Manejo do diabetes mellitus: paralelo entre o conhecimento dos profissionais de saúde e da população leiga

Respostas da Enquete sobre Epidemiologia – Parte III

Dando continuidade a avaliação das respostas à Enquete de Epidemiolgia, apresentamos a terceira parte das respostas e comentários. Este texto discorre sobre estas questões em relação a prática clínica no manejo do diabetes, fazendo um paralelo entre o que conhecemos e o que achamos que a população conhece, e informando sobre o que os leigos efetivamente incorporam no cotidiano. Para tanto, usamos respostas provenientes de 2 fontes: Enquete de Epidemiologia, realizada com profissionais de saúde da SBD) e inquérito na população leiga conduzido pela empresa IBOPE (resultado completo no LINK). Questões selecionadas da Enquete são apresentadas, seguidas das respostas dos profissionais de saúde e de leigos entrevistados pela pesquisa IBOPE.

1. A enquete eletrônica a profissionais de saúde cadastrados na SBD, realizada de março a junho de 2015, foi composta de 12 perguntas relacionadas ao DM. Um total de 291 profissionais respondeu, sendo 202 (69,4%) com formação em medicina, 23 (7,9%) em nutrição, 9 (3,1%) em educação física, 8 (2,7%) em psicologia e 49 (16,8%) classificados como outros.

2. A pesquisa idealizada pela SBD e realizada pelo IBOPE, em setembro de 2013, incluiu 1106 pessoas de 6 cidades: São Paulo (336), Rio de Janeiro (210), Brasília (140), Recife (140), Belo Horizonte (140) e Porto Alegre (140). A amostra foi aleatória, em setores censitários, com cotas de perfil; 54% pertenceram ao sexo feminino, 48% de 18 a 39 anos e 52% maior do que 40 anos. Dos entrevistados, 96 pessoas relataram ter DM. A renda familiar em salários mínimos variou de: até 1 (11%), mais de 1 a 2 (22%), mais de 3 a 5 (39%) e mais de 5 (20%), e 76 pessoas (8%) não responderam. A escolaridade foi estratificada em: até a 4ª série do Fundamental (22%), da 5ª a 8ª série do Fundamental (19%), Ensino Médio (38%) e Superior (22%).

Interessante saber:

• 99 a 100% dos entrevistados nas cidades já ouviram falar em DM.
• Sinais e sintomas são amplamente conhecidos.
• 80% sabem que há 2 tipos de DM e 90% que não é contagioso.
• 70 a 80% definem DM como alta de açúcar no sangue (Figura 1) sendo maior este percentual nas classes sociais mais altas e de maior escolaridade.

Figura 1:



A lógica deste texto será a seguinte:

  • Pergunta da Enquete de Epidemiologia
  • Resposta dos profissionais de saúde à Enquete
  • Comentário final associado a resposta da população leiga à pesquisa IBOPE

CUIDADOS COM DIABETES MELLITUS

  • Você considera importante estabelecer com os portadores de diabetes as metas e prioridades de abordagem durante o tratamento crônico, visando maior efetividade da nossa abordagem?
  • Profissionais de Saúde:
  • Na sua orientação prática para manejo do DM, você comumente conta com envolvimento de:
  • Profissionais de Saúde:
  • Na sua prática em cuidado crônico de DM, como é sua atuação?
  • Profissionais de Saúde:
  • Além da justa remuneração financeira, o que você apontaria de mais importante para cuidar melhor do paciente com DM no nosso meio?
  • Profissionais de Saúde:
  • Comentário:
    Diante das respostas da pesquisa IBOPE podemos constatar que os profissionais reconhecem a importância de diversas disciplinas para orientação adequada e acompanhamento dos indivíduos diabéticos, visando a controles mais efetivos do diabetes, suas complicações e das doenças associadas. Os leigos compreendem e também apontam a importância da abordagem dos múltiplos aspectos relacionados ao tratamento do diabetes que envolve o trabalho conjunto de várias disciplinas.

    Na pesquisa IBOPE-SBD dos indivíduos com diabetes, 8% relataram não ter ido ao médico nos últimos 6 meses, 6% disseram que fazia mais de 1 ano que não iam a médico e 1% afirmou que nunca foi! As informações abaixo relacionadas estão em ordem de importância relatada pelos entrevistados da pesquisa IBOPE, que conheciam diabetes, independente de sexo, idade, grau de escolaridade, renda ou classe social. Interessante notar que informações relacionadas à alimentação estão entre suas principais preocupações:

    Informações sobre como controlar os níveis de açúcar no sangue
    Quais as dietas e receitas de comida indicadas para diabéticos
    Informações sobre qual o melhor tratamento para diabetes
    Informações sobre qual o melhor tipo de médico para fazer o tratamento
    Quais as atividades físicas indicadas para diabéticos
    Informação sobre produtos dietéticos
    Informações sobre os efeitos do diabetes na saúde do paciente
    Indicação de restaurantes com cardápios específicos de diabetes

Quando questionados sobre as maiores dificuldades enfrentadas no tratamento do DM, e que, portanto, estariam entre as prioridades dos pacientes, notem que seguir as orientações a respeito da alimentação também lideram suas preocupações.



Os entrevistados apontaram que ter que fazer a dieta é mais dificil do que tomar remédios e tão difícil quanto realizar glicemia capilar e controlar a glicemia. Interessante que a percepção dos desafios do controle do diabetes pelos que não têm DM foi semelhante àqueles que têm DM; somente diferindo em relação ao controle da glicemia capilar que foi considerada uma das partes mais difíceis do manejo da doença para os que não têm DM (26%) quando comparada a opinião dos que têm DM (17%).

O entendimento de quais são as principais preocupações dos pacientes e, também, familiares ou responsáveis, esclarece e reforça a importância de uma abordagem multiprofissional que atenda às expectativas e ansiedades dos portadores de DM para que haja mais efetividade nas orientações terapêuticas. O esclarecimento destas necessidades, valoriza ainda mais aspectos do manejo do DM relacionados a hábitos de vida, cuidados com a saúde, realização adequada da glicemia capilar, uso adequado dos medicamentos, reforçando a importância de uma equipe composta de profissionais de diferentes áreas. Essa realidade pode ser constatada na resposta dada pelos profissionais de que 44% deles já atuam em equipe multidisciplinar. Interessante notar que proporções semelhantes apareceram nas respostas de “consultas individuais” (28%) e “atendimento interdisciplinar” (24%). Porém, os profissionais reconhecem que uma equipe não só multidisciplinar, mas interdisciplinar, precisa ser ainda mais valorizada na prática clínica. O problema é que mesmo trabalhando desta forma integrada nós, profissionais da saúde, não temos tido muito sucesso em enfrentar o desafio de mudar e sustentar um estilo de vida saudável.

Enfim, a troca de expertises e o trabalho interdisciplinar já são reconhecidos como vias efetivas na busca das conhecidas metas no tratamento do DM, como adequação de hábitos de vida, controle glicêmico, prevenção de complicações e uso adequado de medicações; bem como na busca de prover as condições adequadas aos pacientes para serem protagonistas do controle glicêmico e da prevenção de possíveis complicações.

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Informações dos Autores

Dra. Bianca de Almeida Pititto
- Médica do Departamento de Medicina Preventiva-UNIFESP, MD, Endocrinologia da UNIFESP-EPM;
- PhD e Pós-doutorado, Faculdade de Saúde Pública-USP
- Vice-coordenadora do Departamento de Epidemiologia da SBD

Dra. Sandra Roberta Gouvea Ferreira
Professora Titular do Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública-USP.