140), Recife (140), Belo Horizonte (140) e Porto Alegre (140). A amostra foi aleatória, em setores censitários, com cotas de perfil; 54% pertenceram ao sexo feminino, 48% de 18 a 39 anos e 52% maior do que 40 anos. Dos entrevistados, 96 pessoas relataram ter DM. A renda familiar em salários mínimos variou de: até 1 (11%), mais de 1 a 2 (22%), mais de 3 a 5 (39%) e mais de 5 (20%), e 76 pessoas (8%) não responderam. A escolaridade foi estratificada em: até a 4ª série do Fundamental (22%), da 5ª a 8ª série do Fundamental (19%), Ensino Médio (38%) e Superior (22%).

Interessante saber:

  • 99 a 100% dos entrevistados nas cidades já ouviram falar em DM.
  • Sinais e sintomas são amplamente conhecidos.
  • 80% sabem que há 2 tipos de DM e 90% que não é contagioso.
  • 70 a 80% definem DM como alta de açúcar no sangue (Figura 1) sendo maior este percentual nas classes sociais mais altas e de maior escolaridade.


Figura 1:

A lógica deste texto será a seguinte:

  • Pergunta da Enquete de Epidemiologia
  • Resposta dos profissionais de saúde à Enquete
  • Comentário frente à resposta da população leiga à pesquisa IBOPE no aspecto questionado
  1. PAPEL DA ALIMENTAÇÃO NA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO DIABETES MELLITUS
    - Em relação à alimentação, você considera que as recomendações a respeito das quantidades de açúcar e alimentos adoçados com sacarose, gorduras saturadas e calorias excessivas são claras para a população como abordagem preventiva e terapêutica do DM2?
    - Profissionais de Saúde:


    - Comentário:

De acordo com as respostas dos profissionais de saúde, a população não entende claramente as recomendações relacionadas à dieta para prevenção e tratamento do DM. Como veremos a seguir, a população reconhece a importância da dieta, porém, há carência de informações mais específicas sobre nutrientes, por exemplo, o benefício das fibras na dieta.
Diante da afirmação de que “pessoas com DM podem levar uma vida normal desde que se cuidem”, cerca de 85% dos entrevistados concordaram e a maioria reconheceu que a dieta é importante no tratamento do DM (64% daqueles sem e 76% daqueles com DM) (Figura 2).
Figura 2.


Contudo, cerca de 15 a 20% não sabe sobre a viabilidade de prevenção do DM tipo 2. Esse percentual é maior quanto mais baixa a classe social e a escolaridade. Evitar comer açúcar foi a medida preventiva mais relacionada (cerca de 80 a 90% das respostas), seguida de ingestão de gordura (37%), da atividade física (30%) e manutenção de peso saudável (21%) (Figura 3). Estas proporções não mudaram em relação à renda, classe socioeconômica e escolaridade e nem mesmo entre aqueles que já têm DM.
Diante da afirmação de que o DM pode "desaparecer se tiver uma vida mais saudável”, as opinões se dividiram entre ser verdadeiro ou falso e 6 a 8% não souberam responder, independente de escolaridade, classe social, renda e da presença de DM.

Figura 3.



Quanto à viabilidade, pode-se observar que a minoria inclui frutas e verduras na sua rotina alimentar (Figura 4), coerente com a resposta de baixo reconhecimento do papel protetor dos alimentos ricos em fibra (Figura 3). Nesse sentido, é importante enfatizar a questão financeira no acesso a alimentos saudáveis. A renda familiar foi forte indicador de consumo de frutas e verduras. O consumo diário foi de 66% e o consumo em nenhum dia da semana foi de 3% no grupo de renda acima de 5 salários mínimos, enquanto que no grupo de até 1 salário mínimo, o consumo diário foi de 38% e o consumo em nenhum dia da semana foi de 10%. O fato de ter DM, provavelmente influencia conhecimento e atitude, pois pessoas sem DM apresentaram maior frequência da resposta “nenhum dia da semana” (5%) comparados às que tinham DM (1%).

Figura 4.

 

2. PAPEL DA ATIVIDADE FÍSICA NA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO DIABETES MELLITUS
- Quão importante você considera a atividade física para prevenção e tratamento do DM2?
- Profissionais de Saúde:

- Comentário:
A importância da atividade física na abordagem preventiva e terapêutica do DM está bem sedimentada entre os profissionais de saúde, como pode demonstrado na tabela acima. Porém, para a população geral, a atividade física ainda não tem papel de destaque no manejo do DM e sua prevenção. Apesar da maioria dos entrevistados reconhecerem a importância da dieta (64% dos que não tem DM e 76% dos que tem), seguido pela relevância do uso de remédios (53% e 61% respectivamente), somente cerca de 30% das pessoas (com ou sem DM) reconhece a importância da atividade física para o tratamento (Figura 2) e também para a prevenção da doença (Figura 3).
A proporção de indivíduos que fazia pelo menos 30 minutos de atividade física diária, incluindo as atividades durante o seu tempo livre ou no trabalho foi de 40%, sendo maior entre os portadores de DM (49%) que entre não-diabéticos (39%) (Figura 5). Maior percentual também foi verificado no sexo masculino, crescendo com a escolaridade e a renda familiar.
Figura 5.

3. FONTE DE INFORMAÇÃO SOBRE DIABETES PARA A POPULAÇÃO
- O que você acredita ser a principal fonte de informação sobre DM para a população leiga?
- Profissionais de Saúde:



- Comentário:
Diferente do que a resposta dos profissionais de saúde previa, dentre os que já conheciam DM, 64% referiu buscar informações sobre a doença com médicos e profissionais de saúde como primeira opção, seguido pela TV (Figura 6)

Figura 6.



4. INFORMAÇÃO E CENÁRIO REAL SOBRE HÁBITOS DE VIDA SAUDÁVEIS
- A respeito de atitudes que podem aumentar ou prevenir diabetes e suas complicações, as informações atingem seus objetivos?
- Profissionais de Saúde:

- Comentário:
Em relação à prevenção da doença (Figura 2), a população leiga tem conhecimento a respeito dos principais fatores dietéticos associados ao risco de DM, porém o conhecimento sobre os benefícios da atividade física e da dieta rica em fibras não foram bem incorporados pela maioria, assim como a relevância de estar acima do peso. O consumo diário de frutas e verduras foi relatado por 53% da amostra total, sendo mais prevalente entre as mulheres, nos individuos acima de 40 anos e no grupo de maior escolaridade (Figura 4). A maioria, 60%, não pratica aividade física (Figura 5). A proporção de mais ativos foi maior no sexo masculino e nas categorias de maior escolaridade, renda e classe socioeconômica. Apesar do fato de ter DM influenciar no maior consumo de frutas e verduras, não houve diferença na frequência de atividade física por semana entre quem tinha ou não DM.
Portanto, hábitos de vida mais saudáveis são pouco adotados pela população e o excesso de peso é uma realidade, uma vez que 40 a 50% dos indivíduos relatam estar acima do seu peso ideal (Figura 7).
Figura 7.



A respeito do cuidado com a doença e suas complicações, os objetivos (de controle do DM e prevenção de complicações crônicas) dependem primeiramente da percepção da população sobre prognóstico do DM (Figura 8). Apesar de entenderem o DM como uma doença grave com complicações e comprometimento da saúde (Figura 9), cerca de 85% responderam que “pessoas com DM podem levar uma vida normal desde que se cuidem”.
Figura 8.



Figura 9.



Quando questionados a respeito da investigação ou presença de fatores de risco para as complicações do DM, os entrevistados concordaram (percentual de quem respondeu positivamente a frase relacionada) que são importantes diversos cuidados preventivos com a saúde (Figura 10). Em relação a cuidados com a saúde, mulher, mais velhos e grupo de menor escolaridade foram mais a médicos recentemente. Porém, não foi especificado se em consulta de rotina, preventiva ou em atendimento de urgência. Como esperado, maior proporção de indivíduos com DM reportaram ter consultado médico no último mês (60%) contra 29% dos não-diabéticos. Dos aqueles com DM, 8% relataram não ter ido ao médico nos últimos 6 meses, sendo que 6% disseram que fazia mais de 1 ano que não consultavam a médico e 1% afirmou que nunca foi!

Figura 10.



Comentário final

Considerando a Enquete, podemos afirmar que conceitos sobre a importância de hábitos de vida na prevenção e no controle do DM são bem conhecidos pelo profissional de saúde. Não podemos afirmar, entretanto, que profissionais de outras áreas e especialidades estão a par de todos estes conhecimentos. As respostas dadas pela população evidenciam que certos conhecimentos já estão sedimentados entre os leigos, enquanto outros não receberam a merecida importância, como atividade física e consumo de alimentos ricos em fibras. Em relação ao impacto deste conhecimento no cotidiano e na saúde, as respostas corroboram dados do VIGITEL, que apontaram baixo consumo de frutas e verduras e baixo nível atividade física em paralelo com altas cifras de excesso de peso na população brasileira.

Apesar do conhecimento sobre medidas eficazes de prevenção e controle de DM e suas complicações por parte dos profissionais, ações preventivas ainda não foram efetivas para mudar certos hábitos de vida da população e potencialmente capazes de reduzir os prejuízos do DM e comorbidades.

Importante enfatizar, que a população elegeu os profissionais de saúde como principal fonte segura de informação! Portanto, é essencial que os profissionais de saúde com conhecimento em DM sejam propagadores deste conhecimento na sua prática clínica e na mídia. Uma equipe de profissionais com conhecimento sobre as diversas áreas (médico, nutricionista, educador físico, psicólogo, entre outros) pode ser o melhor caminho para garantir que o conhecimento científico sobre prevenção e controle de DM e suas implicações sejam entendidas pela população e revertidas em mudanças de comportamento.

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Informações dos Autores

Dra. Bianca de Almeida Pititto
- Médica do Departamento de Medicina Preventiva-UNIFESP, MD, Endocrinologia da UNIFESP-EPM;
- PhD e Pós-doutorado, Faculdade de Saúde Pública-USP
- Vice-coordenadora do Departamento de Epidemiologia da SBD

Dra. Sandra Roberta Gouvea Ferreira
Professora Titular do Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública-USP.

 

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